/ Calbuque
  • 16/09/14 às 17:20

    Nas sombras com Kode 9

    Sol, nem pensar. DJ, produtor, filósofo e dono da gravadora Hyperdub, Kode 9 (Steve Goodman) reaparece mais sombrio do que nunca em seu novo EP, “Killing season”. Previsto para chegar às lojas no final de outubro, ele traz Kode 9 – que toca na Wobble, no Rio, no próximo dia 4 – novamente acompanhado pelo MC The Spaceape, seu parceiro de longa data, em cinco faixas que tem temas como magia, demônios, exorcismo e vudu, num mergulho pelas profundezas do grime.

    Bú!

  • 02/09/14 às 19:08

    O conselho de Bruce Lee

    Do hip-hop ao drum and bass, o que não faltam são músicas com samples de frases de Bruce Lee. Uma das mais recentes é essa do Fold, com a famosa “be water, my friend” (já usada por Masta Killa, do Wu-Tang Clan, em “No said date”)

    Now fight!

  • 25/08/14 às 15:21

    A aparição de Kate Bush

    Doc feito pela BBC para saudar a volta aos palcos da fada Kate Bush – uma das figuras mais misteriosas e reclusas do universo pop – depois uma pequena ausência de 35 anos. Vão ser 15 shows, a partir de amanhã, no Hammersmith Apollo, em Londres – todos com lotação esgotada assim que os ingressos começaram a ser vendidos, em março. Outras sete datas foram anunciadas, entre setembro e outubro.

    No filme, os depoimentos de Peter Gabriel, John Lydon, Tori Amos, David Gilmour, Big Boi (Outkast), Tricky e Neil Gaiman ajudam a entender o motivo de toda a excitação em torno dessa verdadeira aparição.

  • 20/08/14 às 19:15

    O embriagante sabor do Aguardela

    Com ares dramáticos e espírito aventureiro, o grupo mineiro debuta com estilo em embriagante álbum homônimo, independente, transitando por uma incomum rota, que passa pelo folk de tons barrocos, a MPB e o rock experimental, em faixas como “Cantiga da meia volta” e “Oá” (dos videos abaixo), que, dependendo da dose, ecoam Mutantes, Tom Waits e Tortoise.

  • 31/07/14 às 17:39

    O rap de Capicua é muito gira

    Capicua é Ana Matos. Capicua é rapper. O nome vem de uma expressão catalã (e significa algo como “cabeça” e “cauda”). A origem é Portugal, mais precisamente a cidade do Porto. A língua é a nossa, mas com o sotaque deles e a esperteza dela. As influências são diversas: passam por Sergio Godinho e Zeca Afonso, ícones locais, que se destacaram por seu engajamento durante a Revolução dos Cravos (“Músicas que meus pais ouviam”, me diz ela, de passagem pelo Rio), cruzam com pioneiros do rap português, como Mind The Gap e Dilema, e se esticam até Kanye West.

    O nível é superior, em todos os sentidos (Ana é socióloga). O segundo álbum de Capicua, o recém lançado “Sereia louca”, afirma isso em suas 10 bem articuladas faixas, que abrem espaço até para um incrível mix com o fado (“Soldadinho”, com a participação da cantora Gisele João), sem contar o groove macio de “Vayorken”, de tons autobiográficos (Quando seus pais viajavam para Nova York, ela, ainda pequena, dizia que tinham ido pra “Vayorken”). Ouça sem erro: Capicua é muito gira.

  • 17/07/14 às 20:39

    Aquele abraço, Johnny Winter

    O desaparecimento de Johnny Winter (1944-2014) pode simbolizar também a iminente extinção de uma das figuras mais marcantes da música pop: o herói da guitarra, o guitar hero, o craque das seis cordas elétricas. Talvez não tenhamos mais disposição (ou atenção) para ouví-los, talvez eles não tenham mais disposição (ou espaço) para nos encantar. Quem sabe? Na dúvida, aproveite a data e saboreie a herança deixada pelo genial albino. Cate por aí a íntegra de “Progressive blues experiment” (seu espetacular debut, de 1968), “Captured live” (selvagem registro ao vivo, de 1976) ou “Hard again” (que produziu para Muddy Waters, em 1977). E se em algum momento você se pegar tocando uma ridícula guitarra imaginária em frente ao espelho ao ouví-los, fique tranquilo e curta. Essas coisas acontecem.

  • 13/06/14 às 17:15

    Fred, os truques e a ‘fé’

    O gesto de Fred na estreia da seleção na Copa, levantando os dedinhos para cima e agradecendo aos céus após o juiz ter caído na sua simulação de um pênalti contra a Croácia, não é um fato isolado ou mera canastrice. A interrupção do campeonato brasileiro para a realização do amaldiçoado evento tem nos poupado de iguais demonstrações de falta de educação e inversão de valores entre os jogadores. Parece não existir jogo por aqui sem que aconteça um desfile de baixarias e cafajestagens: violência, xingamentos, simulações grosseiras e peitadas no juiz são a regra entre os nossos “craques”. Exemplo clássico: o sujeito leva um empurrão e cai rolando no chão como se tivesse sido atropelado por um caminhão desgovernado. Não por acaso, essa verve teatral tem sido uma das maiores críticas a Neymar desde que chegou à Europa.

    A cereja nesse bolo estragado é o fundamentalismo religioso, esse mesmo demonstrado, com particular cara de pau, por Fred. Em tempos distantes, o jogador que queria demonstrar sua fé durante uma partida, o fazia de forma discreta, tranquila, geralmente com um sinal da cruz na entrada em campo ou na hora de um gol. De uns tempos para cá, com a ascensão dos chamados Atletas de Cristo, essa discrição foi para o espaço. Hoje o jogador brasileiro é um desvairado da fé. O goleiro ajoelha debaixo das traves e ora compulsivamente. Os da linha, cerram os olhos e levantam as duas mãos para os céus quando entram em campo, como se recebessem emissões divinas pelos dedos (seriam lasers?). Quando fazem gol, agradecem a papai do céu com os dedinhos para cima e/ou levantam a camisa com inscrições religiosas. Isso não impede, porém, que sejam violentos e participem de xingamentos, simulações grosseiras e peitadas no juiz.

    Na conquista da Copa das Confederações em 2009, na África do Sul, o extremo: todos os jogadores se ajoelharam no centro do campo e fizeram uma grande roda de orações, com Lúcio e Kaká portando blusas com dizeres religiosos (o primeiro, “I love Jesus”; o segundo, “I belong to Jesus”), ao vivo, em frente às câmeras de televisão de todo o mundo. A Dinamarca protestou, argumentando, com razão, que futebol e religião não se misturam. A Fifa repreendeu a CBF pelo gesto exagerado dos atletas (o livro de regras da instituição afirma que mensagens religiosas e políticas são proibidas). Deu certo. Na outra conquista da Copa das Confederações, ano passado, no Rio, os jogadores celebraram com a torcida e entre eles, com simplicidade e alegria, como deve ser no esporte. Lúcio e Kaká não estavam em campo.

    Mas ontem, Fred, esse bon vivant evangélico, relembrou ao mundo que, como boa parte dos jogadores que atuam no Brasil, é um truqueiro e, ao mesmo tempo, um homem de fé. Só não se sabe fé em quê.

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