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Quem é quem na 3ª edição do Novas Frequências

Tá chegando a hora! Faltam apenas 7 dias! 

_Lee Gamble_

Screen Shot 2013-11-23 at 3.15.18 PM

“rave fantasma”

No final da década de 90, Lee Gamble fundou o Cyrk, “coletivo de parahumanos responsáveis por música, mixes, design, eventos e happenings com aspecto irregular”. Enquanto discotecava em rádios piratas, foi produtor de programas pela Resonance 104.4 FM e editou, pelo selo Entr’Acte, trabalhos que transitavam pelos devaneios da non-music, entre os quais se destaca Join Extensions, de 2009. Ou seja, até meados de 2012, seu nome estava ligado ao surgimento de músicos e produtores europeus, preocupados em explorar as fronteiras entre o universo acadêmico da música experimental e a pós-rave da primeira década do século XXI.

Ocorre que em 2012, Gamble editou dois álbuns pelo selo alemão PAN que abalaram o universo da música eletrônica. Sintetizando samples e mixtapes extraídas de sua coleção particular, Diversions 1994-1996 lançou um olhar microscópico sobre os interlúdios silenciosos da jungle music, que resultou na elaboração de texturas ambient, batizadas adequadamente de jungle abstractions. No mesmo mês, editou Dutch Tvashar Plumes, suíte techno que invertia as premissas de Diversions: ao invés de reutilizar materiais antigos, buscar novas composições sobre uma tela em branco.

À semelhança do álbum Death of Rave, editado em 2006 pelo músico inglês Leyland Kirby, a imaginação de Gamble percorre grandes espaços abandonados, hoje assombrados pela ressonância sinistra das raves. Com seu techno fantasmagórico, Gamble evoca temas como tempo, espaço e memória, transcendendo a noção de “gênero” em direção a um território desconhecido.

DISCOS SELECIONADOS
Join Extensions (Entre’Acte, 2009)
Diversions 1994-1996 (PAN, 2012)
Dutch Tvashar Plumes (PAN, 2012)

_Heatsick_

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“plays himself”

DJ e produtor surgido em meados da década passada, Steven Warwick aparece primeiramente como um artista interessado em circular por muitas cenas. Com o pseudônimo Hungover Breakfast, editou cassetes devotados a gerar confluências entre o dub e o drone. Ao lado de Luke Younger (proprietário do selo Alter, que lançou de Hieroglyphic Being a ÈLG), formou a dupla Birds of Delay, aventurando-se na seara dos power electronics. Com o supergrupo Bird of Prey, uma derivação do Birds of Delay, investiu no metal às fronteiras do noise.

O lançamento de Intersex pelo selo alemão PAN de Bill Kouligas, coroou uma nova fase no trabalho de Warwick. O título se refere à obra do controverso sexólogo alemão Magnus Hirschfeld, que teria identificado semelhanças entre as atividades musicais e sexuais, dentro de uma escala constante de fluxo e deslizamento. O ritmo é ressaltado pelo verniz eufórico da pista de dança, temperado pela timbragem rarefeita das primeiras gravações eletrônicas (early electronics). Sob a influências do neo-classical de Roberto Cacciapaglia e da cultura house de Chicago, Intersex se coloca no ponto de convergência entre o psicodélico e o robótico, o nostálgico e o paródico, em extensos experimentos produzidos com Casiotone e pedais de guitarra.

DISCOS SELECIONADOS
Intersex (PAN, 2011)
Déviation (PAN, 2012)
Deviation Heat-Treated (com Sensate Focus, PAN, 2012)

_Miles_

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“nômade”

Antes de formar o Demdike Stare com seu parceiro Sean Canty, Miles Whittaker dividiu-se em uma longa lista de trabalhos e colaborações, gêneros e estilos. Produziu dub techno de timbres granulados sob a alcunha MLZ. Com Gary Howell, fundou o Pendle Coven, apostando em uma improvável combinação entre a regularidade techno e as distúrbios rítmicos da chamada IDM. Como Suum Cuique, fincou pés na fronteira tênue entre o drone eletrônico e o noise. Ao lado de Andy Stott, com o duo Millie e Andrea, produziu breakbeat, juke e até mesmo uma visão particular do “tamborzão” (que pode ser escutada em “Write Off”).

Miles vem percorrendo com ouvidos abertos o imenso território expandido das sonoridades contemporâneas. Seus discos autorais perseveram no imaginário mágico e ritualístico do Demdike Stare, mas enriquecido por uma intensa pesquisa cross cultural. Dela, Miles extrai um mundo de sons infinitos a partir de suas atividades como colecionador de discos, pesquisador e criador, seja inventando trilhas-sonoras para filmes inexistentes, seja revolvendo o hedonismo da pista de dança.

DISCOS SELECIONADOS
Facets (Modern Love, 2011)
Faint Hearted (Modern Love, 2013)
Unsecured (Modern Love, 2013)
MLZ – “Dark Days” (12”) (Modern Love, 2008)
Suum Cuique – Ascetic Ideals (Modern Love, 2012)

_Fudisterik_

Screen Shot 2013-11-23 at 3.13.10 PM

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“fudistérico”

Mineiro de Juiz de Fora, Ricardo Cabral escolheu um neologismo insinuante para batizar seu projeto musical. São pequenas as chances de que as três primeiras letras não remetam ao sexo ou a uma situação negativa (“tô f…!”). Ainda mais improvável que o “isterik” não faça alusão à palavra “histérico” ou a um sentimento de euforia e desorientação. Residente da bucólica Matias Barbosa, onde, segundo o artista “a galinha cisca pra frente”, Fudisterik é mais um destaque da surpreendente cena eletrônica mineira. Em 2011, o produtor paulista Paulo Dandrea (com que divide o projeto Detuned Portable Studio) o convenceu a migrar para o Ableton Live e o ensinou regras básicas de produção. O resultado foi devastador. Divulgadas através de um prolífico Soundcloud, suas composições exalam ironia, transe e sexualidade, embaralhando de forma peculiar as prateleiras imediatistas do consumo tecnológico.

_Paulo Dandrea_

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“arvo partiu”

Aos 29 anos, o paulistano Paulo Dandrea exibe um curriculum vitae característico dos artistas contemporâneos. Fotógrafo profissional, baixista de bizarre-metal (?) do trio Tarja-Preta, produtor da música de elevador da banda Som Ambiente. Começa a produzir com ferramentas digitais em 2010, quando descobriu o computador e a internet, o que resultou no álbum Pineapple, lançado em agosto de 2012 através do Bandcamp. Trafegando pelo minimalismo tribal de “Diatonic Arrests”, até os arabescos percussivos de “Unidentified Flying Home”, Dandrea soube conferir forma própria a seus experimentos descompromissados. Como se pode perceber na vertiginosa “Arvo Partiu”, que se aproxima das recentes releituras do drum and bass, mas com uma nuvem espessa de sintetizadores. Além do trabalho solo, Dandrea se aventura no estúdio portátil com o Detuned Portable Studio, tendo seu “irmão musical e espiritual” Ricardo Cabral (Fudisterik) como parceiro.

_Demdike Stare_

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“filmes imaginários”

Paisagens, personagens, fluxos, catástrofes. O olhar inebriante de Demdike absorvendo a imaginação do ouvinte e, através de uma infinidade de sons — uma “biblioteca infinita”. O clima permanentemente sombrio, justificando o rótulo “dark ambient”. Os aspectos ritualísticos da música africana e oriental interconectados com o transe da pista de dança. Imagens distópicas de um futuro prefigurado nas imagens genéricas da library music. Trilhas sonoras dos anos 70 e 80, canto gregoriano, jungle, industrial, drone.

O nome escolhido por Miles Whittaker e Sean Canty para batizar a dupla que formaram em 2009, diz muito a respeito do tipo de experiência que se pode ter em contato com a música do Demdike Stare. Demdike (pseudônimo de Elizabeth Southern) foi considerada a líder das “bruxas” de Pendle Hill, em um dos mais célebres casos de punição por bruxaria do século XVII. Acusada por três assassinatos, morreu na prisão em 1622, antes de vir a julgamento.

Editados pelo selo Modern Love, a dupla se desdobra em outros projetos, tais como o Slant Azymuth e NeoTantrik, ambos ao lado do músico e produtor britânico Andy Votel. Também com Votel, a dupla dirige o selo Pre-Cert Home Entertainment, que edita vinis com tiragem limitada, dedicados a recriar “falsas trilhas-sonoras para filmes obscuros sobre ocultismo e terror, diretamente filmados em VHS” (“faux 70′s obscure occult/horror direct-to-VHS film soundtracks”).

DISCOS SELECIONADOS
Tryptich: Forest of Evil/Liberation Through Hearing/Voices of Dust (Modern Love, 2011)
Elemental (Modern Love, 2012)
Testpressing #001, #002, #003 (Modern Love, 2013)
Slant Azymuth (Pre-Cert Home Entertainment, 2012)
NeoTantrik – Intervisions (Pre-Cert Home Entertainment, 2013)

_David Toop_

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“oceano sonoro”

A obra de David Toop não se restringe à criação musical, entendida em sentido tradicional.

Como pensador da música, Toop elaborou um campo original de interrogações acerca das relações entre a música e a expansão do campo sonoro. Seus livros Ocean of Sound (1995) e Sinister Resonance (2010) são estudos incontornáveis acerca das mutações técnicas, estéticas e intelectuais que impactaram a criação musical nas últimas décadas.

Como artista, desenvolveu experiências a partir de uma interpretação particular da ambient music, plasmando suas ideias acerca da natureza “imersiva” do som em peças compostas com uma ampla variedade de propósitos. Esse ambiente de experimentação não o impediu de transitar também por diversas regiões do rock, do jazz, do dub.

O título de seu primeiro disco, lançado em 1975 pelo selo Obscure de Brian Eno pode servir como um indicativo: New and Rediscovered Musical Instruments, dividido com Max Eastley, um de seus mais constantes colaboradores. Seu último projeto — que resultou no álbum Sound Body, 2010 — foi resultado de três anos de estudos utilizando-se de tecnologia digital e técnicas de improvisação. Em 40 anos de carreira gravou álbuns autorais, escreveu livros, concebeu projetos de sound art e instalações sonoras, participou de inúmeras sessões de improviso, gravou field recordings, e se aventurou na produção de pop music, música para televisão, teatro, ópera e dança.

David Toop vem se dedicando a um exercício constante de problematização do “som”, considerado como uma instância mais ampla do que aquela que conhecemos tradicionalmente como “música”. Sua obra ilumina os caminhos pelos quais a música vem gradualmente incorporando elementos do ambiente e de sons considerados “não musicais”, tornando-se cada vez mais intensa e perigosa.

DISCOS SELECIONADOS
New and Rediscovered Musical Instruments (com Max Eastley, Obscure, 1975)
Circadian Rhythm (com Paul Burwell, Hugh Davies, Max Eastley, Paul Lovens, Paul Lytton, Annabel Nicolson, Evan Parker. Incus, 1980)
Buried Dreams (com Max Eastley, Beyond, 1994)
Spirit World (Virgin, 1997)
A Picturesque View, Ignored (com Scanner e I/O3, Room 40, 2002)
Wunderkammern (com Rhodri Davies e Lee Patterson, Another Timbre, 2010)

LIVROS SELECIONADOS
Rap Attack: African Jive to New York Hip Hop (Pluto Press, 1984)
Ocean of Sound: Aether Talk, Ambient Sound and Imaginary Worlds (Serpent’s Tail, 1995)
Sinister Resonance: The Mediumship of the Listener (Continuum, 2010)

_Chelpa Ferro_

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“descontrole”

Há quase 20 anos, o grupo carioca formado por Luiz Zerbini, Barrão e Sérgio Mekler é reconhecido pelas instalações e intervenções que desenvolve no território da sound art. Os limites do som e dos materiais empregados, tematizados através de objetos, instalações, vídeos, performances, discos (três até o momento) e demais circuitos intersemióticos. Um grande momento no trabalho do grupo foi “Autobang” (2002), no qual destruíam “percussivamente” um Maverick 74′, com o auxílio de Laufer, Dado Villa-Lobos, Domenico, Bacalhau e Leo Monteiro.

Propondo uma intervenção musical colaborativa, o Chelpa compôs seu terceiro disco com instalações sonoras, guitarras, bateria e outros instrumentos. Chelpa Ferro 3 privilegia o aspecto sonoro das obras em interação com o improviso de instrumentistas familiarizados com as propostas do grupo. O som é como que destacado das obras para funcionar como parte da instrumentação, combinado às participações de Arto Lindsay, Pedro Sá, Kassin, Jaques Morelembaum, Berna Ceppas, Chico Neves e Stephane San Juan.

A apresentação ao lado de David Toop não poderia vir em hora mais propícia. Como Toop, a música do Chelpa abriga uma perspectiva entrópica, segundo a qual o som opera por deslocamento e descontrole. Assim como o Chelpa, Toop vem estudando formas de “improviso estratégico”. Toop investe em uma ambient improvisada, enquanto o Chelpa improvisa na trilha do noise, das dissonâncias e dos sons concretos. Quem pode se antecipar ao que resultará desse encontro?

DISCOS SELECIONADOS
Chelpa Ferro (Rock It! Records, 1997)
Chelpa Ferro II (Ping Pong, 2004)
Chelpa Ferro 3 (Mul.ti.plo, Brasil, 2012)

LIVRO
Barrão, Zerbini, Luiz e Mekler, Sérgio. Chelpa Ferro. São Paulo: Imprensa Oficial (IMESP), 2008.

_James Ferraro_

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“ferro velho”

No início de Weekend, certamente um de seus filmes mais corrosivos, Godard escreve no letreiro: “este filme foi encontrado no ferro velho”. A imaginação de James Ferraro parece seguir o mesmo caminho, construindo mosaicos com o ferro velho do mundo contemporâneo. Justaposição de simulacros. Pastiche. Loja de conveniência. Xerox music. Pós-tudo. Branding terror, branding error. Hipnose.

Compositor e produtor eletrônico nascido em Nova Iorque, James Ferraro integra uma infinidade de projetos, mas foi reconhecido primeiramente como membro do californiano The Skaters, editado pelo seu próprio selo, o New Age Tapes. As vigorosas construções contidas em seu álbum Far Side Virtual, lançado em 2011, renderam o reconhecimento como melhor disco do ano pela revista inglesa The Wire. Seus últimos trabalhos — a mixtape Cold e NYC, Hell 3 AM — indicam uma estranha guinada para a desconstrução do R&B. Ainda que as prerrogativas do chamado found sound sirvam de base para diversos artistas contemporâneos, Ferraro está entre os que operam esses sons de forma realmente original.

Distorcendo logotipos, aterrorizando vinhetas comerciais, Ferraro expõe todo o cinismo impessoal do signo publicitário, esvaziando sua função mercantil e vandalizando sua forma tosca. A matéria-prima é a própria realidade, cada vez mais atravessada pela tecnologia digital, pela publicidade, pelos gadgets virtuais e expressões meméticas.

DISCOS SELECIONADOS
Rerex 1 (Muscleworks, Inc., 2009)
Son of Dracula (Muscleworks, Inc., 2009)
Nigh Dolls with Hairspray (Olde English Spelling Bee, 2010)
Far Side Virtual (Hippos in Tanks, 2011)
The Skaters: Humming Lattice Flowers (com Yellow Swans, Collective Jyrk, 2004)
The Skaters: Dispersed Royalty Ornaments (Wabana Ore Limited, 2007)

_São Paulo Underground_

Screen Shot 2013-11-23 at 3.16.05 PM

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“carnaval”

A música do São Paulo Underground segue os interesses múltiplos de seus integrantes. No primeiro álbum, Sauna: Um, Dois, Três, o noise e o espírito de improvisação livre, característicos da cena jazz de Chicago dos anos 90. O trompete versátil de Mazurek combinado às camadas concentradas de timbres acústicos e eletrônicos a cargo de Maurício Takara, se impunham através de uma beleza complexa e estranhamente acessível. Com o ingresso definitivo de Guilherme Granado e as participações de Richard Ribeiro (Porto), o São Paulo Underground abriu-se ainda mais para a intervenção dos timbres sintéticos. Desta relação nasceu um dos melhores discos do ano de 2008, The Principles of Intrusive Relationship. Os álbuns seguintes, Três Cabeças Loucuras e Beija Flors Velho e Sujo, derivaram para uma valorização dos sons acústicos e da música brasileira instrumental.

Mauricio Takara toca com o grupo paulistano Hurtmold, desenvolve um trabalho autoral com o M. Takara 3 e se distribui nas percussões, cavaquinho e eletrônicos. Guilherme Granado também integra o Hurtmold, faz parte do Bodes & Elefantes, toca teclados, sintetizadores, samplers e canta. Rob Mazurek toca trompete e opera uma parafernália eletrônica vintage, que conta com um delay analógico. A multiplicação de timbres sintéticos e artefatos acidentais convivem com a energia e a beleza dos temas compostos por Mazurek. Ao incorporar uma generosa diversidade de influências, a música do São Paulo Underground remete ao cromatismo delirante do carnaval.

DISCOS SELECIONADOS
The Principle Of Intrusive Relationships (Aesthetics/ Submarine, 2008)
Três Cabeças Loucuras (Cuneiform, 2011)
Alan Licht, Frank Rosaly, Jason Ajemian, Matthew Lux, Rob Mazurek, Steve Swell – Mandarin Movie (Aesthetics, 2005)
Hurtmold (Submarine Records, 2007)
Bill Dixon with Exploding Star Orchestra (Thrill Jockey, 2008)
M. Takara 3 – Sobre Todas e Qualquer Coisa (Desmonta, 2009)
Rob Mazurek & Exploding Star Orchestra – Matter/Antimatter (Rogueart, 2013)

_Gimu_

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“noite e neblina”

Como traduzir em sons a experiência das trevas e da introspecção? Graves monstruosos, dissonâncias sinistras, ritmos marciais estão entre os clichês do dark ambient. Porém, como em qualquer arte, não basta explorar os clichês. Convém ao artista que pretenda se destacar da média, ir além do que se espera e conferir estilo às suas experiências. Este é o caso do Gimu, projeto de drone, ambient, field recordings e sound-sculpting capitaneado pelo capixaba Gilmar Monte. Ex-membro da banda indie Primitive Painters e do projeto eletrônico Terrorturbo, Monte vem se mostrando um dos mais produtivos destaques da eletrônica brasileira.

Com mais de dezoito trabalhos editados entre 2010 e 2013 através do Bandcamp, Gimu também lançou álbuns por selos britânicos (Heat Death, Twisted Tree Line, Childrenplay, Rural Colours) e um cassete pelo brasileiro Toc Label (All the intricacies of an imaginary disease). Ao lado da poeta americana Emily Loren Moss Ferrell, assina o projeto Caterpillars Dressed In Their Finest, combinando poesia falada (spoken word) e texturas viajantes em modo new age. Em todos os seus trabalhos, Monte explora a música sombria com originalidade, lançando mão de grandes durações, com a intenção de descer aos recantos mais sinistros da alma humana.

_Stephen O’Malley_

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“monolito”

Músico e produtor influente e requisitado, curador do selo Ideologic Organ, designer de numerosas capas de disco (Oneohtrix Point Never, Boris, Earth, etc.), Stephen O’Malley acumula um volume de produção digno da palavra monumental. Não só em termos de volume de produção (sua discografia ultrapassa uma centena de discos), como também em relevância. Nascido em Seattle, Stephen O’Malley foi o mentor de bandas que expandiram as rígidas fronteiras do metal, redefinindo-o como gênero: Burning Witch, Khanate e, principalmente, o Sunn O))). Como integrante, participa de projetos igualmente desafiadores como o Æthenor. Com Peter Rehberg integra o KTL, sintetizando metal e abstrações eletrônicas. Acrescente-se as colaborações com Merzbow, Nurse With Wound, Boris, Jim O’Rourke, Oren Ambarchi, Melvins, além de instalações, performances, design e experimentações na área da dança, das artes visuais e do cinema.

Suas peças mais notórias podem ser comparadas a imensos monolitos construídos com a sobreposição de camadas de guitarras e contrabaixos distorcidos. O andamento lento e repetitivo favorece o transe e a suspensão da consciência. Incorporando elementos do drone e do transe psicodélico, O’Malley transferiu o peso das guitarras para o clima e o ambiente, redefinindo a fisionomia do metal na primeira década do século XXI.

DISCOS SELECIONADOS
Sunn O))) – Black One (Southern Lord, 2005)
Sunn O))) – Monoliths & Dimensions (Southern Lord, 2009)
Æthenor: En Form For Blå (VHF Records, 2011)
St. Francis Duo (com Steve Noble, Bo’Weavil, 2012)
KTL – V (eMego, 2012)
Nazoranai (com Keiji Haino e Oren Ambarchi, Ideologic Organ, 2012)

_Babe, Terror_

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“canibal digital”

“Babe Terror se mantém inserido na revolução contemporânea da Tropicália, canibalizando No Age, TV On the Radio, e Animal Collective, soando no entanto completamente brasileiro.” No artigo assinado em 2009 para o The Guardian, Alan McGee se mostrou impressionado com o trabalho do paulistano Claudio Szynkier, enaltecendo o lançamento de Knights (2012), editado pelo selo Phantasy de Erol Alkan. O que haveria na aparência diáfana de suas composições que pudesse lembrar o célebre grupo de artistas dos anos 60? Com suas releituras de clássicos imaginários, extraídos de fitas cassetes e VHS dos anos 80, o Babe, Terror foi considerado uma espécie de sintetizador cultural à moda dos tropicalistas. Utilizando-se de gravações de outros artistas como matéria-prima, Babe, Terror emite fotografias instantâneas recortadas de um delirante continuum sonoro.

_Tim Hecker_

Screen Shot 2013-11-23 at 3.17.22 PM

“retroalimentação”

Natural de Vancouver, Tim Hecker estudou acústica digital e software, até estrear na produção musical sob o pseudônimo Jetone em 2000. Desde então, vem compondo para diversas áreas, desde a dança contemporânea até instalações de arte sonora. Quando assumiu seu nome de batismo, passou a investir em um equilíbrio delicado entre lirismo e desorientação. Sua música pode ser comparada a uma paisagem sonora formada por texturas densas e nebulosas, elaboradas com a utilização de guitarra, pedais de efeito, sintetizadores e sistemas de retroalimentação.

Consagrou-se mundialmente em 2011 com o álbum Ravedeath, 1972 (Kranky), gravado numa igreja em Reykjavik, na Islândia. A gravação contou com a contribuição inestimável de um órgão de tubo, acompanhado por outros instrumentos. Para além de rótulos como ambient ou new age, o trabalho de Tim Hecker está inserido em uma reviravolta na música “imersiva” dos últimos 30 anos. Ao lado de nomes como David Toop, Christian Fennesz, William Basinski, entre outros, o trabalho de Hecker vem se destacando nesse panorama.

DISCOS SELECIONADOS
Radio Amor (Mille Plateaux, 2003)
Mort aux vaches (Mort Aux Vaches, 2004)
Harmony in Ultraviolet (Kranky, 2006)
An Imaginary Country (Kranky, 2009)
Ravendeath, 1972 (Kranky, 2011)
Virgins (Kranky/Paper Bag, 2013)


Maiores informações sobre o festival:

www.novasfrequencias.com
www.facebook.com/novasfrequencias


Os textos acima foram escritos pelo crítico de música e professor de filosofia Bernardo Oliveira.

Pé. Boca. Orelha. (sobre o Festival Novas Frequências 2013)

Novas Frequências 3ª edição_eflyer completo

O que leva uma pessoa a sair de casa para assistir a uma performance musical nos dias de hoje? Com uma discoteca inesgotável a um clique, e a experiência da escuta disponível em todo tipo de aparato possível e imaginável, será que ainda faz sentido pagar (em muitos casos uma pequena fortuna) por um show? Enfrentar trânsito, passar perrengue em fila, para escutar música ao vivo?

Tenho plena consciência de que vivemos um momento chave para a experiência ao vivo. Ficou tão fácil e democrático produzir, divulgar e compartilhar música durante a “revolução digital”, que muitos artistas se tornam famosos antes mesmo de subirem ao palco pela primera vez. Passamos tanto tempo online com nossos fones de ouvido baratos, arquivando álbuns e faixas que nunca teremos tempo de escutar, que adentrar em uma sala escura, um anfiteatro ou uma grande área ao ar livre se tornou (de novo) algo mágico.

O Festival Novas Frequências foi concebido como um festival de música. Porém, é preciso atualmente oferecer ao público mais do que simplesmente um show. Para ser completa, a experiência de um festival  precisa obrigatoriamente tornar-se multifacetada, desdobrar-se em atividades que percorrem as diversas áreas da expressão artística contemporânea.

Dentro do universo da música experimental, da eletrônica de vanguarda e das novas tendências, os festivais que mais se conectam ao Novas Frequências são aqueles que se ambientam em múltiplas locações. Acredito muito em ações culturais site specific, no sentido do “evento certo no lugar certo”. Quanto mais venues em um festival, mais janelas exploratórias se abrem, mais possibilidades artísticas surgem. Por este motivo, além dos shows, o Novas Frequências abre espaço para uma pista de dança e uma série de conversações com os artistas.

Praticamente todas as atrações que passaram pelo festival trabalham com conceitos teóricos e códigos específicos em seus lançamentos. Sendo que muitos deles também desenvolvem outras atividades complementares ou em paralelo à música. É preciso uma bagagem cultural significativa para transitar por múltiplas plataformas. Para dar conta desse trânsito, vamos abrir espaço para que esses multicriadores revelem suas ideias e processos criativos através do Talking Sounds, uma parceria do Novas Frequências com o Transform, o programa de artes do British Council.

Em paralelo, o Novas Frequências vai mostrar que experimentação e pista de dança não são como água e vinho. Pelo contrário. Artistas ligados ao noise e ao industrial nunca produziram tanta música de pista como em 2012/ 2013. Ao mesmo tempo, produtores de house e outros gêneros associados à pista estão se aventurando cada vez mais pela seara do drone, da música ambiente e dos power electronics. E é por isso que também apresentamos uma festa especialmente voltada para as ‘novas frequências’ da pista de dança.

Saímos do nosso formato original, mas para ampliar interesses e atracões em direção a uma experiência expansiva. Abraçamos discussões teóricas sobre questões ligadas à música, ao som e ao comportamento contemporâneo. Apostamos em uma noite de eletrônica experimental, voltada para a pista de dança. No futuro, queremos muito mais: projetos comissionados, itinerâncias por outras cidades do país e pontes com festivais internacionais, instalações de arte sonora, publicações, residências, demostração das outras atividades de nossos artistas  — artes plásticas, design, dança, vídeo. Em relação ao Festival Novas Frequências, pego carona na expressão muito utilizada pelas companias aéreas: o céu é o limite. A brincadeira está apenas começando. Apertem os cintos.

Novas Frequências 3ª edição_eflyer La Paz

Novas Frequências 3ª edição_eflyer POP

Novas Frequências 3ª edição_eflyer Oi Futuro Ipanema

Miles – Faint Hearted

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Taí o debut do Miles (aka Miles Whittaker), metade do Demdike Stare e autor de diversos outros projetos e colaborações (MLZ, Suum Cuique, Millie & Andrea, HATE). Faint Hearted reúne 8 peças de eletrônica experimental vanguardista, porém 100% analógica.

Os 20 melhores shows de 2012

Obs 1: sem ordem de preferência
Obs 2: show pra mim engloba tudo: performance, dj set, live, “show”…

- Amon Tobin – Sónar Barcelona
- DJ Rashad & DJ Spinn – Sónar Barcelona
- Supersilent Feat. John Paul Jones – Sónar Barcelona
- Nicolas Jaar Live – Sónar Barcelona
- Squarepusher – Sónar São Paulo
- Munchi – Sónar São Paulo
- Kraftwerk 3D – Sónar São Paulo
- Gang do Eletro – Festival Invasão Paraense (CCBB Brasília)
- Hype Williams – Novas Frequências (Beco 203/ São Paulo)
- Pole – Novas Frequências (Oi Futuro Ipanema/ Rio)
- Kevin Drumm (Audio Rebel/ Rio)
- Shackleton – Unsound Festival (Cracóvia/ Polônia)
- Vatican Shadow – Unsound Festival (Cracóvia/ Polônia)
- Demdike Stare with Sinfonietta Cracovia – Unsound Festival (Cracóvia/ Polônia)
- Kronos Quartet – Royal Albert Hall (Londres)
- Anne Teresa De Keersmaeker Vs. Steve Reich (The Tanks/ Tate Modern/ Londres)
- Church at Corsica Studios – Instra:Mental, Lone, Objekt, Behling & Simpson (Londres)
- Tame Impala – Imperator (Rio)
- Seun Kuti & Egypt 80 – Virada Cultural São Paulo
- The Rapture – Circo Voador (Rio)

Top 10 janeiro 2012

Janeiro mal começou e amanhã já é fevereiro. Não consegui ouvir muita coisa no mês, mas acho que isso aqui foi o que mais chamou minha atenção.

The Caretaker – Patience (After Sebald)

http://www.youtube.com/watch?v=edWk-theSZc

Todo disco do Kirby precisa de bula para ser entendido por completo (isso não é uma crítica). Nesse caso, Patience (After Sebald) é trilha de um filme do diretor Grant Gree (doc. Joy Division) sobre o escritor W.G Sebald, mais especificamente sobre os conteúdos de Rings of Saturn, seu mais famoso livro. Aqui, ao invés de samplear e manipular discos antigos de 78 rotações de música de baile e jazz, Kirby descostrói a peça Winterreise (1927) do compositor austríaco Franz Schubert

Todd Terje – “Swinging Star (parts 1 & 2)”

Melhor faixa do ótimo EP It’s the Arps, todo ele trabalhado no lendário sintetizador Arp 2600. Mais um capítulo da saga disco espacial nórdica.

Gonjasufi – MU.ZZ.LE

Gonja é o novo Tricky, né? (isso também não é uma crítica).

Demdike Stare – Elemental

http://www.youtube.com/watch?v=zv7AIl9Ciss

Dos 4 Ep’s que formam a série Elemental, só ouvi os dois primeiros. Por enquanto tá bem industrialzão.

Siba – Avante

“Siba troca a rabeca pela guitarra”. Ficou ótimo.

Lucas Santtana – O Deus Que Devasta Mas Também Cura

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O melhor disco do Lucas, fácil. São 10 músicas, uma melhor do que a outra.

Air – “Moon Rock”

Air: Moon Rock
on Nowness.com.

Pequeno aperitivo de Le voyage dans la lune, trabalho inspirado no filme de 1902 dirigido por George Méliès e que é tido como o primeiro sci-fi movie da história.

Bonobo – “Eyesdown (Machinedrum Remix)”

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Tô bem curioso pra ouvir o disco de remixes de Black Sands, o último do Bonobo (e o melhor dele em muito tempo). Com versões de faixas feitas pelo Floating Points, Falty DL, Cosmin TRG, entre outros, deve ser um discasso.

Eyesdown ganha aqui o tratamento juke/ footwork de Travis Stewart a.k.a. Machinedrum e Sepalcure (junto com Praveen Sharma).

Finalzinho Chegando – #1


Gostei bastante das duas faixas de #1, primeiro trabalho solo do guitarrista do dorgas, Gabriel Guerra. Parece que vem mais por aí – Gabriel em entrevistas tem prometido um single por mês. Olho no cara.

Benjamin Damage & Doc Daneeka – They!Live

Techno e house com temperos de UK funky e garage. Algumas faixas, mais pop, possuem a bela voz da inglesa Abigail Wyles.

Os melhores discos de 2011

20 – Mark Mcguire – A Young Person’s Guide To Mark McGuire (Editions Mego)

http://www.youtube.com/watch?v=z15oDaxxOQc&feature=results_main&playnext=1&list=PLF7A08CDC7BB7F851

Com tantos bons discos lançados em 2011, me sinto roubando no jogo ao escolher uma coletânea dupla de faixas raras – portanto antigas - do guitarrista norte-americano Mark McGuire. Membro do trio de drone Emeralds, McGuire, em seu trabalho solo, sobrepõe loops de guitarra e cria melodias densas, viajantes e melancólicas. O primeiro dos dois discos é sublime.

19 – Demdike Stare – Tryptych (Modern Love)

Outro roubo, afinal de contas, Tryptych condensa 3 Eps lançados pelo duo inglês Demdike Stare no ano passado (somadas a algumas faixas bônus, essas inéditas). Tryptych é a trilha sonora de um filme de terror imaginário. Só que menos baseado nos synths de Goblin, Xander Harris, Umberto e John Carpenter e mais calcado em ambient, library sounds e dub techno.

18 – Woods – Sun And Shade (Woodsist)

Disquinho perfeito pra ouvir ao ar livre com os amigos, fazendo um belo de um churrasco. Ou então para morgar numa rede e esquecer do tempo. Folkão psicodélico dos bons.

17 – Holy Other – With You (Tri Angle)

Do sol e sombra do Woods à escuridão macabra do Holy Other – sem dúvida o melhor disco do soturno Tri Angle, um dos destaques de 2011. Aqui temos house, dub e R&B em doses milimetricamente perfeitas para um chill out dos infernos.

16 – Wooden Shjips – West (Thrill Jockey)

Gosta de Black Keys? Pois sou mais o Wooden Shjips.

15 – High Places – Original Colours (Thrill Jockey)

Dá pra fazer uma festa do Bota Pra F*der e só tocar High Places. Original colours é mais house, mais dub e mais chapação: não tem muito como ser melhor que isso.

14 – Sun Araw – Ancient Romans (Sun Ark)

Longe de ser o melhor disco do Sun Araw, mas ainda sim contém belíssimos momentos do mais puro mantra hipnótico contemporâneo. Destaque absoluto para a última faixa, Impluvium, música que adiciona house ao fumacê canábico de Cameron Stallones.

13 – SBTRKT – SBTRKT (Young Turks)

No sentido de misturar pop e dance music, é o disco mais perfeito do ano.

12 – Rustie – Glass Words (Warp)
Dubstep, metal, pop, trance e IDM. É o maximal versão 2011, segundo este produtor escocês.

11 – Oneohtrix Point Never – Replica (Mexican Summer)


Daniel Lopatin bombou em 2011, seja com seu trabalho solo (Oneohtrix Point Never) seja com o projeto de música eletrônica oitentista Ford & Lopatin (ex-Games). Feito com samples de comerciais publicitários dos anos 80, Replica é um disco de ambient e música experimental que soa como um sonho.

10 – Legowelt – The Teac Life (Independente)

http://www.youtube.com/watch?v=xe4dJ9V9L-c&feature=related

Melhor deixar a palavra para o próprio Legowelt, o holandês Danny Wolfers. Provavalmente o melhor release que li este ano.

“Its got a hella lot deep tape saturated forest-techno tracks on it and when I say Techno i dont mean that boooooooooooring contemporary shit they call techno nowadays with overrated tallentless pretentious douchebag cunt DJs playing a few halfassed dumb mongo beats and being all arty fartsy about it. F*ck that, I am talking about: Raw as fuck autistic Star Trek 1987- Misty Forests- X-FILES,- DETROIT unicorn futurism made on cheap ass digital & analog crap synthesizers recorded in a ragtag bedroom studio on a TEAC VHX cassettedeck in DOLBY C with an unintelligible yet soulfull vivacity.”

9 – Patten – GLAQJO XAACSSO (No Pain In Pop)

http://www.youtube.com/watch?v=-m2c0p9_pZk

Dos muitos discos estranhos dessa minha lista, talvez esse seja, a começar pelo nome, O MAIS ESTRANHO. Inglês que ainda não assumiu sua identidade, Patten, faz, sei lá, um techno intimista totalmente instável ritmicamente, som que desorienta os sentidos.

8 – Nicolas Jaar – Space Is Only Noise (Circus Company)

http://www.youtube.com/watch?v=hZOdGI6Z01o&feature=related

Perdi o show do Jaar no Sónar deste ano porque cheguei atrasado: o espaço lotou em pouco mais de 15 minutos, deixando centenas de pessoas do lado de fora. Fuén…

7 – Machinedrum – Room(s) (Planet Mu)

Esse Room(s), do americano Travis Stewart, o Machinedrum, é capaz de ser a porta de entrada perfeita para quem ainda não se acostumou à guetto-house nervosona e aceleradíssima de Chicago conhecida como juke. Room(s) mistura o tal estilo com as últimas convenções da bass culture e o resultado é primoroso.

6 – Ducktails – III: Arcade Dynamics (Woodsist)

Na mesma onda do Woods (18º posição), só que ainda melhor, é o novo do Ducktails, projeto paralelo do guitarrista do Real State Matthew Mondanile. Sem pretenções, só (good) vibes.

5 – The Caretaker – An Empty Bliss Beyond This Word (History Always Favours The Winners)

Tão conceitual quanto uma peça de sound art, os trabalhos do inglês Layland James Kirby enquanto The Caretaker são profundamente bonitos e melancólicos. A sensação que dá é que estamos ouvindo músicas aparentemente conhecidas (filmes antigos de Hollywood?) num grande salão de festas decadente e abandonado. Fantasmagórico.

4 – Andy Stott – Passed Me By (Modern Love)

http://www.youtube.com/watch?v=4r2AXalsphY

Não li isso em lugar algum, Andy me falou pessoalmente na ocasião do Novas Frequências – o cara trabalha como pintor de carros numa fábrica da Mercedes em Manchester . É por isso – só pode ser por isso – que ele consegue produzir texturas e ambiências tão sinistras.

3 – Africa Hitech – 93 Million Miles (Warp)

Um saladão com todo o tipo de batidas urbanas e graves pesados garante o bronze de 2011. É o uso mais criativo (de longe) de vocais picotados e distorcidos utilizados como instrumento musical, uma das tendências mais fortes de 2011.

2 – Peaking Lights – 936 (Not Not Fun/ Weird World)

936, segundo disco do casal americano Aaron Coynes e Indra Dunes é o disco mais perfeito (e mais vendido também) do catálogo da Not Not Fun. Dub-lo-fi-psicodélico, porém, ao mesmo tempo, extremamente pop, é sem dúvida o disco que mais ouvi no ano.

1 – Tim Hecker – Ravedeath, 1972 (Kranky)

Dificilmente consigo ouvir Ravedeath, 1972 por inteiro. Na maioria das vezes, prefiro me concentrar em alguma das suítes, como “In The Fog”, “Hatred of Music” ou “In The Air”, e pincelar com uma ou outra faixa isolada. O porquê é muito simples: Ravedeath precisa de completo isolamento e nenhuma distração. Ele é intenso demais; produz sentimentos e sensações – medo é uma delas - que não são desejáveis a qualquer hora do dia, ou da noite. Assim que escutei o disco pela primeira vez, pensei na hora: vou trazer esse cara para o Novas Frequências. E foi por muito pouco que isso não acabou acontecendo. Com contrato assinado e release pronto, infelizmente surgiram questões que inviabilizaram a vinda dele. Quem sabe no ano que vem?

Segue abaixo o release que tinha escrito para o Tim Hecker.

“Existem vários artistas de synth e de drone que fazem música épica e viajante, mas uma das características que difere Tim Hecker dos outros é a sua habilidade conceitual. Cada um dos seus discos explora um tema específico, muitas vezes de maneira bem detalhista.”
Pitchfork

“O artista canadense de sound-art Tim Hecker é um mestre da música atmosférica. Criando suas tempestades de drone com uma mistura de laptop, teclado, fita de rolo e guitarra encharcada de efeitos, sua música é sempre fundamentalmente serena apesar do vento gelado que chicoteia em toda a sua superfície.”
BBC

“Há uma década Tim Hecker produz uma sonoridade intermitentemente dura e estranhamente bonita que desafia a interpretação.”
XLR84

“A chegada de um novo album de Tim Hecker é sempre um grande momento de celebração. (…) E como suas outras obra-primas ‘Radio Amor’ e ‘Harmony in Ultraviolet’, seu último disco, Ravedeath 1972, é uma obra-prima.”
Fact

Tim Hecker é um músico e artista sonoro nascido em Vancouver, no Canadá, que explora em seu trabalho as interseções entre o noise, a dissonância e a melodia. Utilizando normalmente guitarra, muitos pedais, sintetizadores e retro-alimentação, Hecker produz peças imersivas e abstratas onde as notas e os acordes se movem de maneira extramamente lenta e intensa. Há quem diga que a música de Hecker é tão visceral que permite que o ouvinte sinta a sua presença física no ambiente.

No início da carreira, Hecker produzia e gravava música eletrônica percussiva sob a alcunha Jetone. Seu estilo mais recente toma corpo a partir do momento em que os interlúdios de suas músicas de pista ficam cada vez mais e mais rebuscados. Gravado numa igreja em Reykjavik, na Islândia, e utilizando um órgão de tubos como fonte sonora primordial para em seguida ser transportado ao estúdio para banhos extremos de sintetizadores e distorção, seu sétimo disco, Ravedeath, 1972, o terceiro pelo selo americano Kranky, tem sido considerado um dos melhores de 2011.

Tim Hecker ainda desenvolve trabalhos para dança contemporânea, instalações de arte sonora e textos acadêmicos. Já participou de festivais importantes como Mutek, Sónar e Club Transmediale e hoje termina um PHD sobre a história do som na Universidade de Mcgill, em Montreal, cidade onde mora há cerca de 10 anos.

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Menções honrosas: 

- Silva – Silva EP
- Robedoor – Too Young To Die
- Innergaze – Shadow Disco
- African Sciences – Means and Ways
- Duppy Gun Productions – Multiply/ Earth
- Samyiam – Sam Baker’s Album
- Clams Casino – Rainforest
- Sepalcure – Sepalcure
- John Maus – We Must Become The Pitiless Censors of Ourselves
- Sobre A Máquina – Anomia
- Bixiga 7o – Bixiga 70
- Ricardo Donoso – Progress Chance
- Venetian Snares – Cubist Reggae
- Owiny Sigoma Band – Owiny Sigoma Band
- Kuedo – Severant
- Cosmin TRG – Simulat
- Alva Noto e Ryuichi Sakamoto – Summvs
- Burro Morto – Baptista Virou Máquina
- Mountains – Air Museum
- The Field – Looping State Of Mind