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Pensando ConCulture #1

Ao longo das próximas semanas, resolvi “pensar blogando” esse livro. Ler Henry Jenkins já me havia sido indicado por duas pessoas e agora que estou inciando o terceiro capítulo do Convergence Culture só posso pensar “demorô”.

Jenkins é Fundador e Diretor da área de Comparative Media Studies do MIT e autor ou editor de 11 livros a respeito de convergência, transmedia storytelling, fan-fiction, cultura gamer, essas coisas modernas. Basicamente o cara é uma peça rara: um fã-estudioso. A parte do fã traz paixão e visão insider, a parte estudioso oferece distanciamento e contextualização. Pra quem estiver por São Paulo em outubro, ele vem ao Maximídia falar. Fui no ano passado, mas não vou poder ir nesse ano. Gastei meus créditos na agência indo a Cannes.

Quem se conectar com a forma de pensar do cara também pode fazer um Open Courseware na área. O MIT oferece mais de 30 cursos online de grátis em Media Comparative Studies pra absolutamente qualquer um que saiba ler inglês. Não é a mesma coisa que ter aula com professores e colegas, mas você pode programas suas leituras e estudos, bem como tem acesso a anotações de aula feitas por algum aluno mais aplicado e, em alguns casos, podcasts e outros materiais multimídia de apoio. Estou pensando seriamente em “cursar” New Media Literacies nos próximos meses.

***

Mas vamos ao livro. Pra começar, temos que estabelecer que essa capa é um tanto quanto clichezuda, não? Se fosse por essa capa, eu nunca compraria esse livro. Ainda bem que boas pessoas me indicaram, porque colocar um iPod e um videowall a la Matrix, embora personifique bem o espírito do Convergence Culture, também tem a maior cara de picaretagem.

Mas, veja você, o máximo de picaretagem a que o Jenkins chega é aquilo que o Matias chama de picaretagem do bem: o autor deliberadamente pula cercas convencionais, rouba assuntos daqui e dali e mistura tudo com um jeito pop de escrever. Em certo sentido, me lembra um pouco o estilo do Malcom Gladwell. Em vez de se sentir submerso em uma linguagem acadêmica impenetrável, é muito mais como se você estivesse passeando pelo assunto, lendo uma reportagem de revista semanal extendida – uma boa revista, não a Veja.

No caso, o assunto dessa imensa reportagem investigativa começa por corrigir a noção popular de convergência, essa palavrinha tão surrada e mal usada. Logo na página 3 da introdução, Jenkins larga um pequeno parágrafo que faz valer a grana investida no livro e, eu arrisco a dizer, se você entender bem esse trecho pode até não ler mais nada do livro ou do cara.

“A convergência não acontece através de aparelhos por mais sofisticados que eles sejam. A convergência acontece no cérebro dos indivíduos e nas suas interações sociais. Cada um de nós constrói sua própria mitologia a partir de bits e fragmentos de informação extraídos do fluxo na mídia e transformado em recursos através dos quais construímos sentido para nossa vida.”

Bom, eu não sei quanto a vocês e vou suplantar minha vergonha em admitir: eu nunca havia pensado nesse conceito tão óbvio, a convergência como uma ação ligada à mente de quem assiste e não a um suposto aparelho universal. A convergência é um assunto da mente e das interações sociais, não da tecnologia. Convergência é o que cada um de nós faz juntar o que assistimos/lemos/ouvimos vindo de diversas fontes de mídia e não o que a Sony ou a Nokia fazem nos seus laboratórios.

Enxergar a questão da convergência desse ponto de vista sob a luz da indústria brasileira de publicidade ou de mídia causa um enorme desconforto, porque o Brasil sempre foi o país do tiro de canhão: um comercial em um só canal de televisão sempre resolveu grande parte do trabalho sujo. Esse canal e esse comercial sempre foram os grandes eixos do conteúdo que seria convergido na mente de cada consumidor. Como telespectador, não havia muito trabalho a se fazer. Mas com a crescente disponibilidade de meios digitais nas mãos do grosso da população, o modelo de convergência proposto por Jenkins (que na verdade simplesmente retrata a forma como as coisas estão de fato acontecendo) bagunça tudo pra quem não souber enxergar dessa forma.

Colocar a mente das pessoas no centro da equação da convergência também derruba outro mito não falado: o entendimento da tecnologia à frente do entendimento da psicologia. Ou, melhor, o entendimento de uma coisa em detrimento de outra. Entender a convergência significa, justamente, entender de muita coisa ao mesmo tempo. Significa saber derrubar hierarquias dentro da nossa forma de pensar, conectando áreas de forma não vertical. Na prática, isso também quer dizer que chegou a era das pessoas que fizeram várias faculdades pela metade!

***

A cultura da convergência é a cultura do transmedia storytelling. Pedaços de informação e entretenimento captados em diversas mídias que servem para construir mundos na mente de cada receptor e compartilhados em certa medida pelos receptores com interesses em comum. Convergência é mais sobre criar mundos. E mundos não são – nunca foram e nunca serão – estáticos. São dinâmicos e, a rigor, sem possibilidade de controle total sobre o que acontece neles. Se você não quer se basear em exemplos rigorosamente da cultura anglo-saxônica (fan-fiction do Harry Potter ou todo o universo derivativo de Guerra nas Estrelas), pode começar a buscar exemplos bem brasileiros como a extensão de Duas Caras, novela das oito que tinha um braço dramático acontecendo no mundo real e protagonizado pelo autor, Aguinaldo Silva, em seu blog. Ou os inúmeros funks criados a partir de reportagens de emissoras obscuras com personagens bizarros vindos dos grotões do país.

Jenkins também cita muito uma suposta caixa preta mágica, que há alguns anos parecia que seria inventada. Um aparelho universal que substituiria todos os aparelhos que temos em casa. Uma só caixa preta para tocar música, mostrar vídeos, fazer café, massagem, buscar as pantufas e esquentar a pizza. Mas, como ele frisa, o que vem acontecendo é que os aparelhos estão se multiplicando dentro de casa, na gaveta do escritório ou na mochila.

Mais um sinal de que a convergência é mental e não tecnológica. Ninguém será capaz de criar um aparelho universal quando as pessoas estão encontrando cada vez mais condições de consumir de forma individualizada. Nem todo mundo quer tudo em um aparelho. Essa vontade de ter um tudo-em-um não é um desejo universal, mas de nicho. O processo industrial de criação de novos aparelhos está seguindo o modelo propost por Jenkins para interação com conteúdo: não é top-bottom (da indústria ao consumidor) nem bottom-top (do consumidor à indústria), mas ambos, acontecendo de forma dinâmica, fluída. E, apesar de muitos sugerirem ser o celular o “aparelho da convergência” (será? vc tá a fim de perder todos seus aparelhos qdo perder seu celular?), enquanto o voto do povo não atinge um consenso, a necessidade de muitos consumidores vai sendo suprida por muitos aparelhos.

Jenkisn cita um relatório de uma tal Cheskin Research: “O que nós estamos vendo agora é que enquanto o hardware diverge, o conteúdo converge.” Vai se dar bem quem souber fazer os diferentes conteúdos expostos nos diferentes aparelhos dialogarem. Os conteúdos que não dialogarem na mente das pessoas morrerão. Os aparelhos que não dialogarem entre si morrerão. Ou viverão em nicho, o que também não é um grande problema.

Já nas últimas frases do primeiro capítulo, o pesquisador americano decreta: “Estamos entrando numa era de prolongada transição”. Eu iria adiante. O que chamamos de transição é o novo cenário. Não haverá “solução” da forma como se está esperando. Não haverá um momento de “estabilidade”, onde todos saberemos exatamente o que fazer com o conteúdo que precisamos criar e distribuir. Precisamos desenvolver uma certa amizade com essa instabilidade.

Isso me lembra uma história dessas de “sabedoria oriental”. Certa vez, a monja Pema Chodron falou ao seu mestre Chogyan Trungpa Rinpoche: “acho que estou vivendo uma fase de transição”. O professor respondeu: “estamos sempre vivendo uma fase de transição.”

(continua)

19 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Arte, Mente, Publicidade, Uncategorized tags: , , , , , , , , , , , , , , ,

19 Comentários

Comentário por Marina Bortoluzzi
17 de setembro de 2008 às 11h17

Bah, mto bom isso:
“estamos sempre vivendo uma fase de transição.”

Haja paciência e disposição!

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Comentário por PH Peixoto
17 de setembro de 2008 às 18h14

Mutoio legal o post e as idéias de Jenkins. Continuarei acompanhando a análise do livro pelo blog : )

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Comentário por Mariana
17 de setembro de 2008 às 18h40

Já tem tradução pro português? Acho que meu inglês não suporta uma leitura de um livro, no máximo artigos na web.

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Comentário por Gustavo Mini
17 de setembro de 2008 às 18h45

Eu acho que está pra sair em português… não lembro onde vi isso… talvez em outubro mesmo…

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Comentário por Bruno
18 de setembro de 2008 às 8h50

muito bem escrito gustavo. Concordo plenamente e coloco uma duvida será que a busca por aparelhos cada vez mais convergentes não seria uma negação à nossa necessidade natural (evolução natural) de convergência enquanto seres humanos e sociedade? Negação no sentido de que quanto mais convergimos, mais criamos universos particulares e nos distanciamos do grupo em prol das necessidades individuais…

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Comentário por Gustavo Mini
18 de setembro de 2008 às 10h14

Bruno, não sei se temos uma necessidade natural de convergência… acho que temos uma necessidade natural de ver nossas questões resolvidas, seja da forma como for. Em países como o Brasil, temos um maior jogo de cintura para ver nossas questões resolvidas de forma complementar e improvisada.

Quando à convergência ser um obstáculo ao pensamento coletivo, não concordo. No caso da convergência de conteúdo citada por Jenkins, o que acontece é justamente o contrário: a união (ainda que temporária) de pessoas em busca de compartilhamento e aprimoramento de informações (como no caso dos fóruns de fãs de seriados, por exemplo).

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Comentário por Bruno
18 de setembro de 2008 às 10h58

Gustavo, acho q não convergimos os pensamentos hehehe. Acredito que a convergência (não generalizada, e sim abrangente. Pensamento, tecnologia, etc) é um meio e não um fim quando se trata de evolução natural. Vamos naturalmente aglutinando pensamentos e atitudes comuns em prol de um desenvolvimento interpessoal e excluindo outras menos produtivas, por isso acho q temos uma necessidade natural de convergência. Claro que no meu ponto de vista.
Quando eu falei sobre a “negação de nossa necessidade natural de convergir” quis dizer sobre o paradoxo entre essa união mesmo q temporaria (no caso de jenkins q vc citou) na criação de aparelhos (tecnologia) que muitas vezes nos afastam das relações interpessoais.
Parece q o buraco é bem mais embaixo não? heheheh um abraço

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Comentário por Gustavo Mini
18 de setembro de 2008 às 11h22

Bruno, na primeira concordo com você, só não sei se a palavra correta seria convergência. Mas não entendo muito de termos sociológicos. Quando à segunda parte, nem sempre os aparelhos tecnológicos nos afastam das relações interpessoais. Acho que geralmente isso é um efeito colateral do primeiro fascínio que eles causam.

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Comentário por Bruno
18 de setembro de 2008 às 11h32

Gustavo, tb não sou sociologo, soh gosto de botar a cabeça pra funcionar de vez enquando hehehe. Talvez seja realmente o efeito colateral da tecnologia e tenho q dar o braço a torcer, realmente não é todo ferramenta tecnologica q afasta (vide a internet e midias sociais) mas é isso, a discussão é sempre válida, parabens pelo blog, vou continuar a aparecer por aqi…
abraço

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Comentário por Bruno Scartozzoni
18 de setembro de 2008 às 15h47

Gustavo, gosto cada vez mais do seu blog. Continue assim garoto! :) (brincadeira, nem te conheço e muito menos tenho essa intimidade, mas gosto sim do seu blog)

Concordo totalmente com a proposta do livro (e do post) e digo mais. A divergência entre tecnologias e mídias provoca essa obrigação da convergência das mensagens. Assim aquele papo dos meios serem as mensagens, que gurus da publicidade falavam desde o final do século passado, perde força. Entramos em uma era onde a mensagem volta a ganhar importância como guarda-chuva que vai abrigar os meios.

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Pingback por OESQUEMA/Conector » Arquivo » Pensando ConCulture#2
18 de setembro de 2008 às 18h00

[...] dos paralelos que estou fazendo automaticamente a cada parágrafo de Convergence Culture é com a forma de funcionamento das agências de publicidade. Nos últimos seis meses, tenho feito [...]

Comentário por Cris
19 de setembro de 2008 às 9h55

caramba. na minha visão, mensagem nunca perdeu importância. isso aconteceu no máximo nas teorias.
Aquela parte final é o q eu estava concluindo durante a leitura: estamos e sempre estivemos em transição. apenas em alguns momentos temos mais consciência disso. e multidisciplinaridade, mesmo q mtos não admitissem, sempre permitiu uma visão mais ampla da paisagem.

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19 de setembro de 2008 às 13h05

[...] Arnaldo comenta o surgimento de uma nova minoria: o pobre; – Mini resenha (enquanto lê) Cultura da Convergência, de Henry Jenkins; – E o Bruno fala tanto do chilique que Kanye West teve [...]

Comentário por Eduardo Nasi
19 de setembro de 2008 às 16h07

Sai em outubro, sim, pela editora Aleph.

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Comentário por boldrini
23 de setembro de 2008 às 13h53

Grande, Mini. Massa esse teu texto.
Carinha, sobre a convergência tecnológica, será que isso não depende muito de onde as pessoas vivem também? No Japão, por exemplo, a convergência pro celular é muito mais real do que aqui ou na Europa, talvez porque eles não tenham tanto espaço para amontoar aparelhos e porque passam muito mais tempo fora de casa. O que quero dizer é o seguinte: a condição de vida também é um fator a ser considerado, ele interfere nisso mais em alguns lugares do em outros. Falei bobagem?

abração

ps. ah, no Japão, se vc perder o celular, provavelmente alguém vai devolver

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Comentário por Gustavo Mini
23 de setembro de 2008 às 14h43

Acho que é isso mesmo. Como a convergência proposta pelo Jenkins acontece na mente de quem está recebendo o conteúdo das diferentes plataformas, o contexto no qual essa pessoa vive é determinante.

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24 de setembro de 2008 às 11h41

[...] prmeiro capítulo de Convergence Culture começa a dar uma idéia melhor do terreno em que estamos pisando. Jenkins é um fã confesso de [...]

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14 de novembro de 2008 às 8h04

[...] de mídia, mas enfatiza o conjunto de comportamentos que brota ao redor deles. Logo na introdução, Jenkins definiu o conceito de convergência como sendo o que fazemos dentro da mente e não o que [...]

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5 de dezembro de 2008 às 17h21

[...] fenômenos que acho que valem a pena comentar aqui (ainda mais que o Mini tem dissecado o livro do Henry Jenkins em diversos posts). Me refiro aos seqüestros, apropriações e intrusões de marcas de [...]

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