• A aparição de Kate Bush

    Doc feito pela BBC para saudar a volta aos palcos da fada Kate Bush – uma das figuras mais misteriosas e reclusas do universo pop – depois uma pequena ausência de 35 anos. Vão ser 15 shows, a partir de amanhã, no Hammersmith Apollo, em Londres – todos com lotação esgotada assim que os ingressos começaram a ser vendidos, em março. Outras sete datas foram anunciadas, entre setembro e outubro.

    No filme, os depoimentos de Peter Gabriel, John Lydon, Tori Amos, David Gilmour, Big Boi (Outkast), Tricky e Neil Gaiman ajudam a entender o motivo de toda a excitação em torno dessa verdadeira aparição.

  • O embriagante sabor do Aguardela

    Com ares dramáticos e espírito aventureiro, o grupo mineiro debuta com estilo em embriagante álbum homônimo, independente, transitando por uma incomum rota, que passa pelo folk de tons barrocos, a MPB e o rock experimental, em faixas como “Cantiga da meia volta” e “Oá” (dos videos abaixo), que, dependendo da dose, ecoam Mutantes, Tom Waits e Tortoise.

  • O rap de Capicua é muito gira

    Capicua é Ana Matos. Capicua é rapper. O nome vem de uma expressão catalã (e significa algo como “cabeça” e “cauda”). A origem é Portugal, mais precisamente a cidade do Porto. A língua é a nossa, mas com o sotaque deles e a esperteza dela. As influências são diversas: passam por Sergio Godinho e Zeca Afonso, ícones locais, que se destacaram por seu engajamento durante a Revolução dos Cravos (“Músicas que meus pais ouviam”, me diz ela, de passagem pelo Rio), cruzam com pioneiros do rap português, como Mind The Gap e Dilema, e se esticam até Kanye West.

    O nível é superior, em todos os sentidos (Ana é socióloga). O segundo álbum de Capicua, o recém lançado “Sereia louca”, afirma isso em suas 10 bem articuladas faixas, que abrem espaço até para um incrível mix com o fado (“Soldadinho”, com a participação da cantora Gisele João), sem contar o groove macio de “Vayorken”, de tons autobiográficos (Quando seus pais viajavam para Nova York, ela, ainda pequena, dizia que tinham ido pra “Vayorken”). Ouça sem erro: Capicua é muito gira.

  • Aquele abraço, Johnny Winter

    O desaparecimento de Johnny Winter (1944-2014) pode simbolizar também a iminente extinção de uma das figuras mais marcantes da música pop: o herói da guitarra, o guitar hero, o craque das seis cordas elétricas. Talvez não tenhamos mais disposição (ou atenção) para ouví-los, talvez eles não tenham mais disposição (ou espaço) para nos encantar. Quem sabe? Na dúvida, aproveite a data e saboreie a herança deixada pelo genial albino. Cate por aí a íntegra de “Progressive blues experiment” (seu espetacular debut, de 1968), “Captured live” (selvagem registro ao vivo, de 1976) ou “Hard again” (que produziu para Muddy Waters, em 1977). E se em algum momento você se pegar tocando uma ridícula guitarra imaginária em frente ao espelho ao ouví-los, fique tranquilo e curta. Essas coisas acontecem.

  • Fred, os truques e a ‘fé’

    O gesto de Fred na estreia da seleção na Copa, levantando os dedinhos para cima e agradecendo aos céus após o juiz ter caído na sua simulação de um pênalti contra a Croácia, não é um fato isolado ou mera canastrice. A interrupção do campeonato brasileiro para a realização do amaldiçoado evento tem nos poupado de iguais demonstrações de falta de educação e inversão de valores entre os jogadores. Parece não existir jogo por aqui sem que aconteça um desfile de baixarias e cafajestagens: violência, xingamentos, simulações grosseiras e peitadas no juiz são a regra entre os nossos “craques”. Exemplo clássico: o sujeito leva um empurrão e cai rolando no chão como se tivesse sido atropelado por um caminhão desgovernado. Não por acaso, essa verve teatral tem sido uma das maiores críticas a Neymar desde que chegou à Europa.

    A cereja nesse bolo estragado é o fundamentalismo religioso, esse mesmo demonstrado, com particular cara de pau, por Fred. Em tempos distantes, o jogador que queria demonstrar sua fé durante uma partida, o fazia de forma discreta, tranquila, geralmente com um sinal da cruz na entrada em campo ou na hora de um gol. De uns tempos para cá, com a ascensão dos chamados Atletas de Cristo, essa discrição foi para o espaço. Hoje o jogador brasileiro é um desvairado da fé. O goleiro ajoelha debaixo das traves e ora compulsivamente. Os da linha, cerram os olhos e levantam as duas mãos para os céus quando entram em campo, como se recebessem emissões divinas pelos dedos (seriam lasers?). Quando fazem gol, agradecem a papai do céu com os dedinhos para cima e/ou levantam a camisa com inscrições religiosas. Isso não impede, porém, que sejam violentos e participem de xingamentos, simulações grosseiras e peitadas no juiz.

    Na conquista da Copa das Confederações em 2009, na África do Sul, o extremo: todos os jogadores se ajoelharam no centro do campo e fizeram uma grande roda de orações, com Lúcio e Kaká portando blusas com dizeres religiosos (o primeiro, “I love Jesus”; o segundo, “I belong to Jesus”), ao vivo, em frente às câmeras de televisão de todo o mundo. A Dinamarca protestou, argumentando, com razão, que futebol e religião não se misturam. A Fifa repreendeu a CBF pelo gesto exagerado dos atletas (o livro de regras da instituição afirma que mensagens religiosas e políticas são proibidas). Deu certo. Na outra conquista da Copa das Confederações, ano passado, no Rio, os jogadores celebraram com a torcida e entre eles, com simplicidade e alegria, como deve ser no esporte. Lúcio e Kaká não estavam em campo.

    Mas ontem, Fred, esse bon vivant evangélico, relembrou ao mundo que, como boa parte dos jogadores que atuam no Brasil, é um truqueiro e, ao mesmo tempo, um homem de fé. Só não se sabe fé em quê.

  • O novo do Plastikman é um EX

    Richie Hawtin não é um sujeito de excessos. Soberano do som minimal, ele reativa o projeto Plastikman com o álbum “EX”, lançado hoje. Gravado ao vivo no Guggenhein, em Nova York, em novembro do ano passado, ele traz sete faixas, cujos títulos variam entre “EXposed”, “EXpand”, “EXplore” e “EXhale”. Felizmente, pelo que as primeiras audições indicam, a criatividade ficou para o conteúdo mesmo.

  • Um outro mapa de San Francisco

    Gen-tri-fi-cação. Esse palavrão, que nem existe na língua portuguesa, muita gente que mora no Rio aprendeu na marra, de uns tempos pra cá, descobrindo que ele queria dizer a insana supervalorização de diversas áreas da cidade – seja por causa da Copa do Mundo, das Olimpíadas ou por qualquer outro fator – afetando e afastando seus moradores.

    Quem mora em San Francisco, na Califórnia, um dos lugares mais bacanas do planeta, sabe bem o que isso significa, até porque o termo deriva do inglês, “gentrification”. Por lá, como se sabe, a proximidade com o Vale do Silício e a chegada de novos e abastados moradores, atraídos por esse Eldorado digital, combinados com a ganância dos proprietários, fez com que os preços dos imóveis, seja para aluguel ou para a compra, disparassem.

    Como quem com bits fere, com bits será ferido, uma turma resolveu narrar esse drama com a ajuda da tecnologia, no site antievictionmappingproject. Com a ajuda de mapas, gráficos e, principalmente, vídeos, ele mostra o lado humano (ou melhor dizendo, desumano) da gen-tri-fi-ca-ção, com depoimentos de quem sofreu com despejos e teve que trocar de CEP pela força desse tremor econômico – que em português bem claro pode ser chamado simplesmente de encarecimento.

    Eviction at 23rd and Florida from Mission Local on Vimeo.

/ Calbuque
Jornalismo dub
Share with your friends










Submit
Share with your friends










Submit
Share with your friends










Submit
Share with your friends










Submit
Share with your friends










Submit
Share with your friends










Submit
Share with your friends










Submit