Geralmente, Londres aparece aqui no blog por motivos muito cool: tendências, música, festas, cultura pop.

Mas, desde sábado (6), Londres está em chamas e o cenário só piora. Os distúrbios, saques, incêndios e quebra-quebras se espalham pela cidade (e fora dela, agora que Birmingham, Manchester, Liverpool e Bristol também registram problemas).

Minha família costuma ficar em Hackney quando está em Londres. Minha mãe está por lá e nesta segunda (8), depois de ir ao centro do bairro para compras, voltou assustada quando a situação começou a ficar tensa. Lojas todas fechadas, helicópteros pelos céus, jovens encapuzados correndo pelas ruas e sensação de caos.

Há dois fatores por trás dos distúrbios: o estopim do momento, que foi a morte de um homem negro causada pela polícia; e um ressentimento mais antigo e profundo que envolve questões raciais e sociais, amplificados num país em crise com um governo que vem realizando sucessivos cortes em benefícios e auxílio.

Aqui matéria do The Guardian sobre o fechamento dos Youth Clubs (clubes para tirar jovens das ruas e direcioná-los para esporte, atividades vocacionais e emprego).

Não fez nem um ano que enormes protestos estudantis tomaram conta de Londres. Os manifestantes reclamavam contra cortes no sistema educacional.

Existe, claro, uma grande diferença entre protestar pelos seus direitos e as cenas de vandalismo gratuito e saques que tomaram conta da capital britânica. Pessoas perderam a moradia em incêndios, pequenos comerciantes tiveram prejuízos imensos e jornalistas foram agredidos. Não se pode justificar nada disso, mas deve-se procurar entender o que alimenta a raiva e a vontade de destruir.

Um livro que ajuda a compreender as raízes da tensão social no Reino Unido é No Such Thing as Society: A History of Britain in the 1980s, de Andy McSmith, que analisa a década dominada pelo governo Margaret Thatcher, uma época em que o abismo entre ricos e pobres aumentou muito. Foi o tempo onde se criou um novo paradigma social, mais individualista, expresso na frase de Thatcher que dá nome ao livro: "Essa coisa de sociedade não existe... as pessoas tem que cuidar de si mesmas primeiro."

Será que o caldo transbordou de vez agora?

O site do jornal The Guardian mantém um update constante dos acontecimentos nesse link aqui.