OEsquema

Free por Chris Anderson por Marcelo Bôscoli e por Seth Godin por Conector


“Estou de saco cheio do Chris Anderson. O que ele está descobrindo? O mecenato? O mecenato tem um trilhão de anos. Nada é novo nessa visão de internet. O que a gente descobriu agora?

Que as pessoas gostam de ganhar coisas de graça, que os artistas gostam de dinheiro e que existe o mecenato. O que viabilizou o Bach? Foi a igreja […] Sempre tem alguém que paga a conta”.

Vi a frase do Marcelo Bôscoli, presidente da Trama, no Tiago Dória. Comentei lá no blog do Dória e replico aqui: entendo quem se entedia com os rótulos do Anderson, mas eu acho que o que a visão de Anderson coloca (formatada de um jeito interessante, ainda que seu pensamento não seja original) é o fato de que estamos vivendo uma era na qual o mecenato é possível de ser pulverizado entre milhares de pessoas conectadas em computadores. Se a Igreja viabilizou Bach, são os membros de uma comunidade digital que acabam viabilizando-se mutuamente, mesmo que não diretamente ou financeiramente, como eu coloquei no caso do Conector.

Vamos a exemplos mais claros: a Mallu Magalhães, por exemplo, está sendo mecenatada (acho que inventei essa também…) pelas milhares de visitas diárias no seu MySpace, o que dá suporte numérico ao hype criado por jornalistas especializados, produtores e interessados em geral. Isso também é viabilização. Foi assim, de certa forma, que se formou a base de fãs do Cansei de Ser Sexy. Se o assunto é arrumar grana, isso também é uma forma de começar a gerá-la. E é uma forma nova.

O Seth Godin, por sua vez, comenta em seu blog uma crítica ao fato dele ter pedido um depósito para seu futuro estagiário de verão (que será retornado ao fim do estágio). A justificativa:

“Quando você traz dinheiro pra equação, tudo muda (pergunte ao governador de Nova Iorque). Chris Anderson está certo quando ele escreve sobre o poder do grátis no marketing. Isso aumenta dramaticamente a experimentação e oferece a você o direito de atenção, ao menos por algum tempo. Eu acho que o Google é a exceção que prova a regra: as marcas mais poderosas são aquelas que ganham o direito de fazer uma transação (com seu público).”

Quem sou eu pra questionar o Seth Godin, mas escrevi um email pra ele dizendo o seguinte:

“Não acho que comprometimento esteja sempre ligado a dinheiro. Às vezes, ele pode vir de um sentimento de comunidade. A música ‘grátis’ que as pessoas consomem são diferente dos salgadinhos grátis da palestra do TED que você comentou.”

Em seu post de hoje, Seth contou que no seminário TED Talks, os salgadinhos grátis acabavam sendo desprezados, com muitos pacotes pela metade jogados no chão do auditório.

“Os fãs de música são um ótimo laboratório para ver como certas coisas funcionam, tenho certeza de não estar falando nada de novo para você. O fato de hoje podermos encontrar tudo que quiserem de música de graça não fez a música menos importante para os apaixonados por ela. Na verdade, os apaixonados ficaram ainda mais apaixonados. O que está acontecendo na indústria musical é que uma das partes que eram incluídas no compromisso está mudando de “gravadoras” para outro tipo de players (como empresas de shows ou os artistas diretamente) porque as gravadoras não compreenderam a importância do lado não-business da música: paixão.

As pessoas pras quais música não é nada demais, por sua vez, ainda se relacionam com música da mesma forma que antes. Não acho que eles estejam gastando menos porque eles são exatamente o tipo de pessoa que precisa de ajuda pra consumir música.”

Meu ponto aqui é: as pessoas que não são apaixonadas por música, se não pagarem por shows ou edições especiais, vão acabar pagando por serviços que facilitem escolher o que comprar.

“Então, Seth, eu concordo com você que as marcas mais poderosas são aquelas que ganham o direito de fazer uma transação com seu público, mas a moeda dessa transação nem sempre é dinheiro.”

***

Gente, um esclarecimento: não estou construindo aqui um libelo anti-monetarista. Só corrigindo o foco do que eu acho que seja a base de alguns negócios baseados no conceito “Free”.

4 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Música, Publicidade tags: , , , , , ,

4 Comentários

Comentário por João
12 de março de 2008 às 8h35

O grátis é legal quando ele é uma necessidade, onde tu precisa adquirir algo mas não quer pagar. Ou então tu quer uma amostra “grátis”. Quando entra no campo do prazer eu sinto uma necessidade de conquistar, de pagar. Já baixei discos que não tinham aqui, que não conseguia comprar, assim que lançados fui lá e comprei.
O verdadeiro prazer e valor só se conquista com o esforço, acho que este ponto tem que ser avaliado em qualquer pessoa que pense em sair por ai dando alguma coisa de graça, é nesse ponto que realmente o Radiohead, ahhh eles de novo, colocou a grande interrogação.
A dúvida hoje é, o que você que de graça , o que você quer pagar… e quanto quer pagar.

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Comentário por Cris
13 de março de 2008 às 13h35

Bom, eu não ia comentar aqui, apesar de ter gostado da idéia do Mini.
Mas não acho q isso de “o verdadeiro prazer e valor só se conquista com o esforço”. Nessa idéia do João (já me frustrei diversas vezes por isso), o valor (ou paixão) mtas vezes passa do objeto/objetivo para a conquista. A coisa conquistada perde a graça. A emoção está no processo. Prefiro realmente o prazer da coisa – e coisas grátis, mesmo pequenas já me fizeram mto mais feliz do que o processo de conquista de coisas grandes.

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Comentário por Will Prestes
14 de março de 2008 às 6h48

O ponto que eu acho que muita gente está perdendo ao criticar o Chris Anderson é de que a grande novidade em termos de free vem com a não-exauribilidade dos bens digitais que a internet propagou.
Com bens digitais é muito mais fácil chegar próximo do dólar zero. O problema com os bens digitais é que são facilmente comoditizados, justamente por serem fáceis de copiar. E para mim, não existe DRM no mundo que vá fazer a cópia parar. Uma dica que deixo aqui são as 8 generativas postuladas por Kevin Kelly, coincidentemente ex-editor da Wired. Estas generativas explicam o que é “melhor que o grátis”. São atributos de bens e serviços que adicionam valor que não se pode copiar. Exemplos desses valores são imediatez (o valor de ter agora já, ou antes que os outros), personalização (que tal ter uma aspirina sob medida para o seu DNA?), autenticidade (a garantia de originalidade e qualidade no meio de tantos clones), “encontrabilidade” (que é meu campo de estudo e que o Long Tail explica bem) acessibilidade, interpretação, patronagem, entre outros.

Mini teu blog foda. Parabéns.

Will

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Comentário por Peretti
19 de março de 2008 às 0h30

Duas coisas:

1)o próprio Chris admite que ele está falando de práticas já bastante antigas na sua maior parte. Estão acontecendo algumas novidades nesse formato do mecenato (rima horrível), mas esse não é o verdadeiro free.

2) the ultimate free é a wikipedia, por exemplo. ou os milhões de programas open source que a galera faz no mais puro amor, sem ganhar nenhuma grana por isso, e isso sim é legal, novo e inspirador.

Claro que ninguém aqui é besta e a galera já tá querendo TUCANAR o free: http://www.forbes.com/leadership/managing/2008/02/22/ceo-tips-passion-lead-cx_tw_0222loyalty.html

Abraço!

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