OEsquema

O Cheiro do Ralo

Eu estava tentando evitar escrever sobre esse filme sem antes procurar ler o livro. Mas também tenho receios do livro estragar a minha primeira impressão do filme, muito embora eu ache que vá aprofundá-la.

Mas é o seguinte.

O Heitor Dhalia, diretor, veio aqui na agência contar a experiência dele na transição de redator publicitário pra diretor. Figura cativante e inspiradora, um cara bastante focado. Ele contou vários detalhes a respeito da produção do Cheiro, mas o que me ficou foi essa vibe de quem aparentemente sabe o que quer, que vai atrás das ferramentas necessárias para fazer a coisa acontecer. De minha parte, meio caótico nos meus projetos, rolou uma certa inveja desse aspecto. Sempre rola. Mas também fiquei bastante a fim de ver o filme.

Primeiro ponto: eu pensava que seria um filme pura estilêra. Porque o Heitor Dhalia falou um pouco das referências, do trabalho de figurino, da fotografia, da decisão de trabalhar com câmera parada.

Primeira surpresa: a estilêra de fato está lá. É um filme lindo e decisões estéticas absolutamente contemporâneas, totalmente ligado à esse incomentável momento de renascença da São Paulo classe média baixa dos anos 70. Está tudo lá. Eu não tenho argumentos pra lhe dar quanto a isso, mas se você prestar atençõ um pouco, vai ver que SP 70 está tomando conta do jet set. Uma hora vai verter pra baixo – e a profusão de camisetas com kombi até na Renner dá uma certa idéia do que ainda vamos presenciar. Mas a questão é que a estilêra está a serviço. E a serviço a estilêra funciona muito melhor.

Segundo ponto: lourenço mutarelli é um autor dado a lidar com o que o ser humano tem de mais escondido. Mesmo que eu não conheça toda obra dele, o que já li deixa bem claro qual é a sua área de atuação.

Segunda surpresa: Cheiro é um filme absolutamente humanista justamente por esse aspecto. Não sei se era a intenção do pessoal. Mas tenho certeza que o viés ácido e corrosivo da história e do personagem são só uma camada superficial que, tivesse eu dez anos a menos, iria me agarrar com todo a força do meu niilismo juvenil, hoje equilibrado por duas luzes específicas na minha vida. Não é fácil determinar o que mais há de camadas, mas também não precisa ser um gênio da psicanálise pra enxergar no Lourenço do filme a fragilidade básica encontrada em qualquer – em qualquer MESMO – ser humano. É desse humanismo que eu estou falando, não do panfletário, mas do que se revela justamente pela exposição de um esgoto que parece particular mas que é compartilhado em algum grau por todos nós. Eu realmente acho que o filme fala de todos nós.

Talvez seja mais difícil para as mulheres se enxergar ali, pois Cheiro é um domínio de conflitos mais tradicionalmente masculinos: a ausência de uma figura paterna que se converte em presença fantasmagórica; o reino macho-man de coleção & classificação de COISAS como apoio para a vida sentimental; o desafio de confundir o amar e ser amado como uma ameaça a uma existência mimada, murada pelas coisas e pelos fantasmas.

***

Não é que a vida é dura. É que o fato da gente achar que ela devesse ser mole é uma senhora distorção.

***

Enfim. Tem muitos outros aspectos interessantes em resenhas. Isso foi o que eu vi.

É um filme que rende. É um filme que fermenta. É um filme muito bonito. Em vários aspectos. Eu espero que você goste.

4 Comentários
por: Gustavo Mini tags: , ,

4 Comentários

Comentário por tiagón
14 de novembro de 2007 às 21h45

assisti no cinema e foi um dos grandes do ano. inquietante e até perturbador exatamente por ser humano.

e o Selton Mello mirando aquele olho é genial. não só hilário, como demonstrando as várias osmoses que o personagem tem no filme (com o pai, os objetos, a bunda).

comprarei em dvd, inclusive.

Responder

Comentário por fernanda obregon
16 de novembro de 2007 às 9h17

“Não é que a vida é dura. É que o fato da gente achar que ela devesse ser mole é uma senhora distorção.”

obrigada pelo tapa

Responder

Comentário por Lucas
19 de novembro de 2007 às 23h21

vamo la! gostei do filme tb mas acho que ele tem alguns aspectos contra. o primeiro eh que o roteiro eh muito bom, tao bom que salta demasiadamente no filme e por vezes vc para de ver o filme e fica pensando, po que roteiro bom. as cenas externas no bar sao geniais mas algumas cenas na loja, o selton ta tipo super ator arrasando e ai fica muito performatico, o que tambem te tira do filme para ficar pensando, po que ator fodao, etc e tal…
nao sao defeitos propriamente, mas exageros que acabam contando contra. acho que se nao fosse por eles o filme seria muito mais pertubador…
p.s- nada como estar de bobeira na madruga para escrever um mega comentario, hahahaha

Responder

Comentário por ::: Muri ::::
21 de novembro de 2007 às 13h16

“Não é que a vida é dura. É que o fato da gente achar que ela devesse ser mole é uma senhora distorção.”

fica pra história, pelo menos pra minha.

Responder

Deixe um comentário