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Marc Maron + Noah Baumbach

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Tá imperdível o episódio do podcast do comediante americano Marc Maron em que que ele recebe o Noah Bambach – popularmente conhecido como “o diretor de A Lula e a Baleia”, entre outros filmes da linha sou-itelectual-pop-novaiorquino-pagador-de-tributo-ao-Woody-Allen-e-amigo-do-Wes-Anderson. É 1 hora e 15 de um bate papo muuuito interessante, não apenas sobre o filme mais recente de Baumbach mas também cobrindo a relação dele com os pais (autênticos intelectuais novaiorquinos), com a tal cena intelectual novaiorquina, sobre um autógrafo do Bill Murray, sobre a parceria com o Wes Anderson, sobre a emotividade da página de A Lula e a Baleia na Wikipedia, enfim, essas coisas triviais. :-)

Aqui é o site do WTF, mas o negócio é pegar o episódio logo lá nos podcasts do iTunes, porque daqui a pouco sai do ar.

Mais uma boa dica do Pinheiro.

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Carta aberta da TV à Internet

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Querida Internet

Quem lhe escreve aqui é a TV, aquela tela maior que fica ali na sala. Sei que você não me tem em muito boa conta, que está cheia de compromissos e não pode gastar seu valiosíssimo tempo, tão disputado e fragmentado, com quem já está por aí há muito tempo. Ainda mais eu obrigando você a abrir um envelope e ler uma carta de papel. Mas esse foi justamente o subterfúgio que encontrei pra chamar e prender sua atenção. Quem sabe uma carta de papel lhe cause tanto fascínio que, antes que você desperte do choque, já leu minha mensagem inteira – muito embora ambos saibamos que executar tarefas inteiras não é sua especialidade. Kkkkk. (Não é assim que você ri?)

Me desculpa se já comecei sarcástico (são as reprises de Seinfeld…), mas na verdade meu contato é para fazer alguns agradecimentos e trazer alguns alertas de quem já passou por alguns desafios que você está enfrentando.

Primeiro, os agradecimentos. Obrigado por tirar os pais, médicos e religiosos fundamentalistas de cima de mim. Você não sabe o inferno que era a minha vida com essa gente antes de você chegar. Logo que surgi, assim como você, me tornei o centro das atenções domésticas, o que causou muito ciúmes por aí. As crianças, sempre prontas para abraçar a vanguarda, me adotaram de tal forma que muitos pais espertinhos passaram a me usar de maneira vulgar e exagerada para não precisar cuidar e educar os seus filhos. Bem, talvez eu esteja sendo também vulgar e exagerado, pois na verdade acabei sendo a solução para todo um novo contexto urbano que não necessariamente era responsabilidade dos pais. Alguns trabalhavam tanto e moravam em lugares tão pouco amigáveis que restava às crianças sentar na minha frente por horas e horas para passar o tempo. De qualquer forma, a culpa recaiu sobre mim e me arrumaram até um apelido hoje ultrapassado e usado para um outro eletrodoméstico: babá eletrônica.

Quanto aos religiosos fundamentalistas, você não sabe a loucura que foi. Primeiro, fui acusada de ser um instrumento do diabo por abrir a cabeça das pessoas para toda uma forma de cultura popular que mexeu com costumes tradicionais. Alguns sacerdotes mais exaltados chegaram a fazer exorcismos comigo! Ironicamente, isso não durou muito tempo pois esses sacerdotes rapidamente se deram conta que eu poderia ajudá-los com seus interesses e, antes que eu pudesse perceber, estava possuída por eles! Isso dura até hoje e não pára de crescer! Agora sim, chamem o exorcista, por favor! Kkkk!

Mas chega de falar de mim. Sei que você está passando por algo bastante parecido. Os primeiros 20 anos de holofotes são assim, intensos, vertiginosos. Nós não fomos os primeiros a serem execrados. O rádio, que ainda está por aí, inclusive eu sei que vocês tem andado bastante juntos, enfrentou as mesmas questões. O cinema, a fotografia e a imprensa também. Imagine você que numa das primeiras sessões de cinema da história, que mostrava o filme de um trem em movimento, as pessoas saíram correndo da sala achando que o trem era de verdade. Fala sério, nem eu nem você passamos por algo tão pitoresco…

Tenho acompanhado o noticiário (claro) e volta e meia surgem matérias sobre os perigos de usar você: dizem que a capacidade de concentração das dessoas está sendo afetada, que a sua informação é menos confiável, que você ameaça o sistema clássico de direitos autorais, que acabou com a indústria fonográfica e que vai acabar com o cinema! Hmmm, tá poderosa! Kkkk! Pois esse é justamente o principal segredo da nossa profissão – conferem a nós um poder que não é nosso. Embora eu também esteja impressionada com o que você vem fazendo de positivo (a democratização do conhecimento, a conexão de nichos culturais que estavam isolados geograficamente, a possibilidade de mobilização cultural e política e, o mais importante, os filmes dublados do Jerry Lewis circulando por aí), os responsáveis por tudo isso são as pessoas. Não importa o quanto coloquem o peso sobre nós, são elas que mexem os cordões. Falo isso como amiga, porque estou vendo que você anda se achando e, experiência própria, quando subimos no salto o tombo é muito maior. Olha o que o rádio passou nos últimos anos pra recuperar a auto-estima depois de décadas de protagonismo. Aliás, sei que você tem ajudado muito ele e é bonito isso – porque um dia você pode precisa de ajuda.

Talvez esse dia nem esteja muito longe. Só pra dar um exemplo, se eu não estivesse passando tanto seriado bom hoje em dia, se eu não fosse capaz de reunir tanta gente pra ver futebol ao vivo e se alguns autores de novela não gostasse tanto de mim, talvez as pessoas não tivessem tantos motivos pra usar você. Porque vídeo de gatinho e de bebê fazendo gracinha é legal, mas não a vida toda. Ok, SEGUNDA tela? Ops! Escorreu veneno aqui… Kkkk!

Mas não vamos terminar a carta num clima ruim. No fim das contas, estamos todas no mesmo barco. TV, internet, fotografia, cinema, pintura… acaba que tudo se mistura e é justamente quando a gente se encontra que a coisa fica interessante. Embora hoje eu tenha minha própria personalidade, você não imagina o quanto eu devo ao rádio, ao teatro e ao cinema. Sem eles, eu nem teria começado nesse negócio. Também aproveito pra lembrar que todas nós devemos muito à escrita. No fim das contas, é ela que nos deixa mais instigantes, é ela que nos estrutura, é ela que ainda consegue, em pleno ano de 2013, fazer alguém parar por um pouco mais de tempo e devotar sua atenção a uma coisa tão antiga quanto uma carta.

Cordialmente,
TV
(a PRIMEIRA tela! Kkkk não resisti!)

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Documentário sobre mais um pedacinho do Tibet no Brasil

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Acabou de sair um pequeno documentário em DVD com as cerimônias de 2008 que consagraram a Terra Pura de Padmasambava, o primeiro templo budista desse tipo no Ocidente construído de maneira totalmente tradicional. Pra resumir, é um pedacinho do Tibet aqui do lado, em Três Coroas, na serra gaúcha.

Além de cobrir as tais cerimônias, que duraram cinco dias, o filme também traz o depoimento de lamas budistas sobre o significado desse templo e entrevistas com artistas nepaleses e butaneses que trabalharam nas estátuas, nas pinturas e nos adornos. Só essa residência artística, na verdde, já mereceria um documentário em si, pois esses escultores, marceneiros e pintores deixaram um legado inusitao entre seus pares locais. Na verdade, alguns deles inclusive se casaram e hoje moram no Brasil. Estão por aí, espalhando técnicas e sensibilidades milenares que não costumam ser passadas adiante com facilidade por aqui.

No vídeo acima, tem uma palhinha, com o lama (e talentoso diretor de cinema) Dzongsar Khyentse Rinpoche explicando como funciona a noção de bem e mal, céu e inferno. Enfim, esse DVD é um documento único de uma feliz conjunção de fatores um tanto quanto inusitados.

Mais informações sobre o DVD e sobre como comprar aqui no site da Fundação Chagdud Gonpa.

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Power Paola

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Romances autobiográficos salpicados de detalhes íntimos picantes da vida do autor e de sua família não são exatamente uma novidadade no mundo dos quadrinhos desde o advento de Robert Crumb. Mas começar uma carreira nesse nicho com um livro cuja primeira imagem da história, ocupando a página inteira, traz os pais da autora trepando, mais especificamente concebendo-a, bem, pode ter certeza que algum tipo de marca específica essa autora deve deixar no nicho estético que escolheu habitar.

Virus Tropical, da colombiana-equatoriana Power Paola, simultanemanente se insere e se destaca na linhagem dos grandes romances gráficos autobiográficos. Distanciada anos-luz dos perigos de transformar sua vida desenhada em uma espécie de “Meu Querido Diário”, o maior pecado desse setor, o que Power Paola faz é pegar um gênero já amadurecido e bastante exercitado sob a ótica dos anglo-saxões e adicionar uma dose saudável e fundamental de tempero latino. Nesse sentido, diferente dos seus pares norte-americanos, canandenses e europeus, Virus Tropical examina as relações familiares de Paola como entranhas vivas e presentes, não como elementos de uma equação a ser retratada, analisada e discutida cientificamente. Para os que acompanham o gênero, é impossível não comparar Virus Tropical com Umbigo Sem Fundo, de Dash Shaw ou Fun Home de Alisson Bechdel e perceber como a latitude influencia na perspectiva do quanto a vida em família inluencia na construção da nossa identidade.

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Paola nasceu em Quito, Equador, de uma gravidez inesperada. Sua mãe havia ligado as trompas mas ainda assim engravidou. O primeiro médico que examinou a Sra. Gaviria não acreditava na situação e deu seu veredito: “É impossível que esteja grávida. Deve ser um vírus tropical”. Assim, ela se tornou a quarta mulher de uma casa cujo único homem era o pai, sacerdote de uma igreja e claramente um coadjuvante – de uma ausência influente, mas ainda assim coadjuvante em relação ao eixo matriarcal construído com muito suor pela mãe de Paola. A partir dessa constituição básica se desenrolam os dramas cotidianos e absolutamente comuns: a separação dos pais, a rica interação entre irmãs de mesmo sexo porém de idades bem diferentes, a luta da Sra. Gaviria para manter o núcleo familiar minimamente unido e funciona. Em resumo, Virus Tropical é uma crônica muitíssimo bem construída sobre a difícil arte de tocar o barco nos mares do sul, onde a subsistência, a religião, o espaço urbano conturbado e os laços consanguíneos ganham papéis importantes na nossa narrativa pessoal.

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O traço de Paola é uma atração à parte. Declaradamente influenciado por Julie Doucet, o estilo rudimentar, um tanto quanto infantil, engana. As páginas tem ritmo, os cenários são ricos, o foco de ação é sempre claro. É a linguagem dos antigos fanzines punk usada para contar de forma crua e direta uma história bonita e cheia de amor.

***

Virus Tropical ainda não saiu no Brasil, mas vocês podem pedir para o Liniers que está essa semana em Porto Alegre para o FestPoa Literária. Foi a editora dele que lançou o livro na Argentina.

Pra saber mais sobre Power Paola:

* Blog Power Paola.

* Blog La Poderosa.

* Flickr Power Paola – não deixe de visitar, tem muita coisa bacana.

* Entrevista ilustrada com Power Paola.

* O que mais escrevi sobre Liniers ou a Editorial Comun.

***

Nos últimos anos, eu venho escrevendo de vez em quando sobre quadrinhos autobiográficos ou jornalísticos. Aqui vai uma pequena lista:

- Pagando por Sexo de Chester Brown.

- Exit Wounds de Rutu Mondam e Notas sobre Gaza de Joe Sacco. O primeiro, Exit Wounds, traz uma rara visão de uma quadrinista israelense dos conflitos da área.
- The Quitter do Harvey Pekar
- Jefrey Brown
- Lucy Knisley
- Josh Neufeld
- David B.
- Dash Shaw
- Liniers
- Alison Bechdel (aqui e aqui).
- Guy Delisle

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Em relação à cidade, todo ciclista anda pelado

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No segundo post da série Diários de Bicicleta, contei minha sensação, bastante comum entre quem voltou a pedalar, de ficar mais em contato direto com a cidade: descobrir lojinhas que não via quando andava apenas de carro, me impressionar com aquela fachada de prédio feita de pequeníssimos ladrilhos antigos lindos, atravessar pracinhas escondidas em concavidades internas de um bairro aleatório, e por aí vai. De certa forma, essa sensação me lembra um pouco quando o inverno pesado passa e a gente botar de novo as pernas e os braços de fora na primavera – pescoço, coxas, canelas, antebraços e cotovelos retomam uma exposição subtraída deles durante um período. Nesse retorno, a sensação do sol, do vento e da grama na pele (bem como da pele na pele), que depois se torna corriqueira, é experimentada nas primeiras semanas com um certo frescor. São os divivendos da desproteção.

A bicicleta na cidade dá esse lucro: em relação a andar de carro, ou mesmo de ônibus, você está bem mais desprotegido. Isso pode ser encarado como uma questão de segurança trânsito. Desse ponto de vista, é sinônimo de saber se equipar, de saber andar dentro das orientações técnicas e, também, de uma certa tensão e de uma atenção constantes. Mas também dá pra olhar a desproteção na bicicleta com um viés mais lúdico. Desprotegido da cidade, o ciclista deixa um pouco mais dela entrar por seus poros, não os furinhos na pele, mas os poros gerais dos sentidos.

Por esses poros, muita coisa entra, nem todas desejáveis. As cores, os cheiros, os barulhos e as intenções gerais da rua são experimentadas numa variedade e numa velocidade bastante particulares, diferentes da experiência em carro, na moto, no ônibus ou mesmo a pé. Nos veículos mais rápidos, o buffet urbano é atravessado, cortado. A pé, você se vê invariavelmente envolvido e está numa posição que pode fazer determinadas escolhas. De bicicleta, flutua-se entre o envolvimento e a distância, uma zona esquisita dentro da qual você está munido para colher percepções suficientemente ricas porém sem tempo para desfrutar na hora. O que se absorve terá que ser elaborado e consumido mais tarde. É como passar pelos corredores de uma lojinha, ir enchendo os braços de produtos e só ver de fato o que comprou quando se chega em casa. Andando de bicicleta na cidade, dá pra escolher a lojinha e o corredor, dá pra pegar coisas pelos poros (de carro, ônibus e moto, não), mas não dá pra se certificar 100% de que você pegou só o que queria. Desprotegido, se incorre nesse tipo de descuido e se leva pra nossa casa (física e emocional) bem mais do que se planeja.

Essa nudez relativa é o bônus – entre alguns ônus conhecidos – do ciclista urbano, de todo ciclista urbano. Por mais paramentado que seja o ciclista, há uma série de variáveis que estão sumariamente fora de sua alçada. Ele pode ser o mais cartesiano, cuidadoso e paranóico dos ciclistas, mas ainda assim estará permanentemente sujeito às intempéries poéticas e conceituais do ajuntamento mais complexo e interessante que o ser humano já criou.

***

Desenho: Sarah Lippet.

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Lojinha inocente

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Um aviso…

… não ache fofinho antes de terminar de assistir.

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Razões para seguir uma religião

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Estava com esse post encrencado há muitas semanas, mas a vinda de Karen Armstrong a Porto Alegre me deu um impulso final pra terminá-lo de uma vez. Armstrong é uma das poucas vozes que tem aparecido nos veículos culturais pra defender a ideia de que as religiões institucionalizadas não são exatamente uma coisa indesejável. Do ponto de vista mainstream, não parece que as religiões precisem de advogado: o número de praticantes das grandes disciplinas espirituais mundiais ainda é gigantesco e sua influência, maior ainda. Mas, ao menos nos círculos (físicos e digitais) que eu frequento, a palavra “religião” vem sendo proferida com uma mistura de desdém e desconfiança, o que me causa um certo desconforto já que eu sou o que se poderia classificar como uma pessoa religiosa. Sei que a maior parte das pessoas que me conhecem provavelmente não me colocaria na mesma turma daquela tia carola, mas vamos ver: eu rezo diariamente, eu vou a templos regularmente, participo de cerimônias, leio livros considerados sagrados, sigo preceitos, tomo votos e respeito autoridades religiosas. Desse ponto de vista (e apenas desse…), eu acabo mais perto da tia carola dos meus amigos do que dos meus amigos.

Para muita gente, ser uma pessoa religiosa hoje significa que você compactua com uma forma de manipulação, uma estrutura de poder, um sistema de pilhagem em grande escala, uma visão arcaica do mundo ou, na melhor das hipóteses, uma instituição caduca. Na base dessas acepções, geralmente estão experiências particulares com a Igreja Católica, o contato midiático com as Evangélicas, a ideia de que o Budismo no Ocidente é um hype e a péssima propaganda gerada por radicais tresloucados que se consideram representantes do Islã (quando, em geral, representam projetos de poder geopolítico). Outros vetores importantes na construção desse conceito de religião são a cruzada de certos intelectuais pelo ateísmo (Richard Dawkins e Christolher Hitchens sendo os mais pop deles), a recente adoção do ateísmo e da ciência como uma espécie de religião laica por muita gente, a disseminação de documentários amparando essa ideia (Zetgeist) e os infindáveis memes anti-clericais que tomaram conta das redes sociais.

A religião e a linhagem que eu sigo não tem qualquer apreço por proselitismo e evangelização mas, justamente por conta das minhas experiências positivas, me sinto compelido a defender a ideia de que a prática espiritual sistematizada traz imensos benefícios. Infelizmente, não tenho muito para oferecer em termos de argumentos a não ser essas experiências que citei, com certeza bastante subjetivas. Que me desculpem, então, os discípulos de Dawkins e Hitchens: esse texto é construído unicamente a partir das minhas observações e reflexões. Suponho que não há muito método científico aqui que não seja o empirismo.

Mas, enfim, diante dos conhecidos perigos da burocratização do caminho espiritual, qual é a grande vantagem que eu vejo em seguir um método organizado? Eu elegi quatro pontos que são importantes na minha prática espiritual pessoal: 1) O método 2) Ter aonde ir 3) Parceria 4) Referenciais vivos.

Em primeiro lugar, é justamente o fato de se existir um método. Para quem compreende o caminho espiritual como um processo de investigação a respeito de si, do mundo, do universo, da sociedade e do que regeria tudo isso, ter um método à mão coloca questões existenciais, por definição bagunçadas, dentro de uma moldura. O papel dessa moldura, a meu ver, não é (ou não deveria ser) congelar as dúvidas para pregá-las na parede e venerá-las emolduradas, mas sim confrontar o que nos é internamente nebuloso com uma estrutura de pensamento, o que costuma jogar alguma luz sobre a nebulosidade. O método, quando legítimo, também fornece fundamentais ferramentas de navegação interna. Como ferramenta, aliás, a moldura não tem uma utilidade final, ela não é o objetivo. Todos os mestres budistas que ouvi disseram que, resolvido o que o caminho se propõe, a ferramenta deveria ser abandonada, se torna desnecessária.

Uma curiosidade adicional: a convivência com um caminho espiritual que tem métodos muito bem delineados me fez perceber que, na maior parte das vezes, as pessoas que criticam os métodos religiosos vivem cercadas de outros tipos de métodos. E, frequentemente, submetem-se a esses métodos de forma absolutamente dogmática. O ambiente das artes e o mundo corporativo, dois exemplos que eu conheço bem, são pródigos nesse tipo de comportamento.

Bom, vamos adiante.

Em segundo lugar, um caminho espiritual formal traz o benefício de ter aonde ir. A criação de templos e centros de prática oferece um destino geográfico, um lugar de reunião e também um intervalo dos lugares que frequentamos cotidianamente. Os locais urbanos para prática espiritual são, via de regra, pequenos oásis de tranquilidade em meio ao caos. Os centros que ficam fora das cidades costumam oferecer contato com a natureza e com uma vida mais simplificada, dois elementos por si só catalisadores de reflexão e de cura psíquica. É claro que não é preciso vincular-se a uma religião para ter esse tipo de experiência. Mas é diferente quanto ela vem acompanhada do item anterior, o método, e de todo um contexto que induz à contemplação e não apenas a mais alienação sensorial.

Em terceiro lugar, um caminho espiritual formal provê parceria na busca. No momento em que você encontra a estrutura que lhe serve, automaticamente tem contato com outras pessoas que tiveram a mesma necessidade e o mesmo encontro. O contato com um grupo de praticantes do mesmo método permite que você contemple as questões cruciais que o levaram até ali sendo examinadas por outras pessoas, à luz de suas próprias dificuldades e de todo seu cardápio próprio de condicionamentos. É claro que emoldurar a diversidade com o método gera o risco de aplainar as inclinações e manifestações pessoais. Mas, por outro lado, se estamos falando de um método e de um local genuínos, a diversidade do grupo surge ainda mais flagrante, colorida e interessante. Não existe grupo de busca espiritual isento de diferenças, embates e dissidências. Pelo contrário, muitas vezes o método tende a exacerbar as diferenças de forma que as pessoas se obriguem a se flexibilizarem e a trabalhar com elas. Em duas ou três palestras, já vi a Monja Coen, da tradição zen budista, colocar da seguinte forma sua experiência de treinamento intenso em um mosteiro no Japão: as monjas são como bolinhas de ferro cheias de pontas colocadas em um mesmo recipiente fechado. Aquele recipiente, então, é sacudido. As bolinhas se chocam umas com as outras freneticamente até que, pelo atrito, as pontas sejam aparadas e fiquem lisinhas, lisinhas… Claro: para que o atrito não termine em guerra, é preciso método, objetivos comuns e muito manejo.

Em último lugar, o que talvez seja o mais importante, uma religião formal de tradição confiável costuma oferecer pessoas que são a referência viva do caminho. Em entrevista para a Zero Hora no último sábado, Karen Armstrong faz essa observação importante: “Devo falar sobre a natureza do conhecimento religioso, lembrando que é um conhecimento derivado da prática – especialmente a prática da compaixão – e não da correção doutrinária. É como nadar ou dirigir, algo que só é possível aprender através da prática diligente e não pela leitura de livros e textos.” Ou seja, uma referência é alguém que colocou em prática os ensinamentos da religião de forma tão íntegra que se tornou os ensinamentos. Se levarmos em consideração os aspectos mais essenciais de todo método espiritual que possa se dizer humano, que são o amor e a compaixão*, qualquer pessoa que queira ser uma referência desse método deveria necessariamente ser a corporificação do amor e da compaixão, não de forma particular e apenas servindo ao seu método, mas de maneira verdadeiramente ampla e universal.

Pra fechar, então.

Não é preciso chover no molhado: vivemos numa época em que as principais questões sociais perderam seu esquema de regulagem. As religiões institucionalizadas, em muitos casos, eram a baliza principal desse esquema. Talvez essa desconexão entre certas instituições religiosas e a sociedade tenha alguns frutos interessantes. Um deles é a necessidade de reformas e adequações na relação com as pessoas em geral. Outro, mais importante, seria o resgate do papel essencial das religiões de promover caminhos universais de amor e compaixão por meio do trabalho interno.

***

* Uma vez que amor e compaixão são palavras de significados amplos, ressalto que usei aqui as definições que aparecem em textos do budismo tibetano. Nesse caso, amor seria “o desejo de que o outro encontre a felicidade e as causas da felicidade” e compaixão, “o desejo de que o outro se livre do sofrimento e das causas do sofrimento.”

Imagem: daqui.

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Por que o anúncio da Unicef é importante

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Semana passada, o anúncio acima, criado pela agência sueca Forsman & Bodenfors, circulou pela rede angariando os comentários mais previsíveis dos últimos tempos. De um lado, a maior parte das pessoas que eu vi se manifestar se limitou a parabenizar a coragem do anúncio de dar um tapinha na cara dos ativistas de sofá. Outros criticaram a ideia, lembrando que o Facebook ajuda sim a dar visibilidade a muitas causas que não tem condições de pagar mídia de massa ou apelo suficiente para ganharem tempo no noticiário. Na verdade, os dois lados tem razão e flutuar entre esses dois pólos é o grande predicado desse anúncio. Algumas pessoas podem achá-lo um pouco sensacionalista, meio golpe baixo. Mas toda chamada que funciona tem um pouco de maldade, uma certa malícia que fica no limite.

O mais importante, nesse caso, é que o anúncio da Unicef parece funcionar também como resgate de uma tradição de redação publicitária clássica que vem dos anos 60 e prova ainda ter um poder incrível de enganchar o leitor mesmo veiculando intensamente em blogs e redes sociais – ambientes repletos de ruído. A chamada é direta, sintética e limpa, baseada em um argumento único, claro, acessível e totalmente relevante na conversa atual. É o tipo de fala que estava na boca de muita gente – algum redator esperto foi o mais rápido em capitalizar em um anúncio. Essa capacidade de síntese e de simplicidade é o tipo de trabalho vital para causas e entidades sociais hoje, muitas vezes perdidas no seu trabalho de comunicação por estarem sendo atendidas por publicitários mais interessados em pirotecnias que rendam prêmios.

Antes que alguém queira polêmica, já deixo claro que nesse assunto eu também não escolho lado: acho importante as ações elaboradas e complexas, sei que elas tem seu papel e costumam ajudar. Mas também sei que muitas vezes há entidades precisando mesmo é de um bom folder com um texto decente. Melhor ainda se for uma chamada ganchuda e inteligente.

***

Ainda sobre o assunto redes sociais e causas, aproveito e re-colo aí embaixo o resumo que fiz quando fui ao Rio+Social em 2011. Coloque em full-screen ou faça um download pra ler sem problemas.

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Dicas de trabalho de uma ex-bike messenger

No vídeo abaixo, que eu tirei de um post da Fast Company, a ex-bike messenger Kim Perfetto conta rapidamente quais eram suas regras particulares pra conseguir se manter sã no trabalho de bike messenger, os “motoboys de bicicleta”, muito comuns em algumas cidades americanas.

O tema do vídeo não é propriamente segurança de bicicleteiro no trânsito, mas sim que habilidades você desenvolve ao pedalar na cidade e que podem ser úteis em outras situações. Não espere nenhuma grande epifania, mas sempre acho esse universo interessante, especialmente na sua estética. Não é pra menos que os bike messengers já foram tema de romances, filmes e seriados.

Pensando alto: tá faltando no Brasil ainda um grande fenômeno de mídia que mostre a cultura dos motoboys, não? Acho que já aconteceu alguma coisa nichada, mas, se não me engano, nada ainda do nível das empreguetes da novela das sete…

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Pagando por Sexo de Chester Brown

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Lançado no ano passado no Brasil, Pagando por Sexo é um romance-estudo-resportagem-autobiografia no qual o canadense Chester Brown conta detalhadamente como chegou à decisão de se relacionar sexualmente apenas com prostitutas, abandonando a ideia do amor romântico e do “sexo gratuito” como parte inerente de uma relação afetiva. O tema é cabeludo, mas a habilidade de Brown como narrador e ilustrador, já reconhecidas no meio literário, resolve tudo. Além de tornar uma reflexão cultural interessante e divertida, Pagando por Sexo enfileira causos e argumentos (inclusive com uma polpuda bibliografia) para sustentar moralmente e socialmente a escolha de seu autor.

Questões sexuais à parte, o que mais me chamou a atenção no livro foi o fato de Brown ter construído e divulgado formalmente uma via pouco usual de relação com mulheres. Não me interessa discutir os motivos da escolha ou investigar suas emoções, mas sim o fato notável dele ter aberto esse espaço, ainda que isso tenha acontecido em um país como o Canadá, que me parece ser mais tolerante à diversidade. Pagando por Sexo, nesse sentido, é fascinante.

Dias depois, lendo “Cultura, Um Conceito Antropológico” de Roque de Barros Laraia (clique aqui com o botão direito pra baixar em PDF), me deparei com esse parágrafo abaixo. É uma pequena ode à diversidade cultural do ser humano e na hora pensei que descreve bem o que senti lendo Pagando por Sexo:

“Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito do seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra. É esta grande variedade na operação de um número tão pequeno de funções que faz com que o homem seja considerado um ser predominantemente cultural.”

Não se deveria cobrar de todos que aceitem ou apreciem a diversidade. Contemplá-la como fato já seria um belo começo.

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Por uma vida mais ordinária

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Esses dias peguei um táxi aqui em Porto Alegre e aconteceu o inevitável: depois de poucas quadras, nos metemos em um engarrafamento e o motorista começou a reclamar: era recém quarta-feira, dizia, e já estava estressado como se fosse sexta, por causa desse trânsito dos infernos! Me solidarizei e dei corda pra conversa, perguntando que horas pegava e que horas largava. E ele me contou o seguinte: “pego cedo, tipo seis, sete e largo às quatro porque não dá. Eu até podia trabalhar mais pra ganhar mais dinheiro, mas pra quê? Pra ficar ainda mais estressado? Então eu prefiro ir pra casa e fazer minhas coisinhas, tô construindo uma garagem eu mesmo, com um quartinho embaixo pra minha esposa costurar. O táxi não é meu, o dinheiro que eu ganho é o suficiente, pra que vou me matar?”

Até esse dia, por ingenuidade ou alienação, eu ainda pensava que essa onda de questionamentos a respeito de carga horária de trabalho e o valor de se sobrecarregar em troca de salários ou posições melhores fosse algo restrito a uma certa elite cultural, coisa de gente bem nascida ou já completamente estruturada, que teria condições financeiras de fazer reflexões e escolhas que não estão no horizonte da maior parte dos brasileiros, que precisa simplesmente batalhar o básico. Mas, ao que parece, a ideia de espremer a própria energia em busca de uma ascensão cujos frutos são às vezes duvidosos está bem mais disseminada do que minha mente estreita imaginava.

A fala do taxista combina com uma série de textos que cruzaram meu caminho nos últimos meses. Destes, o que parece ter causado mais impacto no meu círculo de conhecidos digitais foi “O Seu Estilo de Vida Já Foi Projetado”, no qual o blogueiro David Cain conta como ter voltado à jornada formal de trabalho de oito horas dentro de uma empresa começou a empurrá-lo para um tipo de consumo mais impulsivo e desnecessário. A lógica que ele sublinha é bastante simples do ponto de vista físico: o tempo livre, quando comprimido pelo formato clássico de emprego, exige um tipo de aproveitamento mais intenso, especialmente ao ser combinado com os equipamentos de consumo de grandes cidades. Do ponto de vista de Cain, “fazer com que as pessoas tenham pouco tempo livre significa que elas vão pagar bem mais por conveniência, gratificação e qualquer outro alívio que possam comprar. Faz com que elas continuem assistindo televisão, e os seus comerciais. As mantém pouco ambiciosas fora do trabalho.”

Semanas antes, o Valor Econômico publicou a matéria Menos é Mais, com uma série de exemplos individuais, no Brasil e no exterior, de gente que está reformulando seu estilo de vida, aparando arestas, tentando reduzir o desnecessário. Claro que o desnecessário é sempre uma visão particular: para alguns é trocar os livros de papel por um tablet, para outros é abrir mão totalmente de lidar com dinheiro. Essa visão democrática sobre simplicidade é importante, sob pena de se criar algum tipo de dogmatismo sobre o que é certo e o que é errado na busca por uma vida mais significativa e com menos penduricalhos. A Galileu também publicou um post na mesma batida em um de seus blogs, com um foco na digitalização de bens materiais como uma alternativa para quem quer deixar sua bagagem física mais leve e facilitar a mobilidade. Outro: meses antes de ler isso tudo, recebi do Ariel um link da Fast Company que publicou o resumo do livro In 2052: A Global Forecast for the Next Forty Years. Uma das questões cruciais levantadas nesse relatório é “Eu serei mais pobre em 2052?” O autor do trabalho sugere: “Você está fazendo a pergunta errada. Você deveria perguntar ‘eu estarei mais satisfeito?’ Para a maioria de nós, existe todo um conjunto de fatores que influenciam nosso bem estar – trabalho, saúde, família, comunidade, perspectivas – além de renda.”

Obviamente não estou ligando todos estes pontos por acaso. No ano passado, eu mesmo resolvi fechar um ciclo de 20 anos trabalhando no esquema das 9 às 19, dentro de empresas maiores, com salário e benefícios, em busca de uma outra experiência, com outros benefícios e outros obstáculos. Na construção dessa viabilidade, muita coisa pesou e pensei muito. Li bastante e fui fortemente influenciado pelo tipo de pensamento que as matérias acima descrevem. Passei também por muita besteira, muita fantasia, mas no fim das contas percebi que parece existir, sim, um caldo cultural no “Brasil da nova classe C” para fazer algumas perguntas mais profundas a respeito desse esquema todo.

O ponto aqui não é demonizar o emprego tradicional, ainda importante na nossa economia e na nossa cultura geral, como estrutura social e do indivíduo. E muito menos bater na tecla do empreendedorismo clássico, que é apenas uma outra forma de emprego formal, hoje disfarçada de manifesto libertário modernoso. O ponto é tentar entender ou ao menos pensar a relação entre esforço e fruto, investimento e dividendos na forma como a nossa sociedade está estruturada. E também enxergar que no novo momento que o país vive existem algumas frestas, alguns espaços, nos quais se pode fazer algumas experiências novas. Eu e minha mulher, que deixamos nossos empregos formais e supostamente estáveis no ano passado, costumamos comentar que nossa atual escolha profissional não seria possível no Brasil de quinze anos atrás – não havia contexto econômico que sustentasse as nossas atividades específicas de forma autônoma. De qualquer forma, a ideia não é simplesmente que algumas pessoas aproveitem as sobras de um sistema clássico, mas sim repensar a ideia de trabalho por um viés estrutural e, acima de tudo, humano.

Enfim, essa não é uma conversa fácil, é cheia de nuances, mas me parece necessária no momento que estamos vivendo no Brasil. Melhor conversarmos isso agora, que temos um país borbulhante, do que em retrospecto, quando novas estruturas já estiverem sedimentadas.

***

Leitura Complementar

* Não deixe de ler os comentários, com opiniões e depoimentos que trazem outras considerações importantes.
* Para geração com 20 e poucos anos, ambição tem preço – matéria no Ig.
* Very Little Need & Much Contentment – por Dzigar Kongtrul Rinpoche.
* Profissionais Apaixonados – por Eduf.
* Sem Trabalho – Como Sobreviver num Mundo Sem Emprego – ebook em PDF do Gilmar Renato da Silva.

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Hernán Casciari: como acabar com o intermediário

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A história do blog/editora/revista/bar Orsai, nascida a partir da insatisfação de um escritor/jornalista com os modelos convencionais de publicação. Um depoimento bastante inspirador pra quem trabalha com conteúdo ou pra quem simplesmente acredita que é possível construir negócios a partir de outras visões que não apenas a monetarista. Também é uma aula das consequências da relevância de conteúdo bem gerida.

Tente fazer isso em casa, a menos que você more em uma grande corporação.

PS: quem foi mesmo que me sugeriu esse vídeo? Obrigado!

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A internet prejudica as cenas musicais geográficas?

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Artigo que saiu no El País já faz mais de ano – Internet Entierra Las Escenas Musicales – mas ainda vale a reflexão: o quanto a rede acabou enfraquecendo as alianças geográficas das cenas culturais? Será que os artistas e produtores mais conectados dão menos atenção àquela casa noturna da esquina, àquelas bandas da mesma cidade e assim por diante? É possível que as cidades ainda produzam artistas e obras com características enraizadas na cultura local, como são os exemplos de Massive Attack/Bristol e Talking Heads/Nova Iorque, exemplos citados pela matéria?

Particularmente, não acredito numa equação tão simples e linear. Por um lado, a internet tem, sim, um efeito de alienação. Muitas vezes, é mais fácil e menos doloroso fechar parcerias com similares distantes do que ser obrigado a se articular num grupo próximo geograficamente mas mais heterogêneo artisticamente. Os parceiros distantes muitas vezes compartilham referências de forma mais visceral e não enfrentam o desgaste do dia-a-dia, da convivência frequente, que no meio artístico é uma questão tão complexa quanto na vida particular. Na aliança da distância, perde-se em riqueza, talvez, mas ganha-se em viabilidade. Especialmente em centros urbanos menores, é muito difícil um artista com uma visão mais “esquisita” encontrar caminhos para crescer.

Os pares locais, por outro lado, são pares por estarem perto e não por cultivarem o mesmo universo de inspirações. Apesar da articulação sofrer com as diferenças de linguagem, ganha em troca e diversidade. Além do mais, mesmo com essas diferenças todos bebem ao menos de um arcabouço comum de conceitos demográficos: frequentaram mais ou menos as mesmas ruas, os mesmos centros culturais, viveram na carne os mesmos ciclos daquela cidade. Por mais complicado que seja em alguns momentos, existe uma base mínima comum sobre a qual construir.

Particularmente, acredito que estamos em um momento de rebote, de retomada do espaço geográfico como parte importante da formação de cenas e artistas. Vão-se aí quase 15 anos da circulação constante de mp3 pela rede, cerca de 20 das listas de internet, dois recursos fundamentais para o desenraizamento da rede cultural brasileira. Bandas já circularam mais (graças ao barateamento das passagens aéreas em relação aos anos 90, tecla em que bato constanetemente), toda uma hierarquia de artistas e produtores se desconstruiu, uma série de mudanças econômicas gerais aconteceram. Talvez o próximo momento da cena musical independente brasileira seja mesmo uma espécie de retomada da geografia como eixo das cenas – algo que talvez somente o Pará venha operando nos últimos cinco anos. Afinal, é humano querer ganhar o mundo e circular, mas é ainda mais humano querer estabelecer uma casa.

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Imagem: Amaia Arrazolla

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Chega de “a bolsa ou a vida”

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No final de fevereiro, o psicanalista Contardo Calligaris publicou na sua coluna semanal da Folha de São Paulo um artigo muito bacana comentando como a vinda de Yoáni Sanchez ao Brasil ressucitara a discussão de uma “falsa alternativa” política. Segundo Calligaris, e todos pudemos testemunhar isso, ainda há muita gente que pensa e declara abertamente que a blogueira cubana não poderia “criticar a falta de liberdade em Cuba quando o regime acabou com a fome na ilha.” Para o psicanalista, é fato que, “para acabar com a fome na ilha, não era necessário acabar com nenhuma das liberdades dos cubanos.”

Buscando sustentar essa perspectiva, Calligaris evocou Jaques Lacan e seu exemplo a respeito do que chamava de “escolhas forçadas”: no caso de um assaltante que nos manda decidir entre a bolsa ou a vida, não há decisão alguma a se tomar. Quem decide ficar com a bolsa certamente perderá os dois, pois o assaltante não deixará a bolsa com um cadáver. Quem decide pela vida, no ambiente conturbado em que vivemos, corre seriamente o risco de ser morto e, claro, perder também a bolsa. “Em suma”, completa o colunista da Folha, “escolha zero.”

No caso de Cuba, seguindo-se essa lógica, a perda da bolsa (a suposta riqueza que um regime capitalista e livre produziria) não impediu que as pessoas perdessem uma parte da sua vida (suas liberdades civis completas). Fazendo-se o caminho inverso, a perda da vida não impediu que as pessoas perdessem também suas bolsas. O raciocínino é um pouco simplista, mas tudo bem: ao que parece, a coluna não tratava de fazer uma crítica profunda ao socialismo, mas sim de sublinhar a necessidade de resistirmos às alternativas binárias. Calligaris defende que “Se existem, no mínimo, 50 tons de cinza por que razão escusa você tenta me acuar a escolher entre preto e branco?”

Engana-se, porém, quem acha que esse tipo de reducionismo, dessa vida decidida entre preto e branco, é exclusividade de regimes totalitários. O jeito como a gente vive nos países capitalistas emergentes contemporâneos também é coalhado de golpes similares que tentam nos aplicar a todo instante. No fundo, a maior parte das grandes questões que envolvem o nosso coletivo é apenas uma variação surrada do clássico “a bolsa ou a vida?”. Quer alguns exemplos?

O fato da maior parte das grandes cidades estar crescendo pra dentro dos shopping centers (como diz meu amigo Marcelo Firpo) é um dos grandes golpes “A bolsa ou a vida” que estão nos aplicando. Aqui, isso significa o seguinte: ou você abraça a cultura do consumismo, do passeio à base de olhar vitrines, do estacionamento coberto pago, do cinema a preços exorbitantes, ou você perde sua vida num assalto por aí. Infelizmente, a proposição não traz uma escolha de fato, pois uma cidade cujos cidadãos circulam cada vez mais dentro dos shoppings tem sua vida também roubada.

Uma outra versão desse dilema é a que envolve discussões políticas acerca de espaços públicos abandonados. Nesse caso, “a bolsa ou a vida” quer dizer “ou nós colocamos um condomínio de prédios comerciais e residenciais nessa imensa área abandonada ou então ela vai ficar degradada para sempre.” Diante disso, parece que resta aos cidadão ou ao governo apenas entregar a bolsa a algum empreendedor. Mais uma vez, a escolha não existe pois a vida que se instala nesses locais em geral é uma vida que poucos poderão viver e na qual tantos outros não tem o menor interesse em se engajar.

Um terceiro exemplo seria a ética da produção radical que está sendo vendida amplamente hoje no Brasil. Sob a justificativa de não deixarmos a peteca da estabilidade e do crescimento econômico caírem, criou-se coletivamente a ideia de que devemos todos ser enlouquecidamente produtivos na vida e no trabalho. Desse ponto de vista, “a bolsa ou a vida” quer dizer que precisamos encher a nossa bolsa (para em seguida despejá-la no comércio) ou então em breve não teremos mais a vida boa que temos hoje (com carro em 60 prestações e TV de tela plana em 24). É claro que ninguém está escolhendo nada aqui, pois se você se recusar a encher a bolsa no mesmo ritmo perderá também suas condições mínimas de vida na forma como se exige hoje, ao menos nos grandes e médios centros urbanos.

Faço coro, então, com Contardo Calligaris: precisamos nos recusar a responder perguntar binárias, não apenas no âmbito privado, não apenas do ponto de vista das liberdades individuais. Entre “a bolsa e a vida” da nossa coletividade existe um sem número de possibilidades graduais. O estímulo à volta do comércio de bairro com locais para passeio não seria uma boa alternativa econômica e cultural aos shoppings? O foco em soluções que unam comércio e cultura popular para áreas degradadas não soa muito melhor do que prédios de escritórios anódinos? A busca de uma forma alternativa de vida que não se baseie unicamente em trabalhar e consumir soa tão radical assim?

Sei que estamos falando apenas de ideias e conceitos, mas é preciso começar por algum lugar – que seja pela imaginação, que ainda é gratuita. O conceito binário de escolha para nosso futuro precisa ser repetidamente questionado. Porque, a meu ver, o fato de continuarmos olhando para os grandes temas que nos estruturam enquanto país sob o filtro do “a bolsa ou a vida” é justamente uma das causas de continuarmos nos deparando com sujeitos no meio da rua com uma arma nos perguntando “a bolsa ou a vida”.

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Imagem: Justin Mezell

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Chegou a vez do pontocom virar passado

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E quando parecia que a internet não podia ficar mais complicada, vem aí no meio do ano o lançamento dos novos Domínios de Topo Genérico. Ou, pra ser mais popular, os novos “.com”. Já estão em processo de aprovação final pelo ICANN, o órgão mundial que regula esse tema, as primeiros das quase 2.000 novas terminações que foram solicitados por grandes empresas globais e por investidores do mundo digital. Pra se ter uma ideia, hoje existem cerca de 22 DTG (.com, .org, .edu etc). Esse número vai pular pra quase 1500 entre 2013 e 2014. Estive ontem pela manhã num evento do escritório  Silveiro Advogados aqui em Porto Alegre pra ouvir o Rodrigo Azevedo falar sobre as complexas questões que surgem para empresas e usuários a partir dessa inovação que vem sendo pouco comentada pela mídia brasileira. Rodrigo é especialista em Propriedade Intelectual e Tecnologia da Informação e Árbitro da World Intellectual Property Organization.

Com essa novidade, quem for aprovado no rigoroso e caríssimo processo (os custos jurídicos e tecnológicos de entrada ficam em torno de 500 mil dólares) não precisará mais registrar seus sites sob a bandeira .com, mas poderá trabalhar com os próprios Domínios de Topo Genérico. Isso significa que os detentores dessas extensões também se tornarão registradores de domínio. Por exemplo, a Nike, uma das solicitantes de fato, não precisará mais operar sob a designação nike.com, mas hospedar todos seus produtos, serviços e ações sob o guarda-chuva .nike. Assim, em vez de Nike.com/futebol ou nikeplus.nike.com, teremos apenas futebol.nike ou nikeplus.nike. Além disso, a Nike também poderá oferecer a parceiros ou clientes essa extensão Podemos pensar em possibilidades como um acordo com a CBF para a criação do selecaobrasileira.nike ou uma promoção com clientes finais que me permitiria criar um site gustavomini.nike. Isso tudo implica, ressaltou Rodrigo, não apenas em deter o DTG, mas também em ter a capacidade tecnológica, financeira e jurídica de operá-lo.

O vídeo abaixo, do .NXT, site especializado no assunto, explica de forma clara e visual essas questões:

Obviamente, isso também é uma porta aberta para uma explosão de fraudes digitais. Rodrigo iniciou a apresentação comentando a prática de cybersquatting, que é quando alguém se apropria de um domínio com a intenção de tirar proveito de marcas célebres em cima da distração ou da falta de conhecimento de usuários. Dê um pulo em Voe Tam, por exemplo, um site criado especificamente para se aproveitar do viajante menos experiente no ambiente digital, que em muitos casos acabará clicando em anúncios relacionados ao tema da marca sequestrada. O dinheiro obtido com esses cliques fica para o criador da página mal intencionada.

O mais preocupante é que o cybersquatting hoje já não é mais uma atividade artesanal de meia dúzia de hackers a fim de tirar um troquinho, mas sim uma poderosa indústria de compra de domínios e construção de páginas como essa em um processo totalmente automatizado, feito integralmente por softwares-robôs. A velocidade e a escala do cybersquating já é impressionante e deve se multiplicar com a ampliação do número de DTGs. Outro dado interessante é o fato de que existem também empresas especializadas em comprar domínios relacionados a grandes mercados e gerar páginas com anúncios correlatos. Nesse caso, esses sites não querem se aproveitar de propriedades intelectuais alheias, mas eventualmente seus robôs constróem páginas automáticas usando termos que se aproximam de marcas consagradas e podem acabar enfrentando problemas jurídicos.

Mas o cybersquatting está longe de ser a única via para críticas a esse novo processo. As principais falas opositoras, na verdade, acusam o ICANN de estar querendo criar um novo mercado bilionário para profissionais de marketing e do direito, além de se afastar da origem de gestor técnico dos domínios da internet para entrar no âmbito da política e da economia internacionais. Isso que nós nem entramos no assunto da revisão do conceito de direitos autorais clássicos, do conceito de copyleft e aí por diante.

E o que isso tudo significa para a maior parte de nós? Ainda não se sabe bem. A explosão de novos domínios, ao que tudo indica, é um jogo de cachorros grandes: Google, Amazon, o governo da Suíça, a Globo, a Natura, a Ipiranga e a Heinz, são alguns dos nomes mais conhecidos que investiram milhares e milhares de dólares na compra de novas extensões. Ou seja, é possível que o poderio econômico desses players empurre a internet global na direção de uma fragmentação na forma como entendemos o uso de endereços hoje, o que deve acarretar mudanças e inovações nas áreas de tecnologia, legislação e marketing. (Veja aqui as empresas solicitantes classificadas por país)

Segundo Rodrigo Azevedo, o Google botou dinheiro na mesa para tentar comprar a extensão .search. A Heinz quer adquirir a extensão .ketchup, o que está sendo questionado do ponto de vista do monopólio – ela pretende liberar o uso para Hellman’s mais adiante? Pode criar um site bad.ketchup falando da Hellman’s? Mais complexo ainda é o caso da Amazon, que pleiteia as extensões .amazon e .book. Rodrigo acredita que a gigante do varejo americano não deve ganhar essas sob pena do ICANN acabar prejudicando assuntos de interesse público. De qualquer forma, a gente bem sabe como se comportam as megacorporações mundiais em assuntos desse porte, então essa história ainda vai render muito – dinheiro e folclore.

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Diários de Bicicleta: Ramilongando

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Num domingo de manhã, calor ameno em Porto Alegre, acordei e fui dar uma volta de bicicleta. Por ser fevereiro e muito, muito cedo, me dei ao direito de fazer algo não muito recomendável, que é enfiar fones nos ouvidos e transformar o passeio em um vídeo do YouTube ao vivo, gravado em primeira pessoa. Com as ruas praticamente desertas, mais parecendo locação de filme de zumbis, não houve grandes problemas, pelo contrário. Os zumbis de domingo de manhã em geral são inofensivos, ou estão paramentados para correr muitos quilômetros atrás de suas próprias metas ou estão bêbados demais para se mover.

Logo que saí do prédio, botei pra tocar o álbum “Ramilonga“, do Vitor Ramil. Nada menos esportivo, nada mais constrastante. O verão forte já se insinuando pelas frestas da manhã, eu descendo a Nilópolis acelerado e Vítor mandando ver sobre um violão gaudério e uma cama de cítara:

Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais

No embalo, desaguo na Protásio Alves, tão deserta quanto as entranhas de Petrópolis. A paisagem, como sempre, muda. Os prédios residenciais dão lugar à sequência de estabelecimentos comerciais e ao corredor de ônibus. As cortinas de ferro se enfileiram, um ou outro pedestre caminha em direção ao Parque da Redenção, o sol ainda não deu as caras em definitivo. E segue a milonga de Ramil.


Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

O viaduto da Silva Só me sobrevoa e a partir daí, ladeado pelo Hospital de Clínicas, já vislumbro as árvores a Redenção. Com o fluxo de trânsito ainda pingando, é possível cruzar a Osvaldo Aranha em qualquer ponto, não preciso dar satisfações a sinaleiras ou canteiros.

Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais

Ouvindo o conselho de Vitor, Bom Fim nunca mais, deixo a Redenção de lado e invisto na Venâncio Aires rumando para o Gasômetro. Pelo menos 15 anos antes, nessa mesma avenida, eu costumava caminhar seis ou sete quarteirões pra pegar o ônibus até um dos meus primeiros empregos. Ia na direção contrária, literalmente, na época com um walkman e uma fita tocando Crooked Rain, Crooked Rain do Pavement. Quantas vezes não peguei o sol saindo por trás dos prédios da Cidade Baixa ouvindo Silent Kit? Era uma pequena benção.

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Trânsito nenhum me hipnotiza na Perimetral. Em velocidade, passo por Copacabana, o restaurante, e pedalo ritmadamente num asfalto colaborativo para com os ciclistas, excelente para pedalar, não tão bom para o escoamento das chuvas, que preferem a permeabilidade dos paralelepípedos. Certas estão elas, me identifico com essa necessidade e acelero para cruzar logo o prédio do Instituto da Previdência do Estado, que financiou minhas idas ao médico desde pequeno. Para filho de funcionário público do Estado, o IPE é uma instituição com um certo tom de divindade – conceitos que uma criança cultiva…

O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais

Finalmente chego à beira do Guaíba, com mais movimento que o resto da cidade. A Beira-Rio, fechada para carros, está povoada de idades extremas: a essa hora, ela é dos velhos e das crianças. Claro, os paramentados para corrida também estão lá, mas, ei, não vamos estragar a poesia com o Nike Plus.

Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Desço da bicleta para olhar o rio. Botam a culpa no muro da Mauá e no poder público, dizem que eles nos fazem dar as costas para o Rio. Mas não é verdade. As costas são nossas, nós damos pra quem quisermos. Temos a liberdade de dar as costas pra cidade, mas somo tão apegados à bagunça que preferimos dar as costas pra serenidade do Guaíba. O desprezo é tanto que nos apaixonamos coletivamente pelo Pôr-do-Sol e esquecemos da água. Por não ser azul, por ser barrenta, a desconsideramos: preconceito de cor.

Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais

Penso isso tudo sentado num banco com a bicicleta deitada à minha frente, preguiçosa, olhando o Rio. Senta-se ao meu lado uma senhora, cerca de 60 anos, talvez um pouco mais. Pergunta se pode me contar algo valioso, digo que sim. Diz, então, que o filho de vinte e poucos vagou muitos anos depois do fim do colégio. Viajou por aí, solto. Retornou, começou faculdade, trancou e viajou de novo. Dá pra sentir na voz dela a aflição de mãe ao ver o filho sem eixo, ao menos um que ela não consiga perceber. Mas, como tudo tem conserto, diz ela, uma hora o menino se ajeitou, voltou pra faculdade e ano passado concluiu o curso. O que daria uma grande alegria a ela: a formatura! Ela havia juntado dinheiro em segredo durante anos pra formatura!

Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

Quando é a formatura, ela perguntou pra ele. Depois de amanhã, mãe. Mas como assim? Assim, mãe, formatura de gabinete. Ela ficou arrasada, frustrada. O que ia fazer com o dinheiro? Comprar uma TV? E com o sonho de ver o filho equipado, filmado, fotografado, diplomado no palco? Enfim, de qualquer forma, lá foi ela para o gabinete, se arrastando, aceitando as migalhas de glamour. Mas, durante a curta cerimônia, percebeu uma luz diferente no gabinete. Eram os olhos dos formandos. Ela viu ali a alegria genuína da conclusão de uma etapa. Meu filho estava feliz e isso era a única coisa que interessava. Aquilo foi o suficiente, aquilo preencheu o mundo. Isso é o que uma mãe mais quer, ver o filho feliz. Ele estava feliz, então pronto! Ela contou isso com brilho nos olhos também, como se ela tivesse se formado. E queria me contar mais coisas. E começou a falar da rotina da casa e da relação dela com o Facebook, ainda estava aprendendo, autodidata de Face. Uma solitária em família. E não parava mais e eu não conseguia ir embora.

Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais

Uma hora tive que cortar ela, pegar a bicicleta e sair. Tenho filho pequeno em casa me esperando, disse. Café da manhã em família. Tenho que ir. Subi e saí pedalando de volta. Havia muito o que pensar, tantas coisas edificantes, aquele pequeno pedaço de filme dos Irmãos Coen na minha manhã de domingo! Mas eu só consegui pensar uma coisa bem prosaica: essa gente toda, como eu, que tem blog e Facebook, onde nós colocaríamos tudo isso se não pudéssemos escoar aqui? Nós certamente sentaríamos na beira do rio e puxaríamos papo com o primeiro que chegasse. Me senti um pouco pobre de ideias e de empatia. Tanta coisa que eu podia desejar à essa senhora e eu só consegui desejar um blog.

Nada mais, nada mais

***

Imagens: daqui, daqui e daqui.

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Um pouco de ripongagem sempre faz bem

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Minha primeira vez com Ney

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Há três semanas, Ney Matogrosso tocou em Porto Alegre numa das primeiras datas de sua nova turnê, Atento aos Sinais. Diferente dos shows anteriores, mais intimistas e formatados num esquema quase acústico, este é um retorno ao Ney expansivo e explosivo em todos os sentidos. Era justamente o que eu esperava na minha perda de virgindade-de-Nei-Matogrosso.

Pois é, eu nunca tinha visto o Ney Matogrosso ao vivo. É óbvio que eu sei quem é ele e sua importância na música brasileira, mas devido aos meus interesses específicos, acabei deixando-o de lado. Acontece que a marca dele na cultura brasileira é tão forte que a imagem correspondente é bastante clara mesmo quando construída de fragmentos: um intérprete inquestionável, de um artista original, de uma força da natureza especialmente no que diz respeito a equilibrar as energias masculinas e femininas do palco. Ou seja: mesmo sem acompanhar pragmaticamente sua carreira, sei que Ney é o cara.

Atento aos Sinais, claro, mais do que cumpriu com as minhas expectativas de primeira vez com Ney. Pode parecer arrogante falar assim de alguém de tamanho vulto, mas também é esperado, em geral, que artistas do pop se mostrem cansados aos 40 anos de carreira. Definitivamente, não é este o caso. Diante das minhas referências, durante o show me lembrei muito de nomes como Iggy Pop e Neil Young, senão pelo parentesco estético (talvez Iggy, pela presença de palco), certamente pela energia despejada sobre a audiência. Estamos falando de artistas que não tocam, mas derramam música sobre nós – e com isso se derramam juntos. Ney sempre foi desses. Pensei, durante o show: “É incrível que ele ainda possa se entregar tanto pra platéia.” Bem, só entrega muito quem tem muito pra dar. Ney tem tudo que a platéia precisa: tem conteúdo, tem forma, tem verdade e tem linguagem. Tudo próprio, tudo seu. E um pouco nosso, de cada um, muito do Brasil das últimas décadas.

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Além de alguns roqueiros dignos, assistindo ao Ney também me lembrei de nomes como a Nação Zumbi e do Portishead, por conta da maneira como os sons do show são construídos. Pesadas e pungentes ou mais tranquilas e embaladas, as interpretações de Ney e sua banda lembram muito uma certa bricolagem que caracteriza o mangue beat e o trip hop. Essa desconstrução, segura, coesa, como só a experiência permite empreender, não deixa furos, não deixa espaços vazios no som – o maior perigo nessas brincadeiras de desconstruir. Mas claro que Ney não está brincando. Ele brinca mas não brinca. Sabe brincar, por isso desce pro play com tamanha segurança e autoridade.

A escolha do repertório também não deve surpreender os que o acompanham. É quase uma curadoria, é quase um podcast com um olhar especial. Tem Lenine, Arnaldo Antunes, Criolo, Itamar Assumpção, Pedro Luiz, Caetano, Dani Black, Tono, Vitor Ramil, Dan Nakagawa. O rótulo MPB tanto define toda essa gente como soa meio torto, não cola geral. De qualquer forma, nos arranjos da banda liderada pelo tecladista Sacha Amback, tudo acaba ficando meio “Ney Music”, essa colcha de retalhos, esse artesanato pesado e aterrado. Entre tantas peripécias de arranjo, um detalhe rítimco importante me chamou a atenção: as batidas graves e agudas, que numa bateria convencional são executadas por um único baterista usando o bumbo e a caixa, ao longo do show são todas divididas entre os percussionistas Marcos “Eita minino danado” Suzano e Felipe Roseno. Me disseram que é o mesmo esquema do Pedro Luiz e a Parede, ma me remeteu mesmo foi à Nação Zumbi e ao quanto Nei deve ter influenciado tanta gente nos anos 90…

Pra fechar, mais duas supresas. Primeiro, o show é claramente politizado. Não há discursos sobre o Congresso ou sobre os políticos, mas há um bombardeio de imagens no telão. Elas endereçam questões ligadas à urbanização, à violência e à natureza. Elementos que, em mãos erradas, poderiam destoar, ficar grotescos ou perdidos. Mas aqui eles fazem todo sentido do mundo. Ney costura o sentido com a habilidade de um artista que sabe se posicionar dentro da sua linguagem. Ele ainda faz algo dificílimo e digno – se inclui particularmente no viés político, claro, viveu tudo isso. As imagens durante a execução de “Vida Bandida” são um resumo da carreira de Ney. Nem todo artista com quarenta anos de estrada tem ainda a mão pra equilibrar algo do tipo.

A segunda supresa foi uma lebre levantada pela minha mulher e que quebrou totalmente minhas pernas. Eu já tinha visto vídeos e clips, e esperava que fosse diferente, mas ao vivo fica flagrante o fato de que, a despeito de toda energia feminina que ele habilmente manipula, o feminino de Ney não está na dança já que ele, curiosamente, rebola como macho. Veja você.

Por fim, uma certeza: quando as luzes se apagam e começa o show, um facho ilumina Ney Matogrosso, vestido como uma majestade bizarra, como uma corista de uma lua distante, como um alienígena de filme dos anos 70, sentado em um trono feito de espelhos. É estranho, é intenso, é meio insano. Foi aí que eu entendi o truque do Ney: não é que ele se fantasia, é que no palco ele usa alma do avesso.

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O MSN viverá pra sempre em canções como essa

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E pouco a pouco as culturas de nicho vão consolidando a memória da cultura digital. No caso, é a visão gaudéria dos relacionamentos pela internet, lançado no ano passado. Não perca essa pérola:

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Emma Coats deu um presente aos planejadores

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Há algumas semanas, a ex-story artist da Pixar, Emma Stone, resolveu tuitar o que considera 22 regras importantes para uma boa história. O mundo sem dúvida está cansado de fórmulas, mas quando algo vem com o selo da Pixar é bom prestar muita atenção e logo centenas (ou milhares) de sites publicaram as tuitadas em formato de lista.

O item de número 4, que reproduzi na imagem acima, é especialmente valioso para quem trabalha com comunicação ou com qualquer outro tipo de segmento que precise de um planejamento, em que se precise vizualizar um cenário e descobrir caminhos pra resolver um problema. Faça o teste: as lacunas ali em cima não precisam ser necessariamente preenchidas com personagens e fatos de uma história de ficção. Eu já testei e posso dizer que funciona perfeitamente pra planejamento de comunicação. É o seguinte:

- Na primeira lacuna, você coloca a empresa ou a marca com a qual está trabalhando.

- Na segunda, a estratégia atual, que precisa ser avaliada.

- Na terceira, o que ameaça a estratégia atual

- Na quarta, o que aconteceu por conta dessa ameaça.

- Na quinta, o que deve ser feito para contrapôr a ameaça.

- Na sexta, o resultado esperado.

Simples, como todo planejamento deveria ser.

(Uma sugestão: imagino que isso também sirva para avaliações pessoais do tipo “o que eu faço agora que me ofereceram esse emprego?”)

É ou não é uma boa? Não agradeça a mim. Agradeça à Emma Coats.

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Shelved – O Balconista encontra Wall-e

É mais ou menos nessa batida que vai o curta lindoso com efeitos produzidos por alunos da Auckland’s Media Design School. Esse Shelved nos lembra: tá faltando mesmo um longa adulto com robôs mais ácidos e menos sonsos. Em geral, os robôs no cinema são apenas escadas dramáticas ou caricatas.

(Só é chatinho de acompanhar o enrolado sotaque neozelandês processado em voz de robôs. Mas mesmo pegando uma parte do texto, dá pra sacar a malemolência da história…)

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Trama Virtual & The Deleted City

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Lendo o texto do Matias sobre o fim da Trama Virutal, me lembrei desse projeto, The Deleted City do designer de informação Richard Vijgen. O Deleted é nada mais nada menos do que todo o backup do finado Geocities (digamos assim, o antigo Blogger/Wordpress) formatado visualmente como o mapa arqueológico de uma cidade:

Três rápidos pensamentos a respeito.

Um: como é rápida a sensação de antiguidade no âmbito da cultura digital. O auge da relevância do Geocities se deu no fim dos anos 90 e sua extinção em 2009. Portanto, seria relativamente cedo para arqueologia, mas acontece que as ondas digitais são tão meteóricas que uma década é o suficiente para gerar nostalgia na maior parte dos envolvidos.

Dois: não é por acaso que comparo a Trama Virtual ao Geocities. Ambos eram baseados em uma ideia geográfica. O Geocities intencionalmente. A Trama Virtual por adoção da cena independente. Sim, o site da Trama, a meu ver, era um ponto geográfico ao qual as pessoas iam e se reuniam. Foi o primeiro grande endereço nacional do indie, o correspondente na internet de esquinas malditas espalhadas pelo Brasil físico. Aliás, equipes da Trama estiveram muitas vezes nessas esquinas fazendo a costura. O que a Trama Virtual deixa pra trás (já tinha deixado…) não é a falta de um lugar pra armazenamento, mas um lugar central, um eixo. Mas, enfim, não estamos na era do Fora do Eixo? Sem trocadilhos, o eixo se dissolveu, está mais disperso. Talvez daí o fim da Trama Virtual.

Três: como músico, desde já (já??) bate com uma certa nostalgia. A Trama Virtual é parte da história dos Walverdes. Mas também já faz tempo que estamos conversando sobre a portabilidade do nosso arquivo digital, sobre como ele não pode ficar refém da Trama ou do MySpace ou do SoundCloud ou do Facebook ou do que quer que seja. Nisso, vale o ensinamento do velho mestre Wander Wildner em On The Road (que tocamos em alguns shows): “minha mochila está sempre à mão / e eu tô sempre pronto pra partir.”

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Minha Personal Song por Nenung

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A poeira da implosão da indústria tradicional da música, ao que parece, está baixando e agora o volume de alternativas que surgem começa a suplantar o volume de reclamações. É velha história: enquanto uns reclamam, outros constróem o seu caminho. É o caso do Nenung, cantor, violeiro e compositor com uma trajetória que atravessa algumas décadas embalada nos mais diferentes formatos: já se lançou em vinil com a Barata Oriental no fim dos anos 80, em 5 CDs com Os The Darma Lóvers desde o fim dos anos 90 e no esquema streaming/mp3/show ao vivo com o solo Projeto Dragão. Agora, Nenung vai mais além dos formatos de distribuição clássicos e explora também uma nova relação entre artistas e público, que é a da criação e venda direta da ideia da canção ao interessado.

Pois é, Nenung está vendendo seu talento de compositor diretamente ao público final no site Minha Personal Song. A ideia é muito simples: o pretendente entra em contato, passa um briefing, conta qual é o clima que quer e Nenung compõe a música. Aprovado o primeiro rascunho em voz e violão, parte-se para a produção final, que pode ser mais elaborada ou manter o espírito simples que caracteriza muitos dos seus trabalhos. É uma espécie de mecenato democratizado.

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A intenção de Nenung com isso não é apenas buscar uma fonte alternativa de renda em meio a um cenário musical e cultural sedento por soluções inovadoras. Compositor prolífico, ele também pretende dar vazão ao seu incansável exercício de criação. Mesmo colaborando com diversos artistas e tendo duas bandas pra desaguar sua energia, Nenung se sente mais útil oferecendo diretamente ao público final uma participação nesse processo. Afinal, não estamos vivendo o tempo da interatividade?

Nenung não é o único e música por encomenda não é exatamente uma ideia nova, mas geralmente os serviços disponíveis são de produtoras ou músicos mais impessoais e menos autorais. O que Nenung está oferecendo de diferente é o acesso à mesma fonte que já deu um grande sucesso à Paula Toller (Meu Amor Foi Pra Lua) e engordou os repertórios de Dado Villa Lobos (Lucidez) e Marian Aydar (Peixes). Ou seja, o comprador de Nenung estará sempre muito bem de companhia.

Acompanho o trabalho do Nenung desde o Barata Oriental, tenho admiração pelo seu senso de composição, então posso dizer com segurança: música boa nunca faltou pra ele. Além de fecundo, é comprometido com o coração, tem música boa pros Dharma Lóvers, tem pro Projeto Dragão, tem pro Dado Villa Lobos, tem pra Paula Toller e agora tem pra você também.

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Outlet? Adoro?

O comercial acima apareceu algumas semanas atrás nos inserts do YouTube e teve uma rápida vida de subcelebridade de internet. Não tenho dados preciso, mas nas minhas timelines muita gente tirou onda com a ideia exagerada de comparar a venda de imóveis com venda de roupas. Enfim, é um daqueles trabalhos caricatos do varejo, quando é preciso forçar a barra pra provocar um sentido de urgência. Conheço bem esse tipo de demanda pois já estive do outro lado do balcão e sei que às vezes, por uma série de fatores, a gente força a barra além da conta. Este é justamente o caso.

Essa “série de fatores” que comentei em geral tem a ver com o clima que cerca um determinado segmento econômico. Pra ir mais longe, eu poderia dizer que todo comercial de varejo traz em si um pouco do espírito do seu tempo e do seu entorno. Comparar outlet de roupa com outlet de imóveis reflete a euforia do mercado imobiliário nacional, aparentemente intoxicado com a própria capacidade de botar na rua uma quantidade tão grande de imóveis (comparado ao passado recente) que chega a parecer o fluxo do varejo têxtil, produzindo sempre a ponto de “sobrar” para um outlet.

Outro ponto importante tem a ver com o post de ontem (Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras): essa banalização do ato de comprar um imóvel é parte de toda uma cultura imobiliária amparada em planos diretores que não parecem estar defendendo os interesses mais humanos dos cidadãos. Não que falte planejamento urbano, o que falta é um planejamento urbano voltado para as pessoas e suas relações. A cidade está de braços abertos para carros e prédios, não para aqueles que estão dentro dos carros e prédios.

Ou seja, sob todos os ângulos que você examina, este é um comercial que coloca um ponto num gráfico imaginário: ok, aqui chegamos num nível absurdo, foi tudo muito divertido, mas é preciso voltar pra Terra. Claro que não é um blogueiro que faz esse aterramento. Na maior parte das vezes, é algum abalo de mercado que mostra como a humildade é parente direta da euforia.

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Carol Bensimon: vida e morte das cidades brasileiras

2013-03-24 13.19.07

Atenção povo que se preocupa com os rumos da sua cidade: a escritora Carol Bensimon produziu recentemente uma pequena pérola que serve de manifesto pra quem acha que a especulação imobiliária está deixando nossas ruas menos humanas, menos agradáveis e menos interessante. Na verdade, são dois textos que saíram no Caderno de Cultura da Zero Hora (parabéns ao editor) mas que deveriam estar nas primeiras páginas do jornal – de preferência antes dos anúncios de construtoras.

Em “Crescimento desordenado de Porto Alegre acabou criando sensação de desconforto” e em Pelas ruas da cidade, a Carol reuniu alguns dos principais argumentos de urbanistas e filósofos para contrapôr a lógica da atual expansão imobiliária, que na verdade não tem realmente uma lógica. Ao menos uma lógica aceitável. Na esteira de um plano diretor aparentemente comprometido mais com o negócio das construtoras do que com quem quer viver bem, centenas de terrenos arborizados e pontuados com casas antigas em Porto Alegre vem dando lugar a condomínios anódinos de prédios altíssimos que transformam bairros inteiros em zonas exclusivamente residenciais. Com pouco comércio de rua, com os moradores empoleirados em apartamentos de janelas minúsculas, totalmente distantes de qualquer atividade na calçada, esses bairros acabam parecendo mais perspectivas em 3D do que lugares realmente confortáveis pra se viver – é o que levantam os artigos.

Nesse cenário, uma das ironias mais tristes sublinhadas pela Carol é o nome desses condomínios. Geralmente eles são inspirados em bairros charmosos e interessantes da Europa, locais de arquitetura clássica preservada, de edificações mais baixas, de jardins mais convidativos e de intensa movimentação na rua. Importa-se apenas o nome e, talvez a programação visual para o logotipo e para o folder de vendas. Raramente o estilo de vida.

São complexas as causas desse fenômeno e dificilmente dá pra apontar um único responsável. Tem as construtoras, tem a Prefeitura, tem o momento econômico, tem o momento cultural. Mas essa teia de relações não nos exime de pensar e questionar. Frequentemente flutua a ideia de que certos caminhos são inevitáveis, mas isso não é verdade. Se é possível pensar diferente e escrever diferente, como a Carol fez, tenho certeza que é possível fazer diferente. Não é fácil, não é rápido, mas é possível e começa bem assim, por proclamar e passar adiante uma outra mentalidade que não a dos vetores acelerados do imediatismo.

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A foto lá em cima é da quadra em frente ao meu apartamento, cheia de casas. Metade dela (talvez mais) será botada abaixo pra receber um condomínio novo. Além de um pouco de vista, vamos perder todas essas árvores dos quintais e os cachorros que latiam quando a gente passava em frente.

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