13 de novembro de 2007 às 17h11
O Cheiro do Ralo
Eu estava tentando evitar escrever sobre esse filme sem antes procurar ler o livro. Mas também tenho receios do livro estragar a minha primeira impressão do filme, muito embora eu ache que vá aprofundá-la.
Mas é o seguinte.
O Heitor Dhalia, diretor, veio aqui na agência contar a experiência dele na transição de redator publicitário pra diretor. Figura cativante e inspiradora, um cara bastante focado. Ele contou vários detalhes a respeito da produção do Cheiro, mas o que me ficou foi essa vibe de quem aparentemente sabe o que quer, que vai atrás das ferramentas necessárias para fazer a coisa acontecer. De minha parte, meio caótico nos meus projetos, rolou uma certa inveja desse aspecto. Sempre rola. Mas também fiquei bastante a fim de ver o filme.
Primeiro ponto: eu pensava que seria um filme pura estilêra. Porque o Heitor Dhalia falou um pouco das referências, do trabalho de figurino, da fotografia, da decisão de trabalhar com câmera parada.
Primeira surpresa: a estilêra de fato está lá. É um filme lindo e decisões estéticas absolutamente contemporâneas, totalmente ligado à esse incomentável momento de renascença da São Paulo classe média baixa dos anos 70. Está tudo lá. Eu não tenho argumentos pra lhe dar quanto a isso, mas se você prestar atençõ um pouco, vai ver que SP 70 está tomando conta do jet set. Uma hora vai verter pra baixo – e a profusão de camisetas com kombi até na Renner dá uma certa idéia do que ainda vamos presenciar. Mas a questão é que a estilêra está a serviço. E a serviço a estilêra funciona muito melhor.
Segundo ponto: lourenço mutarelli é um autor dado a lidar com o que o ser humano tem de mais escondido. Mesmo que eu não conheça toda obra dele, o que já li deixa bem claro qual é a sua área de atuação.
Segunda surpresa: Cheiro é um filme absolutamente humanista justamente por esse aspecto. Não sei se era a intenção do pessoal. Mas tenho certeza que o viés ácido e corrosivo da história e do personagem são só uma camada superficial que, tivesse eu dez anos a menos, iria me agarrar com todo a força do meu niilismo juvenil, hoje equilibrado por duas luzes específicas na minha vida. Não é fácil determinar o que mais há de camadas, mas também não precisa ser um gênio da psicanálise pra enxergar no Lourenço do filme a fragilidade básica encontrada em qualquer – em qualquer MESMO – ser humano. É desse humanismo que eu estou falando, não do panfletário, mas do que se revela justamente pela exposição de um esgoto que parece particular mas que é compartilhado em algum grau por todos nós. Eu realmente acho que o filme fala de todos nós.
Talvez seja mais difícil para as mulheres se enxergar ali, pois Cheiro é um domínio de conflitos mais tradicionalmente masculinos: a ausência de uma figura paterna que se converte em presença fantasmagórica; o reino macho-man de coleção & classificação de COISAS como apoio para a vida sentimental; o desafio de confundir o amar e ser amado como uma ameaça a uma existência mimada, murada pelas coisas e pelos fantasmas.
***
Não é que a vida é dura. É que o fato da gente achar que ela devesse ser mole é uma senhora distorção.
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Enfim. Tem muitos outros aspectos interessantes em resenhas. Isso foi o que eu vi.
É um filme que rende. É um filme que fermenta. É um filme muito bonito. Em vários aspectos. Eu espero que você goste.
4 Comentários




Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital no programa Minimalismo (em pausa!). Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 



14 de novembro de 2007 às 21h45
assisti no cinema e foi um dos grandes do ano. inquietante e até perturbador exatamente por ser humano.
e o Selton Mello mirando aquele olho é genial. não só hilário, como demonstrando as várias osmoses que o personagem tem no filme (com o pai, os objetos, a bunda).
comprarei em dvd, inclusive.
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16 de novembro de 2007 às 9h17
“Não é que a vida é dura. É que o fato da gente achar que ela devesse ser mole é uma senhora distorção.”
obrigada pelo tapa
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19 de novembro de 2007 às 23h21
vamo la! gostei do filme tb mas acho que ele tem alguns aspectos contra. o primeiro eh que o roteiro eh muito bom, tao bom que salta demasiadamente no filme e por vezes vc para de ver o filme e fica pensando, po que roteiro bom. as cenas externas no bar sao geniais mas algumas cenas na loja, o selton ta tipo super ator arrasando e ai fica muito performatico, o que tambem te tira do filme para ficar pensando, po que ator fodao, etc e tal…
nao sao defeitos propriamente, mas exageros que acabam contando contra. acho que se nao fosse por eles o filme seria muito mais pertubador…
p.s- nada como estar de bobeira na madruga para escrever um mega comentario, hahahaha
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21 de novembro de 2007 às 13h16
“Não é que a vida é dura. É que o fato da gente achar que ela devesse ser mole é uma senhora distorção.”
fica pra história, pelo menos pra minha.
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