21 de janeiro de 2008 às 14h06
Cuidado com o bom senso

Eu não sei quanto a você, mas se tem uma coisa que eu sempre acho muito esquisito e ando ficando com um pé atrás – às vezes os dois – é quando alguém diz, no meio de uma discussão, aquela tradicional frase:
“Gente, gente… vamos usar o bom senso”.
A maior parte das pessoas concorda com a cabeça…
“Lógico.”
“Bom senso, né…”
“Isso aê…”
“Disse tudo.”
… mas eu tenho certeza que se, pararmos pra pensar por um minuto, vamos começar a nos fazer perguntas bastante incômodas.
Por exemplo: o que é bom senso? Quem detém seu padrão? Por que autoridade ou por que instituição devemos nos guiar para determinar o grau de bomsensozice de uma ação? O bom senso é escrito anualmente e fica guardado em algum cofre da ONU? Ou está nos servidores do Google?
Aí é que está, essas perguntas não têm resposta e eu acho isso muito assustador. Porque a impressão que dá é que “bom senso” é um conjunto de regras que está por aí, no ar, solto, pra quem quiser usar e, o mais perigoso, manipular. A grande verdade – que ninguém quer discutir pra não afetar a já delicada estabilidade da geopolítica mundial – é que não existe esse tal de bom senso. Isso é uma fantasia. Eu não sei quem foi que inventou essa história, mas tenho quase certeza que ele é fruto da mesma mente que criou o gerundismo no atendimento ao consumidor.
***
O bom senso também é uma espécie de acordo de cavalheiros para não expôr ou não trazer à tona determinadas discordâncias. Se todos concordamos em “usar o bom senso”, não precisamos entrar em detalhadas negociações sociais com nossos próximos.
Tudo bem: em determinados âmbitos isso funciona. Invocar o bom senso tem uma tremenda utilidade em certos casos. O problema é a alta volatilidade do bom senso. Já houve um dia, e não faz muito tempo, que fumar uma marca de cigarro em detrimento de outra era considerado “questão de bom senso”.
Outra boa forma de enxergar a questão é imaginar os terroristas ligados aos atentados de 11 de setembro planejando ação na sua caverninha no Afeganistão. Todo mundo lá, sentado com suas xícaras de chá e seus lança-foguetes, comendo pita-bread e batendo papo furado…
“Precisamos mostrar pro mundo a nossa força.”
“Vamos detonar uma bomba atômica!!”
“Gente, gente… por favor… vamos usar o bom senso… quem sabe derrubar um ou dois prédios em Nova Iorque…”
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O bom senso atua intensamente no ramo da prostituição conceitual. E isso não vem de hoje. Não é porque “o mundo está perdido” ou porque “no meu tempo o bom senso era mais sensato”. Já foi considerado de “bom senso” queimar cientistas, aceitar que o mundo é plano, ir para o sol sem protetor solar, não usar cinto de segurança e votar no PT. Como isso?
Muito simples, comissário: se o bom senso não se prostituir, ele não sobrevive.
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Quando alguém diz “gente, vamos usar o bom senso”, geralmente está querendo dizer “gente, vamos usar o MEU bom senso”. É uma forma sutil de muitos chefes não se comprometerem com as diretrizes de certas tarefas e poderem dar um escândalo depois.
“Eu disse pra você usar o bom senso e você me faz isso?”
“Eu juro que eu estava usando o bom senso…”
“Impossível… ninguém em sã-consciência faria isso…”
A pobre sã-consciência (????) é sempre invocada quando alguém não usa o bom senso. Mas isso deixaproutrahora…
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Fotos: Viagem Secreta
4 Comentários




Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

21 de janeiro de 2008 às 17h30
Hehehe, lembrei de uma frase do Descartes: “O bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de se contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que têm.”
De fato, é a qualidade mais bem distribuída – ninguém acha que tem de mais nem de menos…
Abs,
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21 de janeiro de 2008 às 17h46
Bom senso = protocolo de ações subjetivas?
Existe?
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25 de janeiro de 2008 às 7h16
Sempre questionei também este maldito bom senso. Sempre pensei que fosse uma espécie de mínimo múltiplo comum do pensamento, mas na verdade é uma tentativa de homogeneizar pensamentos distintos. Mas o que vejo é muita incoerência individual, ou seja, não existe nem um bom senso particular, individual.
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Pingback por O preço absoluto das coisas - Conector - OESQUEMA
11 de agosto de 2009 às 7h01
[...] Um assunto pairando, um vespeiro que é melhor não mexer. O preço absoluto das coisas é como, já falei aqui, o bom senso: cada um tem o seu. É o seu preço do coração, que não obedece a qualquer lei de mercado ou [...]