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TV Digital – pois é

Continuando o post anterior, eu dexei de citar um dispositivo que permite o consumo móvel da tv digital aberta: o pen drive-antena. É uma solução mais barata (cerca de 200 patacas) do que a TV portátil (entre 600 e 800 realitos por agora), que o celular (mais de um milhar de pitombas). Certo que vai fazer a felicidade de muito torcedor de futebol que precisa viajar com o notebook pra cima e pra baixo.

Mas, enfim.. vamos aos tópicos restantes…

4) Paciência

O Governo e a mídia televisiva em geral precisaram fazer esse auê inicial como forma de impulsionar a cultura da TV digital não só para a população, mas também para a indústria e o meio publicitário. Entretanto, como tudo no Brasil, o crescimento da penetração dessa nova tecnologia vai acontecer de uma maneira disforme e provavelmente contra a maior parte dos prognósticos.

O brasileiro é um tanto quanto imprevisível no consumo de tecnologia (perfis conservadores e inovadores não respeitam muito uma visão demográfica). Mas acho que dá pra dizer que teremos algo muito próximo do WAP no celular: uma super promessa espetacularizada no iníco que decepcionou ao longo dos primeiros anos. Lembra disso? O WAP foi vendido como a internet no celular, mas não passa de uma rede muito lenta, que exige uma paciência absurda pra acessar.

Da mesma forma, a TV digital vai demorar um bom tempo pra ter seu grande potencial (interatividade) explorado de forma interessante. Até lá, o maior trabalho será dos engenheiros das emissoras, dos maquiadores e cinegrafistas (que estão precisando se adaptar ao detalhismo da imagem em alta definição), das produtoras de comerciais e, especialmente, dos departamentos comerciais que vão ter que quebrar a cabeça com modelos de remuneração futuros…

5) Interatividade

Esse é o ponto de maior fraqueza da TV digital. Por motivos que não sei explicar bem, a faixa de frequência de transmissão da TV digital brasileira não permite interatividade de duas vias. Pra ser mais claro, vão ser precisos acordos com TVs a cabo ou redes de telefonia fixa ou móvel para que o telespectador interaja com o conteúdo de forma mais dinâmica. Coisas simples como acesso à informação básica na tela, seleção de ângulos ou de canais de som estarão, com o tempo, disponíveis no controle remoto. Mas operações mais complexas como compras de produto ou experiências de maior profundidade dependerão sempre de um pareceiro telecom.

Sobre isso, um outro aspecto fundamental foi levantado quarta por um cara da Globo: o quanto a interatividade compromete a noção convencional audiência. Digamos que você está assistindo a uma novela. Entra o intervalo e você dá de cara com um comercial interativo de carro. Interessado, você mergulha na interatividade que o comercial lhe permite: olha o carro de todos os ângulos, verifica as ofertas de parcelamento, investiga reviews da imprensa especializada e se perde naquele mergulho. Ótimo para o consumidor, péssimo para a emissora, que vê sua audiência se fragmentar e ir se perdendo ao longo do break, podendo até nem retornar para o programa que estava assistindo.

Emissoras de TV até hoje só souberam vender grandes fatias de audiência de programas. Lidar com mergulhos invididuais de profundidade e com telespectadores que criam seus próprios caminhos no conteúdo será um aprendizado demorado e duro para as emissoras.

Mas é isso aí, meu velho! Los que pariu que los crie!

6) Abundância, Editabilidade, Sociabilidade

A maior parte das reflexões que vi serem feitas nas palestras a respeito da da TV digital sempre trataram o telespectador como um ser estático, que não muda sua relação com a TV por conta do avanço da internet especialmente. Esse é um assunto muito delicado, geralmente tratado com um certo desdém, como se a televisão estivesse cercada por hábitos intocáveis. O celular, uma vez que vai poder receber o sinal da TV digital, é sempre lembrado. Mas a internet é totalmente ignorada. E eu entendo por quê.

O problema é que todas essas reflexões e objeções vem de pessoas que cresceram tendo uma relação umbilical com a TV. O que provavelmente não vai se repetir com essa intensidade nas pessoas que estão crescendo com um computador e uma banda larga dentro do quarto. Os chamados “nativos digitais” têm motivações e formas de interagir com conteúdo que fogem à compreensão absoluta de nós, “migrantes digitais”. É preciso admitir. Não acho que todos os “migrantes” não possam entender os “nativos”, mas é preciso um salto no escuro, um abandonar de crenças básicas, uma capacidade de abstração que não vejo na maior parte dos executivos da indústria da comunicação.

Não acho que a internet vá substituir a TV. São dois meios que tem a forma de consumo completamente diferente. A TV oferece sociabilidade analógica: quatro, cinco, oito, dez pessoas podem assistir juntas a um programa. A internet, por sua vez, é um meio de sociabilidade digital: você compartilha o que descobre e o que assiste com vinte, trinta, cinquenta, cem mil, um milhão de pessoas que não estão ao seu lado. São dois momentos de consumo de conteúdo completamente diferente, complementares e não excludentes. Ao que tudo indica, um não vai poder oferecer tudo que o outro oferece. Por isso eles terão que dialogar. E, desculpe Rede Globo, dividir sua audiência.

A TV digital aberta, por muitos e muitos anos, não vai poder oferecer três elementos básicos que os nativos digitais estão se acostumando: abundância, editabilidade e sociabilidade. O engorde na audiência da TV digital não depende apenas de pegar mais gente por conta da mobilidade e portabilidade, mas de oferecer ou conversar com esses três conceitos que estão se enraizando nas novas gerações.

Não é um assunto que mereça um fechamento. Na verdade ele precisa se manter aberto. Mas pra não deixar o post sem um finalzito interessante, teclo uma última anotação: as pessoas estão construindo novas formas de consumir conteúdo. Novas formas, no plural. Não acredito que vai existir UMA forma de se consumir TV digital, internet, revista ou o que quer que seja, mas no mínimo uma centena. Não acredito, como o Henry Jenkins, que vai existir um aparelho universal em todas as casas, mas sim um universo vasto de aparelhos que vão ser configurados e montados de acordo com a vontade e necessidade de cada indivíduo ou de cada família.

É pra isso, eu acredito, que precisamos nos preparar.

2 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Publicidade, TV, Uncategorized tags: , , , , , , , , , , ,

2 Comentários

Comentário por Thiago Marinho
7 de novembro de 2008 às 15h56

Nunca pensei nessa idéia da conversão de aparelhos como tv/pc/som num só.
Mas analisando por um lado eu vejo que podemos ter ao menos isso como realidade sim, no sentido em que hoje em dia em alguns lares, muitos tem mais 1 aparelho de TV, as vezes, 2, 3 ou mais.
Concordo contigo que a TV ainda terá vida, (quando a tv surgiu, muitos diziam que o cinema iria falir, e deu no que deu, ou com os “jornais virtuais”, os jornais de papel também, e deu no que deu …)
Mas você imaginou a cena de uma famíla de pai, mãe e filho, assistindo a um filme na frente de um micro ?
Eu não acho absurdo, enfim, vamos ter que esperar o fim dessa história.
Abs !

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Comentário por Cris
10 de novembro de 2008 às 8h58

um pouco de futurologia: apostam mto q vamos assistir TV no celular enquanto espramos na fila do banco e outras coisas desse gênero. Já pensou q isso pode realmente encher o saco das pessoas e elas não assistirem porcaria nenhuma qdo estiverem fora de casa, simplesmente pq qdo estiverem c/pessoas, vão querer estar com pessoas? escutar música no cel. enqaunto caminhamos, ok. mas caminhar assistindo TV? acho q não rola. sei lá. só uma coisa q me passou pela cabeça. – e sobre os aparelhos. provavelmente teremos um tudo em um. mas não deve ser o tipo de parelho predominante. Até pq se tivermos interação, todos da família vão querer participar e interagir de formas diferentes. Um quer ver o anúncio do carro e segui-lo enquanto o outro vai querer continuar assistindo ao programa. mas… tudo conversa fiada. depois as pessoas é q dão um jeito de usar isso até de formas q ninguém previu.

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