Esses tempos, a mídia do mundo inteiro andou repercutindo, em choque, a ameaça de extinção sofrida pelos Awá-Guajá, a tribo "mais ameaçada" do mundo. Estão prestes a ser varridos do mapa por um punhado de toras de madeira. Uma campanha internacional estrelada pelo ator britânico Colin Firth bateu recordes de adesão.

Já a opinião pública brasileira, em geral, não parece preocupada. Normal, assuntos indígenas não nos sensibilizam. Para muitos, essas tribos "primitivas" são um estorvo, gente que deveria ser incorporada à força ao "nosso" modo de viver, pagar imposto e parar de encher o saco.

E é muito por isso que quando o cidadão médio se depara com um cartaz escrito "Xingu" no multiplex do shopping, vira para a bilheteira e pede um ingresso para Os Vingadores. A saga dos Villas-Boas, por mais heróica que seja, não tem poderes para competir com os super-heróis da Marvel. (aliás, nada contra Os Vingadores, pelo contrário...)

No dia em que vi Xingu estava acontecendo o seguinte. Era a última sessão dos cinemas do Shopping Bourbon, em São Paulo. Na fila, faltando uma hora para começar, uma funcionária avisa: "Tá tudo esgotado, só tem ingresso pra Xingu". Muitos abandonam a fila. Outros tantos continuam, num espírito: "já que tô aqui…".

Lá dentro, a sala está cheia. Público inquieto. "É documentário, né? Se não for filme de ação eu durmo", solta um ao meu lado. A conversa rola animada até a primeira cena entrar: uma tomada das águas do rio Xingu, lindamente fotografadas.

Xingu não demora muito para prender. Os protagonistas em excelentes atuações. Os personagens retratados de maneira complexa, sem maniqueísmo. A bem conduzida dramatização dos fatos. As paisagens grandiosas e inóspitas. O choque cultural entre brancos e índios. Os índios que são índios de verdade. O idealismo dos irmãos Villas-Boas. Pessoas que conheço acharam que o ritmo do filme às vezes vacila. Não senti. Lá pelas tantas, a sala está em silêncio, aparentemente engajada no filme.

Não sei se todo mundo ali tinha sido mesmo conquistado. Mas a sala ficou cheia até o fim (só vi um casal saindo) e arrisco dizer que muita gente saiu dali feliz por ter, por acaso, visto um ótimo filme sobre uma grande história brasileira. Fui checar no Twitter e vi muito comentário do tipo: "acabei vendo por falta de escolha e curti muito."

Até agora foram 280 mil espectadores nas três primeiras semanas de exibição. Parece um número bom para um filme nacional com tema não-comercial? Até é, mas não é o bastante para o filme se pagar. Por conta do resultado, o produtor Fernando Meirelles desistiu de fazer filme no Brasil por um tempo.

"Brasileiro não gosta de índio", diz o presidente Jânio Quadros no filme em certo momento. Por isso, acaba ignorando um filmaço como Xingu. Mas isso não é o pior. É por isso também que quem está agitando a campanha para salvar os índios Awá-Guajá é um ator nascido em Hampshire, Inglaterra.

Veja aqui onde assistir "Xingu".