O Blippy é daqueles sites que surgem e levantam três questões clássicas relacionadas à tecnologia hoje: 1) Pra que serve esse troço? 2) Tá, mas pra que serve MESMO esse troço? 3) Santo cristo, onde é que isso vai parar?
Vamos às respostas.
1) No Blippy, que está em testes ainda, você cadastra seu cartão de crédito e seus perfis na internet e o programa mostra pra todos seus amigos da suas redes sociais seus gastos em detalhes e em tempo real, na hora em que você acabou de passar o cartão na maquininha.
2) Quem é que vai querer ser controlado e comentado pelos outros dessa forma, eu não sei. Mas, vamos combinar que tem um uso excelente pro Blippy: cadastrar todos os cartões de crédito de todos os políticos brasileiros no site e fazer aparecer no Orkutão.
#ficadica.
Ah: a pergunta 3 não é comigo, é no guichê seguinte.
Os celulares são aparelhos difíceis de serem customizados por fora, na sua estrutura física, a grande maioria deles, pelo menos. Ainda assim, todo mundo dá um jeito de deixar o telefone com a sua cara. Uma vez que papéis de parede e fotinhos são limitadas pra um raio de ação mais amplo, o som é que é, hoje, um dos grande fatores de diferenciação do aparelho. É por isso que os ringtones são tão importantes e geram tanto dinheiro no mundo todo pra operadoras e gravadoras. É o toque pessoal de cada um, seja uma música, uma voz gravada ou uma piadinha qualquer que faz dois aparelhos iguais parecerem de donos tão diferentes.
Em resumo, o som é hoje a cara do celular.
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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.
Ilustra: daqui
Os artistas europeus Ronnie Yarisal e Katja Kublitz tiveram uma idéia interessante pra quem gosta de descontar suas frustrações quebrando coisas. Eles inventaram uma vending machines, essas máquinas que vendem refrigerantes, só que colocaram ali dentro objetos de porcelana. Então você chega na máquina, coloca a moeda e escolhe o objeto, ele cai na gaveta e quebra na hora.
No fundo, a máquina funciona bem como uma dupla crítica: sobre a tendência atual de transformar tudo em compras, e também sobre a digitalização das nossas vidas, de não tocarmos diretamente naquilo que estamos envolvidos emocionalmente. Ou seja: a máquina de quebrar coisas não serve só pra lidar com a raiva (um subterfúgio controverso de acordo com algumas correntes psicológicas, diga-se de passagem), mas também com outras questões mais profundas do mundo contemporâneo.
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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.
A câmera fotográfica é um objeto que mudou muito de status nos últimos anos. Ela surgiu na vida de nós, não-fotógrafos, como um simples capturador de momentos especiais. E as imagens que elas produziam eram guardadas com toda pompa e circunstância em álbuns super bem cuidados.
Hoje, a câmera, em sua encarnação digital, está à disposição de muito mais gente. Ela se tornou um objeto mais comum que captura momentos também mais comuns. Ficou mais fácil registrar o dia-a-dia e ficou mais difícil selecionar (e desfrutar d’) os momentos realmente especiais no meio de tantos gigas de imagens
Esse é mais um dos paradoxos da cultura digital que não serão resolvidos por aparelhos mas pela mentalidade do usuário.
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Post inspirado num texto que gravei pro Minimalismo da Oi FM.
Imagem: “Stairway to Nothing”, Centro Cultural Martin Cererê em Goiânia.
… tem um artigo do jornalista, escritor e apresentador inglês Matthew Sweet na última Monocle que joga uma nova luz sobre os repetidos estudos (e manchetes sensacionalistas) que demonstram o futuro envelhecimento da população terráquea, em especial na Europa. Você já deve ter lido ou visto por aí, mas o fato é que existem previsões contando que, em duas décadas, 50% da população dos países desenvolvidos será composta por pessoas acima dos 50 anos.
As primeiras reações a esses números, diz Sweet, são de desconfiança. Eles trazem à tona o medo da perda da força de trabalho, dos custos de previdência e saúde e da falta de opções de lazer e acomodação para os idosos (como se estivéssemos falando de volumes a serem guardados). Adicione à equação a intensidade com que a idéia de juventude vem sendo martelada sobre nós e podemos ver aí um outro problema sutil: a falta de familiaridade de nossas gerações atuais com o conceito de envelhecer. Uma hora, a conta psicológica de tanto desviarmos nosso olhar disso será cobrada - mas esse não é o ponto do meu post.
O bacana do texto da Monocle é que ele desvia completamente o papo da metade vazia do copo. Não há dúvida de que o envelhecimento traz certos prejuízos pessoais e sociais mas, ao mesmo tempo, diz o autor, uma população mais variada em termos de idade significa riqueza de conteúdo e de visões de mundo. Como exemplo, conta que no ano passado conheceu um engenheiro de som aposentado em idade bastante avançada que nos anos 80 (da década de 1880) havia ido pra cama em Moscou com um militar idoso que lembrava do dia em que Napoleão havia marchado sobre a cidade. Tá bom?
Expandindo um pouco o raciocínio de Sweet, logo lembrei que, em algumas décadas, não vai ser preciso ir pra cama com um militar das antigas pra ter uma conversa tão interessante. Se hoje os idosos não estão presente em massa na internet, vamos combinar que os milhões de usuários atuais, com seus blogs e perfis em redes sociais, um dia chegarão (se tudo der certo) aos 60, 70, 80 e 90 anos. Alguns estudos demográficos prevêem que metade das meninas nascidas agora no Leste Europeu estarão vivas no século 22 e com certeza entre elas estarão blogueiras, flogueiras e algumas Suicide Girls.
Visto que a internet, como já discutimos aqui, “veio para ficar”, tenho a absoluta certeza de que não podemos prever o quão rica e interessante vai ser a rede daqui a 40 ou 50 anos. E não estou falando de avanços em termos de equipamentos e linguagens e sim do grosso corpo de experiências humanas que vão estar circulando independente de sexo, classe, raça, localização geográfica e, obviamente, idade.
Outro efeito colateral dessa movimentação pode ser a iminente implosão do conceito de 18-24, hoje largamente utilizado em marketing. Não sei bem de onde saiu essa teoria, mas ela existe e diz que as pessoas mais novas do que 18 anos e os mais velhos do que 24 costumam se referenciar pela turma entre os 18 e 24. A tese é interessante e mercadologicamente funciona, mas a meu ver à base de três elementos que não são impermeváveis a mudanças: 1) uma forte estrutura consumista; 2) uma sociedade/comunidade em crise; 3) a falta de ferramentas psicológicas e/ou espirituais para lidar com o envelhecimento.
Bem, quem viver, verá. Estou apenas dando o meu melhor chute. Na dúvida, vamos de fibras, exercício 3 vezes por semana, frutinha, saladinha e meditação pra ver se conseguimos comprovar essas projeções ao vivo. Digo, vivos.
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Roubei as ilustras daqui.
Bom, na verdade essa entrada na Biblioteca não é bem um livro, mas um artigo que saiu na Folha no ano passado no qual o historiador inglês Peter Burke fala sobre processos de criação em invenções como a prensa de Guttenberg e as classificações da linguística. O ponto dele é simples: quase toda nova tecnologia se nutriu de caminhos previamente trilhados em disciplinas alheias.
Ou seja: advogar pureza de métodos e mundos na busca por uma nova solução em qualquer área é como entrar no carro e sair dirigindo com o freio de mão puxado. Os argumentos de Burke não são difíceis de serem abraçados. Seja por observação empírica, seja pelos inúmeros exemplos históricos, é bastante claro que desenvolver soluções novas e eficientes passa obrigatoriamente pela colisão de mundos e de formações.
Em publicidade, mantras como “você precisa sair da agência”, “você não pode viver só de referências de publicidade”, que no passado precisavam ser repetidos à exaustão, hoje são parte do vocabulário de qualquer estagiário. Embora ainda exista uma nefasta cultura de pessoas praticamente morando dentro de agências, todo mundo ao menos sabe que é preciso evitar a retroalimentação. Então a arte da hora é fazer a conexão entre suas experiências particulares extra-agência (praticamente todo criativo que eu conheço hoje as tem) e o trabalho dentro da agência. É muito fácil encontrar grandes obstáculos pra fazer a síntese dos dois universos e a diversidade de experiências se transformar em frustração. Digo por experiência própria.
De qualquer forma, é fundamental aprender a valorizar essas vivência extra-dayjob não como uma atividade marginal ou como hobby, mas como parte integral da formação de quem trabalha com publicidade e marketing. Por exemplo, tudo que aprendi sobre narrativa e construção de personagem eu devo à leitura massiva de quadrinhos durante anos e anos. Tudo que eu aprendi sobre as tais novas mídias e sobre comportamento em mercados de nicho eu devo a tocar e ajudar a produzir os Walverdes há 17 anos. E por aí vai.
Bom, eu falando é uma coisa. O Peter Burke falando é outra. Por isso incluí a leitura desse artigo na Biblioteca Conector. Ele provê uma plataforma bastante interessante e bem mais embasada pra reflexões nesse âmbito. Bom proveito.
Como o conteúdo do artigo na internet é restrito a assinantes da Folha, eu subi aí um scan que me mandaram aqui na agência. É só clicar em cima da imagem que abre o post que ela aumenta e dá pra ler na buena. Ou tem uma transcrição aqui.
Bom proveito.
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A Biblioteca Conector para Estudo de Mídias Variáveis reúne livros e artigos pra quem se interessa por estudas novas manifestações e usos de meios de comunicação. Em outras palavras, pra entender essa baguncinha aí. Pra saber mais, leia a introdução.
Pra ver todos as entradas, clique aqui.
Se você tem uma dica de livro interessante sobre o assunto, resenhe e publique nos comentários.
Nem Bil Murray, nem Jim Jarmush. A melhor coisa pra mim no Broken Flowers sempre foi o Mulatu Astatke. Poucos sons merecem tanto a alcunha de “malemolente” e os tecladinhos hesitantes dão o tom de quase todo o filme.
Eu até já baixei outros sons dele fora da trilha sonora do filme, mas sou apaixonado e ouço hipnoticamente sempre essa Yegelle Tezetta…
… que já ganhou esse remix meio deep house super astraleza aí em cima…
… bem como essa versão com cenas do Mogli.
É ou não é borbulhante?
Vi no Matias os primeiros teaser/trailers do The Inception, filme novo do Christopher Nolan. E, na hora, me lembrei de como o cinema vem explorando a mente humana como cenário de narrativas, como ambiente cenográfico MESMO e não “uma história na cabeça de alguém ou do ponto de vista de alguém”. Mal puxando da memória, o primeira exemplo que me ocorre numa linha de tempo é A Cela (que eu e o Marcos vimos num intervalo de vagabundagem num dos primeiro Goiânia Noise que tocamos). Na época achei tenebroso. Talvez hoje revendo eu até goste, quem sabe? Mas aquela estética nunca me desceu… Bem… algum cinéfilo pode me ajudar a lembrar de referências mais antigas e mais consistentes?
Um pequeno salto no tempo e nos anos seguintes tivemos uma série de filme que exploravam o espaço interno da mente: Quero Ser John Malkovich enfiou o pé na porta e a seguir veio o Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança, que a meu ver é o Nevermind dessa onda (sendo o Nevermind o mínimo denominador comum entre coisas esquisitas/novas e mainstream). Adoro esse filme e acho que ele transforma em imagens alguns processos terapêuticos de forma muito interessante. E no ano passado ainda rolou o Synedoque Nova Iorque, num clima bem mais barroco e pesado, menos pop-tchuras.
Bom, o fato é que o próprio Nolan explorou bastante os recônditos da mente como plataforma de histórias: seu Memento era construído a partir de memórias desconexas (outro assunto “mental”), Insônia se segurava sobre uma mente disfuncional pela falta de sono e ninguém me tira da cabeça (olha ela aí) que a Gotham City de The Dark Night é um reflexo da mente do Batman.
A mente humana tem sido assunto frequente na mídia mais mainstream. Mas geralmente, dividida em dois terrenos: o cérebro, a máquina, a química, e a psiquê, os processos psicológicos. O leitor de Veja e a audiência do Fantástico vem sendo sistematicamente bombardeados nos últimos anos com matérias superficiais e um tanto quanto inúteis na prática sobre as últimas descobertas da neurociência, essa criança recente que também vem mexendo com as bases do marketing e começando a abrir os olhos de picaretas ávidos por ganhar dinheiro com apresentações em Power Point e frases de efeito. E vocês já viram a quantidade de revistas de psicologia e psicanálise nas bancas?
Filmes como The Inception, por outro lado, parecem explorar o assunto com uma perspectiva mais interessante (ainda que baseado na ficção): a mente humana é uma viagem e explorá-la é um assunto interno. Ao parecer misturar os dois espaços (o interno e o externo), o The Inception promete. Veremos se cumpre.
Em breve explorarei mais esse assunto em um post que estou desde abril do ano passado pra escrever. Mas o que é o tempo né?
Como quase todas em Porto Alegre, a MESS é uma banda que nasce com pré-história. A Maria Elvira (vocal) foi sócia-fundadora da marca de camisetas rock Mono e hoje tem a Needles and Pins. O Álcio (batera) acumula passagens por bandas (Sonic Volt, Podias Erpior, Lautmusik) e a criação de um site dedicado a um gênero (Planeta Stoner). O André (guitarra) era do Irmãos Rocha! e a Letícia (baixo) toca com os Planondas.
Mas é na alquimia dos quatro que hoje rola a magia sob o nome de Maria Elvira e os Suprassumos do Swing. Vale muito prestar atenção na Mess. Não vou descrever o som. Ouva.
Ah: o vídeo dá umas engasgadas, mas passa rápido. Vai até o fim.
Segunda feira saiu na Zero Hora uma pequena porém bastante simbólica entrevista com o Wander. O motivo era o lançamento do DVD Rodando El Mundo que rolou no opinião, mas a conversa com o Bissigo (como o DVD) acabou funcionando como uma espécie de revisão da carreira solo do nosso bardo punk brega.
O que eu queria sublinhar a respeito da conversa dos dois é o fato da maior parte dela não versar sobre composição, inspiração ou outros falatórios do tipo. O foco da fala do Wander é o seu lado produtor que, segundo ele, é o eixo do trabalho artístico que ele vem botando (literalmente) na estrada há tantos anos.
De certa forma, esse discurso espontâneo vem consolidar algo que o fim dos anos 90 cultivou com discrição e que nos últimos anos vem germinando com força pra, provavelmente, se estabelecer nos anos 10: a cultura do produtor, do cara que bota a mão na massa e faz festivais, casas noturnas, DVDs, sites, projetos culturais, acontecerem de fato. Em em muitos casos com uma senhora sensibilidade artística, mais do que a de alguns supostos artistas.
Algumas vezes, essa figura está dentro de uma banda. Em outras, está dentro de um músico. Mas cada vez mais, me parece, o produtor é um ser completo em si, que não precisa carregar o rótulo de coadjuvante. Se um dia produtor foi o cara que não sabia tocar mas queria estar envolvido na parada toda, isso parece estar ficando pra trás. O que é muito bem vindo pelo mercado e também por pessoas como eu, preguiçosas e inaptas para esse tipo de função.
Longa vida à alma e à atividade do produtor, talvez o eixo do cenário artístico na década vindoura.
Um dos efeitos colaterais da disseminação de novas tecnologias, curiosamente, é o retorno a velhos hábitos. Por exemplo, já foi dito que o mp3 trouxe de volta a era dos singles e que o email também trouxe de volta o diálogo escrito entre as pessoas depois de um longo declínio na troca de cartas.
(Embora alguns hoje decretem a morte do email, eu não acredito. Pra mim, é que nem a morte do cinema, do rádio, da televisão…)
Bom, mas a questão é que o celular também é responsável por um desses fenômenos. No século passado, antes da criação do relógio de pulso, era comum alguém puxar um aparelho do bolso pra saber as horas. Hoje, tu vê só, é igualzinho. Pra se situar e não ficar perdidão, a maior parte das pessoas precisa ir no bolso em busca das horas, consultando o celular.
Pobre pulso: perdeu status no que diz respeito a nos conectar com o fluxo do tempo. E pro bolso, que nem parte do corpo é!!!
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Leia também A volta dos que não foram - 1.
Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.
Imagem daqui.
Estou indo viajar por uns dias. Enquanto isso, você tem os parceiros d’Oesquema aí em cima para se informar e se divertir. Também sugiro que você dê uma olhada no site do Dharma/Arte, de onde eu tirei essa ilustração do Allen Ginsberg. Lá tem uma série de textos sobre criatividade sob um outro ponto de vista, e entrevistas com o próprio Ginsberg, Philip Glass, entre outros figuras.
Até.
A imagem acima eu vi num post do PSFK falando de um selo inglês que está lançando edições limitadas de seus artistas somente em fita cassete. Num primeiro e rápido olhar, a notícia tem cara de revival: “as boas e velhas fitas cassete estão de volta” (muito embora eu, como um cara prático para escutar som, não vejo muita vantagem na volta da fita cassete).
Depois do primeiro e rápido olhar, vem a pergunta: as fitas cassete estão de volta pra quem? Para os “omanenses” é que não. Pra eles, as fitinhas nunca foram embora.
Assim que botei os olhos no texto do PSFK, me lembrei desse post do Jan Chipcase, pesquisador da Nokia que anda por lugares fora dos grandes centros em busca de insighst de mobilidade. Em Oman (um sultanato árabe), diz Jan, 90% do conteúdo à venda é música local, e quase toda ela no formato de fitas cassete. Ainda. Hoje.
(E em uma rápida busca na minha memória, lembro de ver ainda muitas fitas cassete presente em vários bares de beira de estrada em várias partes do Brasil, provavelmente pra alimentar os toca-fitas dos caminhoneiros. As fitinhas disputando espaço com os CDs piratas…)
Bem… o caso é que 99% das matérias a respeito do comportamento frente às novas tecnologias tem por base o cotidiano de americanos e ingleses descolados. Que, já faz algum tempo, não têm mais o mesmo impacto no que diz respeito a exportar tendências para o resto do mundo. O trabalho de gente como Jan Chipcase, só pra dar um exemplo mais mainstream, é justamente de garimpar insights em locais e estratos sociais com necessidades muito mais variadas do que simplesmente ter o mais novo gadget à disposição. No mesmo blog, se você procurar bem, vai achar um estudo que ele fez pra Nokia em favelas de várias partes do mundo buscando um novo olhar sobre questões de mobilidade.
Enfim…
O ponto aqui é algo que me lembro de ter aprendido vendo filmes de ficção científica: o que caracteriza um determinado cenário como futurista não é o fato de haver novíssimas tecnologias bem estabelecidas e espalhadas por tudo quanto é lado. O futuro, creio, é feito da convivência (nunca bem resolvida) de novas e antigas tecnologias que insistem em não arredar o pé porque simplesmente resolvem muito bem o problema de determinados grupos sociais ou de certas regiões geográficas.
A necessidade é a mãe da invenção e madrasta da manutenção.
E como quitutes especiais de verão, tem Wander Wildner e MQN incluídos no repertório do show.
Uma das minhas bandas prediletas voltou à ativa no ano passado para alguns shows. O Jesus Lizard foi um dos pilares submersos (aqueles que não ficam aparentes…) do som dos anos 90 e chegaram a ter dois hits em programas como Lado B e Gás Total na MTV Brasil, Glamorous (a de cima) e Puss (a de baixo).
O Jesus Lizard, como bem frisou a The New Yorker, é uma das poucas bandas cujo vocalista pode realmente evocar o cajado de Iggy Pop de sua época. Mas as comparações com o rock garageiro dos Stooges é unicamente restrita à intensidade da presença de palco de David Yow, porque o som do Jesus Lizard vai bem além do rock garageiro da turma de Detroit.
Uma tal de Hand Job Films teve a generosidade de postar um show inteiro dos caras no YouTube. São 14 músicas tocadas em 2009, aparentemente com o mesmo gás e a mesma virulência de 1991. Me lembrou o show dos Pixies de Curitiba: parecia que a banda tinha se separado na semana anterior. Eu selecionei alguns sons pra embedar aqui. O show todo, você encontra lá.
O bonito de ver no Jesus Lizard é a constante tensão entre melodia e ritmo esquemático, entre contenção e esporro (uma das marcas do som dos 90), entre os instrumentos mantendo a estrutura e as histórias bizarras e erráticas contada pelo vocal detonando tudo.
Estranhamente bonito.
Esses dias estava relendo a matéria do Telegraph sobre as 50 coisas que estão sendo mortas pela internet e, na calada da noite, horas depois de ler, me veio a imagem de uma coisa que faltou incluir na lista: apresentadores no topo de montanhas de cartas.
Essa imagem foi, por muitas décadas, um dos maiores símbolos da interatividade entre os programas de TV e seu público. Era o data visualization versão analógica. A popularidade de um programa ou de um sorteio era inquestionável diante da abundância de envelopes com garranchos de pessoas de todas as idades e de todos os lugares do Brasil. Dava uma sensação interessante, de ser parte de uma grande comunidade. Ainda que parte daquilo fosse material cenográfico, vai saber.
Não assisto TV aberta o suficiente pra atestar se as montanhas de cartas efetivamente sumiram da inconografia do meio. Mas suspeito que, se ainda existem, elas devem estar em vias de extinção graças à erosão causada pelo SMS e pela internet.
Talvez falte um pouco de imaginação aos produtores, pois seria interessante ver os apresentadores metidos numas roupinhas Tron navegando em um cenário virtual que mostra todos os emails e SMS enviados pelos telespectadores. Referências de data visualization pra isso não faltam. É meio trash? É muito anos 90, muito çáiberpânque? Não. É algo bem hoje mesmo. E se tem um lugar pra fazer esse tipo de coisa, vamos convir que é na TV. E, de preferência, aberta. Bem aberta.
Caro 2009
Não podemos dizer que não fomos avisados. 2008 foi bem claro quanto a termos de abrir o olho com você. Até pensei que ele estava exagerando um pouco, mas a verdade é que eu só não tinha captado bem a sutileza do seu dedo nas coisas nos primeiros meses. E eu só não fui totalmente coagido pela posse do Obama porque tenho um providencial pé atrás com essas coisas. Mas sei que ali você estava começando a aprontar.
Pra falar a verdade, como 2009 você foi extremamente… 2009. Mas de um jeito que não esperávamos totalmente, e é daí que vem esse olhar desconfiado de nossa parte com você nesses últimos dias. Não me leve a mal, mas você não deixou uma boa impressão na sua passagem. E como você foi bastante direto conosco, o mínimo que posso fazer é retribuir a sinceridade.
Em alguns aspectos, você foi parecido com seu primo 1999. Confuso. Barulhento. Com jeitão de ressaca. Remexendo em coisas profundas e fazendo algumas limpezas. Como que num processo violento de gestação, preparando a cama para 2011 deitar, como 99 fez com 2001. Na música você foi bem assim: indefinido, atirando para todos os lados e deixando para 2010 mais uma tarefa, a de consolidar os caminhos da década que vem por aí. Foi assim também com os rumores sobre o Woody Allen filmar no Brasil, não é mesmo? Todo esse zunzunzun, criando a maior expectativa, mas de novo ficou pros seus sucessores a tarefa de transmutar o boato em realização.
Até um filme sobre seu irmão mais novo, 2012, você arrumou pra tentar disfarçar seu jeitão folgado. Só eu percebi que o filme não era sobre seu irmão, mas sobre você? O resultado das negociações em Copenhague foi o epílogo desse filme e eu sei que você planejou isso direitinho. Transmedia storytelling. A história se espalhando por jornais, televisão, cinema e flashmobs inúteis.
Não me venha com Dirty Projectors e Emicida. Não me venha com Jupiter Apple e Black Drawing Chalks. Não me venha com Se Beber Não Case, Watchmen, District 9, Umbigo sem Fundo, Moon e Meu Querido Mês de Agosto. Não me venha com as baladas do Wado ou aquele showzinho do Little Joy no Opinião. Seus pequenos acertos a mim me parecem mais desvios de conduta. O Rio foi escolhido como sede da Copa do Mundo, tudo bem, mas de novo isso soa como alguma sacanagem sua com os caçulas 2010, 2011, 2012, 2013 e, especialmente, o pobre coitado de 2014.
No âmbito pessoal, posso dizer que você não pegou lá muito leve comigo. Tá certo, eu não vou me abster das minhas responsabilidades, principalmente no que diz respeito ao meu orgulho e minha mania de autosuficiência. Mas, na boa, você não precisava ser tão… drástico. Embora eu ache que em muitos pontos você estava certo, não gostei nada do seu tom. Tá bom, eu entendi o recado. Mas nem tudo eu digeri ainda e, gostando ou não, 2010 vai ter que terminar de descascar alguns abacaxis com que você me presenteou. Cada um com seus problemas, né 2009?
Bom, desculpe meu amargor. É mais um desabafo do que propriamente uma opinião sólida. Claro que você não é de todo mal e, agora mais calmo, também preciso admitir que você teve que lidar com o espólio da sua década, tudo que foi mal resolvido por 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007 e seu irmão mais próximo, o 2008 (que muito espertamente deixou pra você administrar, por exemplo, toda a euforia em torno do Obama). Então, não me entenda mal, eu sei que seu ano também não foi fácil e vejo o por quê de você ter jogado tudo pra cima em novembro e dezembro: chuvaradas homéricas detonando várias regiões do Brasil, Mano Brown todo serelepe na capa da Rolling Stone, uns malucos enfiando agulhas em crianças. Até mesmo terrorista tentando explodir avião me apareceu e o controvertido Fábio Barreto se acidentou feio. Bizarro, 2009, bizarro. Você não é muito certo das idéias, na boa.
Mas, bem, eu estava tentando olhar para suas qualidades e sei que você tem algumas: você foi honesto, direto. O que aconteceu com o Michael Jackson na sua administração deixou todo o resto da biografia dele no chinelo. Assim é você. Vai metendo o dedo na ferida. Você não foi nada político e fez o que tinha que ser feito em muitos casos. Deu um Nobel sarcástico para o Obama e revelou o puritanismo/tesão reprimido dos brasileiros com a mina da Uniban. Prendeu o Polanski. Não precisava ter levado o Clodovil, mas em compensação, você expôs o Sarney de uma forma que não tínhamos visto ainda. Arrumou um namorado pra Madonna chamado Jesus (cara, você é definitivamente uma figura).
Por essas e por outras é que eu meio que admiro você e até perdôo alguns excessos. De novo, levando pro lado pessoal, confesso que eu andava precisando de umas chacoalhadas e nisso você foi mestre. No fundo, tenho uma certa gratidão por alguns de seus esparros. Embora o seu trabalho não seja de todo confortável, você é bom no que faz.
Resumindo, 2009, tudo de bom pra você, segue teu rumo, descansa, abraço na família.
Mas é o seguinte: não me aparece aqui de novo!
Por motivos de “não estou a fim”, volto a escrever só em 2010. Feliz ano novo para todos!
PS: prestenção no solinho de guitarra dessa canção. Dois E’s: econômico e elegante.
É o meu Feliz Natal a vocês.
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Ah: tem esse show inteiro pra assistir aqui.
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Segunda que vem eu escrevo um pouco mais antes do final do ano.
Fotinho do tênis que a Converse me permitiu customizar lá no festival. Eu comecei querendo desenhar bonitinho, mas aí o Marcos chegou dizendo que tinha entrevista e a pressa definiu minhas escolhas estéticas: taquei-lhe um Ramones com as tintas. Acho que ficou até melhor do que se eu tentasse desenhar bonitinho.
O bacana é que o molde vai pra fábrica e eu devo receber o tênis dentro de algum tempo. É um bom retrato da minha capacidade artística…
Sara.
Shendra.
Freqüentar palestras de publicidade, nos últimos, digamos, quatro ou cinco anos, têm sido desafiador para a paciência. Mesmo em eventos de porte, como o Festival de Cannes, é comum a sobreposição de assuntos e exemplos, de forma que no terceiro dia você já começa a ter intensas experiências de déjà vu, para não falar de desagradáveis flashbacks nas semanas seguintes.
Ok, os mais radicais vão me lembrar que festivais de publicidade não são lugar de novidade, novidade MESMO. Ainda assim, acho que a coisa está um pouco demais. O que posso fazer, além de tentar evitar esses assuntos e exemplos nas minha eventuais palestras, é compartilhar uma singela e sincera listinha com os temas que, sugiro, deveriam ser sumariamente DELETADOS desses encontros.
Vamos lá.
1. O consumidor está no poder.
Caso ninguém tenha percebido, o consumidor sempre esteve no poder. Agora ele só tem um megafone na mão. Megafone esse que será usado para gritar bem pertinho no ouvido dos palestrantes de publicidade: NÃO-PRECISA-MAIS-REPETIR-ISSO.
2. A internet veio para ficar*
Sério? Há controvérsias. O senhor de 112 anos que mora num casebre atrás do sítio do primo do meu amigo sem luz, telefone e água encanada acha que a internet é um modismo. Então talvez ainda vejamos alguns palestrantes por aí pregando desnecessariamente que “a internet é uma revolução sem volta”.
3. A criatividade pode vir de qualquer lugar
Frase muitas vezes dita com gosto por executivos que não sabem como coordenar suas equipes e pra quem entregar determinados trabalhos. Tira a responsabilidade das costas de muita gente e por isso espero que em 2010 ela suma das palestras de publicidade e quem sabe vire assunto de gestão no HSM Expo Management.
4. Quem não inovar, está morto.
A frase mais dita por gente sem imaginação nos últimos 200 anos. E ainda é mentira: muita gente que não inova está vivo, bem como muitas marcas e empresas. A quem duvidar, recomendo que leia a matéria sobre os Biscoitos Globo na revista Piauí número 32. E tem mais, mesmo que fosse verdade, a frase já cansou. É antiga, retrógrada e exclusivista.
5. A força do boca-a-boca
Outra incrível descoberta dos últimos tempos: o consumidor acredita mais no seu amigo de infância do que num comercial de televisão com um ator que mal chegaria perto dele dizendo frases elogiosas porque foi muito bem pago por uma multinacional com doze milhões de funcionários que investe um bilhão de dólares em publicidade pra tentar convencê-lo de que aquele amontoado de produtos químicos perigosos são um sabonete que faz bem pra pele. E você ainda se surpreende que as pessoas confiam mais na indicação de amigos? Chega né?
6. Não existe diferença entre o mundo online e offline
Existe sim. Ninguém na vida real (fora o Roberto Carlos) tem tantos amigos e vê tantas fotos deles quanto no Orkut. O mundo online e o mundo offline tem diferenças importantes e essa frase não só vem sendo repetida à exaustão como não foi pensada direito pela maior parte das pessoas que a repetem. O que não foi bem pensado, é melhor que caia fora do PPT.
7. A verdadeira agência de publicidade é on e off.
Primeiro você monta uma agência assim. Daí você constrói um bom número de cases sólidos dentro desse escopo com clientes de porte. Em seguida, você mantém essa filosofia por no mínimo 3 anos. Não, 5. Aí, só aí, você coloca essa frase na palestra.
Obrigado.
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Ah: aceito colaborações para uma segunda lista.
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Créditos dos desenhos na ordem: Robert Crumb, Allan Siber,Will Eisner, Rafael Sicca, David Mazzuchelli, Jano, Fábio Zimbres.
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* “A internet veio para ficar” is a trademark registered by Joviano Quatrin.
A idéia inicial era fazer uma boa pesquisa a respeito do último trabalho do Francis Alÿs que eu ia comentar. Mas mudei de idéia e vou escrever tudo de cabeça mesmo, sem link pra lugar nenhum, baseado no único gancho físico que eu tenho: esse postalzinho aí em cima que peguei no Malba em Buenos Aires há uns 3 anos. Ele, pobrecito, está todo amassado e meio detonado. Já foi o olhar de boas vindas da porta do banheiro do meu ex-apartamento, mas hoje descansa embaixo da minha tela no trabalho pra me lembrar dos espejismos. Você já leu o texto embaixo da foto?
O negócio é o seguinte: você entrava no Malba, descia as escadas e, à direita, lá embaixo, havia um salão com diversas mesas. Sobre elas, umas vinte ou trinta peças entre mapas, esquemas e desenhos. Em uma sala contígua, um filme em loop mostrava uma estrada da Patagônia do ponto de vista do motorista de um carro. Ou um pouco mais à frente, pois o motorista enxergaria o volante e nós, assistindo ao filme, é como se fôssemos uma câmera presa no capô. Então o panorama era esse: uma larga faixa que se afinava até chegar ao horizonte, encontrando o céu, e os dois (a larga faixa e o céu) confundiam-se a partir de uma terceira faixa intermediária de calor, sabe aquela faixa de calor na estrada? Ela mesma, tratando de cozinhar sem cerimônias o arroz e feijão da terra e do céu.
Era um loop. Uma viagem interminável que levava a lugar nenhum.
Os mapas e esquemas, pelo que me recordo, diziam respeito ao planejamento dessa viagem feita pelo Francis Alÿs. O nome do projeto todo: The Story of a Deception / Historia de um Desegaño. Não sei se decepção e desengaño são correspondentes diretos na tradução inglês/espanho. Mas lembre-se que desengano em português é muito usado pra classificar a morte. “Ele foi desenganado pelos médicos.” Cara, de onde saiu essa expressão? Quer dizer que ele estava se enganando? Que os médicos o estavam enganando? Que estamos todos enganados? Smart people…
Eninuêi, apesar do filme em loop indicar claramente uma viagem de carro, o registro no cartão postal (a melhor coisa do projeto todo, a meu ver, o gancho necessário e massa) falava da tribo dos tehuelches, que caçava o ñandú caminhando (você ainda não leu o texto?). Pelo que me lembro, havia também um outro texto em alguma parede da exposição contando que o Francis Alÿs esbarrou nesse hábito dos tehuelches enquanto trabalhava no projeto do filme em loop. Ele não foi atrás dos tehuelches, mas, como muitos artistas, cientistas e buscadores, encontrou o que estava procurando sem ter procurado. Vai ver ele, de carro, perseguindo espejismos, cruzou com um tehuelche perseguindo ñandú. Os dois se olharam e se sentiram em frente a um espelho. O gringo e o índio. O caçador e o artista.
“We, of our time, must chase mirages”.
Sem mais perguntas. A testemunha, agora, é sua.
Eu não sei bem qual é a reputação do Francis Alÿs no mundo das artes - e minha pesquisa no Google não foi muito longe. Mas no meu mundo o trabalho do Alÿs se equilibra realmente no limiar entre a reflexão consistente e o mero factóide, a mera construção de uma imagem ou uma história pra gerar bochicho. Uns poucos centímetros mais pro lado e o cara já passaria por uma coisa assim meio pra gerar excitação em vez de gerar significado.
Felizmente, tenho a impressão de que seu trampo tem um pouco dos dois: quase sempre ele gera imagens icônicas, bacanas, atraentes, que servem de gancho para um mergulho mais profundo. Por exemplo, esse adorável cãozinho de material magnetizado que ele puxou atrás de si, como quem passeia com um cachorro de verdade, pelas ruas da cidade do México.
Como era de se esperar, o cão de metal atraiu uma série de detritos metálicos, gerando uma espécie de carapaça. Assim, sem mais nem menos, “The Collector” é uma metáfora tão simples da interação das pessoas com o espaço urbano que chega a ser comovente: todo mundo que caminha por uma cidade leva consigo resquícios da caminhada, seja um pouco da poluição sonora, visual ou atmosférica; sons, cheiros, imagens que preenchem o espaço físico e mental do sujeito, criando também uma espécie de carapaça cuja presença fica bem clara quando ela some depois de um puta ducha no fim do dia - você sabe do que eu estou falando, não?
Bem, o fato é que na tal exposição do Macba que eu vi, o cãozinho de metal recoberto de trecos estava lá, exposto, junto com mapas detonados e marcados com os trajetos de Alÿs na construção da sua “obra”. Se como idéia e como processo o “The Collector” (não vamos esquecer que uma das primeiras atividades do ser humano para sua sobrevivência foi justamente a coleta) é interessantinho, com a presença daquele objeto meio “cão do robocop de terceiro mundo” dava um outro colorido à obra. Ele era mais do que o objeto central da ação, mas, ali no museu, se transformava num gancho muito mais simpático do que os mapas ou qualquer outro material de apoio pro espectador se apoiar em busca de entender o que havia acontecido.
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Nenhum artista deveria negar uma muletinha que seja ao público. Não precisa ser grande, pode ser uma muletinha do tamanho de um palito de dentes. Já ajuda.
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O caso de Paradox of Praxis é covardia. Nele, o Francis Alÿs empurrou uma barra de gelo pela cidade até ela se derreter completamente. Mais uma vez, embora a ação em si seja poderosa, o que conta, o que pega o espectador pelo cangote é a imagem gerada. Uma coisa é você ler ou alguém lhe contar sobre um artista empurrando uma barra de gelo das 9h15min às 18h47min. Outra bem diferente é ver a foto acima.
Esse é bem o tipo de obra que despera desconfiança em muita gente quanto ao objetivo da arte contemporânea. É muito fácil fazer piada com The Paradox of Praxis (veja o vídeo aqui), mas eu acredito que seja mais difícil de rir quando se percebe que ela espelha grande parte das ações humanas face a conceitos como morte e impermanência. Tipo… HOHEUAHAOPEUAHEEHEOEUAHEUAHEUHOUHA…. HAHAOPEUEHASUHAHOPUIEHAH…. HAUEHOHAUA… HAHAHA… HA… HA HA….. HA…. ahn…. bem…
Quem aqui, de certa forma, não está empurrando uma barra de gelo?
(continua)
Engraçado essas coisas: eu demorei 35 anos pra descobrir que adoro caminhar. E como uma boa parte das coisas que eu gosto na minha vida, eu primeiro recebi isso com um ponta de decepção (”putz, eu gosto de caminhar e não caminho tanto”) pra depois perceber que, ei, de alguma forma, na verdade, eu sempre caminhei bastante, mesmo quando achava que não. O que acontecia é que eu só inventava desculpas pra caminhar e agora que eu descobri isso, não preciso: eu posso simplesmente sair caminhando.
Caminhar também é parte fundamental do meu processo criativo, seja no trabalho, seja pra resolver qualquer outra questão pessoal. E não é que na caminhada eu pense ou raciocine, muito antes pelo contrário. Eu gosto de pensar sentado. Vejo o caminhar como aquela folga dos pensamentos, aquele espaço aberto onde as peças talvez possam se encaixar, caso estejam prontas pra se encaixar. É um espaço criativo no sentido mais passivo. Você abre espaço e deixa que os elementos da sessão anterior de pensamento laborioso façam o que têm que fazer - e se não tiverem que fazer nada, azar o meu.
Descobri que é por isso também que gosto tanto dos trabalhos do Francis Alÿs. Mas o cara, esse artista belga que mora na Cidade do México e de quem já falei aqui, leva a questão da caminhada um pouco além do “simples” processo criativo. Uma boa parte do que ele faz usa o caminhar como linguagem ou como ferramenta. Não é que o Alÿs curta uma caminhadinha. Ele é um caminhante, um botânico da calçadas (essa é do Baudelaire) que flutua entre o envolvimento e o distanciamento com o espaço à sua volta.
Em 2005, eu estava em Barcelona e, depois de caminhar bastante, fui visitar o MACBA numa pilha “o que tiver aí eu vejo”. E o que “tinha lá” era a mostra “A pie desde el estudio”, do sujeito supracitado. A exposição reunia uma série de obras em diferentes suportes todas geradas, segundo as palavras do próprio Alÿs, a partir de “tudo que vi, ouvi, fiz, não fiz, entendi ou não entendi num raio de dez quarteirões a partir do meu atelier no centro histórico da Cidade do México”. Ou seja, pra falar mais tecnicamente, produtos de passeadinhas.
Mas uma passeadinha do Alÿs não é como as minhas passeadinhas. O cara tem a manha, por exemplo, de entrar em uma loja, comprar uma arma e sair caminhando durante doze minutos com um parceiro filmando até que a polícia seja chamada, o aborde e o prenda. Mais do que isso, ele ainda consegue convencer os policiais de que é um… artista e a re-encenar a caminhada COM a participação dos “tiras”. E o que a gente assiste no museuzinho não é o vídeo do primeiro passeio e nem da re-encenação, mas os dois reunidos em uma única projeção, cada um de um lado da tela. Os últimos minutos de “Re-enactement” estão aí em cima.
Coisas de gringo no terceiro mundo. Ou você acha que na Bélgica, terra natal do Alÿs, ele ia conseguir essa mamata? Ou será que assistimos a um típico ato de prevaricação de policiais do hemisfério sul? Ou a um caso isolado de homens da lei fanfarrões sobre o qual estou aplicando meus preconceitos menos sutis? Bom, meu amigo, aí…
(continua)
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