30 de agosto de 2008 às 12h00
Conector em Gotham – parte 5
Eis que ao pesquisar pra repassar umas dicas de Nova Iorque pra um amigo, descubro que eu e minha mulher pegamos os últimos suspiros do Florent: o restaurante idiossincrático do aventureiro Florent Morellet fechou suas portas cerca de um mês depos de passarmos por lá.
Olha o que foi a despedida do bistrô: uma série de eventos tresloucados ao longo de cinco semanas, cada uma delas correspondendo ao estágio de luto do modelo Kubler-Ross: uma semana de Negação, outra de Raiva, mais uma de Negociação, a seguinte de Depressão e a final de Aceitação.
Por aí dá pra ter uma idéia do motivo (nada gastronômico) pelo qual eu quis ir ao Florent: descobri ele no livro Perverse Optimist, que reúne os principais trabalhos do designer Tibor Kalman, fundador da M&CO, influência direta do Stefan Segmeister e co-criador da Colors junto com o Oliviero Toscani. A M&CO foi responsável não só pela identidade gráfica do Florent como também pela divulgação através de pôsteres, anúncios e brindes carregados de ironia e crítica política/cultural. O trecho do livro dedicado ao trabalho de Kalman ao Florent é tão interessante (uma aula de conceituação e de atenção consistente aos detalhes) que quando decidimos ir pra Nova Iorque, incluí o pequeno bistrô no roteiro.
O Florent foi um dos primeiros (senão o primeiro) empreendimento não ligado ao comércio atacadista de carne (seja gado ou travestis) a se instalar no Meatpacking District, vizinhança totalmente degradada lá em 1986. O aventureiro Molleret resolveu colocar ali seu bistrozinho que passou a receber sequelados quase uma década antes de boutiques, restaurantes chiques e clubs iniciarem uma espécie de revalorização da área, uma revalorização tão tão eficiente que o aluguel do Florent ficou impraticável, acarretando o fechamento do lugar.
Fomos lá duas vezes durante nossa estadia e na primeira desistimos por causa da fila enorme. O público, claro, já não era mais aquela coisa underground que deve ter sido nos anos 80, mas ainda assim fazia jus ao que eu li no Perverse Optimist: “Eu queria abrir um restaurante que, se possível, não precisasse de design nenhum. Um lugar que já existisse, que parecesse que sempre existiu e que parecesse ficar lá pra sempre.” Com certeza parte da ironia de ocupar um american dining e colocar um espelhão em frente ao balcão (característica de bistrôs franceses), bem como a localização inicialmente obscura se perderam no tempo. Mas esse clima meio indefinível de irreverência com nostalgia me pareceu estar lá ainda.
foto daqui
Mas o que que isso interessa? Eu não queria deixar esse post como uma dica duplamente inútil (primeiro porque o lugar fechou, segundo porque não é bem assim pra ir ali em Nova Iorque comer num restaurante…).
O que me atraiu no Florent foi o fato de ser um lugar com raiz, com alma, com uma história interessante que sustenta opções estéticas e não o contrário. Toda vez que essa equação é invertida e se colocam as opções meramente estéticas (ou sensoriais, etc, etc, etc) como base para um conceito surgido sabe-se lá de onde, o resultado é menos criativo, menos instigante e, em última análise, menos humano.
1 Comentário





Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

1 de setembro de 2008 às 11h10
Tentei ir lá em junho. Mas tava tao cheio, tao cheio, mas tao cheio que desisti. :(
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