26 de janeiro de 2012 às 16h24
Um outro mundo é impossível
Na corrida, colo aqui algumas anotações que fiz ontem durante o primeiro dia do Fórum Social Temático e do Conexões Globais em Porto Alegre. São notas esparsas tecladas no celular durante o debate de abertura do Conexões (com o Gilberto Gil, o Antônio Martins, o Vinícius Wu e a Olga Rodriguez) e o papo na Pós-TV (com o Sérgio Amadeu, Cláudio Prado e a Ivana Bentes). Considerem esses parágrafos uma saladinha de fruta do que vi e ouvi lá, misturado com alguma coisa que eu mesmo pensei.
1. A mudança vem aos poucos. Não se pode trocar um sistema estabelecido por outro, isso não acontece. O que se faz é ir mexendo em áreas do sistema, irrigando com novas idéias, novos conceitos, novos pensamento, substituindo as peças. Por isso, a mobilização nunca pára, a mobilização é permanente.
2. Da mesma forma, por isso a política não pode ser algo que se faz de 2 em 2 anos com um voto numa urna eletrônica. Política é a ação do dia-a-dia, escolhas e caminhos que se faz, em casa, no trabalho, na rua, na rede.
3. Depois de grandes mobilizações populares, como o Occupy, é preciso ter mecanismos de “governança pós-revolta”. Porque é muito comum, na hora de resolver a crise, voltar às estruturas políticas formais tradicionais.
4. A troca assimétrica é um novo parâmetro. A troca simétrica é a lógica do mercado: você me diz que esse produto vale 5 patacas, eu lhe dou 5 patacas. Mas num mundo conectado em rede, as trocas começam a se tornar mais assimétricas e mais dependentes dos afetos: eu gosto desse conteúdo, então eu pago mais. Eu não gosto desse, então não pago, baixo de graça. Os laços de amizade e os laços familiares são exemplos de trocas assimétricas: você não consegue botar as relações na ponta do lápis, as contas raramente fecham. Esse tipo de conceito está migrando para o mercado e para as estruturas formais políticas e econômicas. As contas não vão mais fechar do jeito clássico.
Uma digressão: o mundo corporativo é falsamente baseado em trocas simétricas. Politicagem, maracutaia e joguetes emocionais são um belo exemplo de como nem sempre 5 reais vale 5 reais. Existem outras jogos envolvidos.
5. Não é apenas a ação que tem poder. O discurso também tem poder. A mobilização mundial em torno da questão SOPA/PIPA não envolveu tanta gente indo pra rua. Foi uma mobilização de discurso, de expor para o mundo as entranhas do projeto e suas consequências. Como todas as pessoas são hoje retransmissoras de mídia, seu discurso pode ganhar status de ação quando coordenado com o espírito do tempo.
6. Um outro mundo é impossível. Temos que dar um jeito nesse mesmo.






































Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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