OEsquema

Parques Pessoais

Presta atenção quando você passar de novo por uma esquina com grama: o ângulo de 90 graus formado pela calçada vai estar sempre acompanhado de um atalho cortando o gramado e criando um caminho alternativo que nos permite economizar uns 40 ou 50 centímetros de caminhada. Uma economia sem sentido, que só mostra o quanto quem passa por ali é preguiçoso, apressado ou displicente, ignorando completamente o trabalho que a calçada tem de guiar nossos passos pra que não tenhamos que estragar a grama ou coisa do tipo.

Bom, eu pensava dessa forma tosca até alguém comentar no meu blog, chamando minha atenção para o termo “desire lines”. Sim, essas trilhas supostamente aleatórias têm um nome bonito. E também uma função. Segundo o meu leitor, há paisagistas e planejadores urbanos que utilizam o conceito de desire lines (também chamadas de desire paths ou social trails) para estabelecer os caminhos de parques: primeiro você coloca lá um pedação de grama e deixa as pessoas caminharem à vontade. À medida em que as desire lines vão surgindo, os caminhos são feitos – ou refeitos.

As desire lines são uma forma bonita de poesia urbana. Ninguém combina assim: “Opa, sabadão, vamo ali fazer uma desire line?”. A desire line é simplesmente a expressão de uma inteligência coletiva, da necessidade de encontrar um caminho mais curto, mais inteligente, mais bonito ou simplesmente um outro caminho.

O assunto fica especialmente interessante quando você pára pra pensar que, tirando os parques, também costumamos estabelecer desire lines nas nossas relações. Qualquer olhar mais atento vai revelar entre familares, colegas de trabalho ou amigos uma série de calçadas de cimento (necessárias), mas também uma vasta rede de atalhos feitos da mais pura grama detonada. E é aí onde a ação acontece.

Nossas desire lines pessoais oferecem caminhos alternativos para tudo aquilo que as calçadas não comportam. Um passeio que começa numa calçada e termina numa desire line é como uma conversa que começa com palavras e termina com olhares. Um sistema de irrigação alternativo que não invalida o oficial, mas o deixa muito mais rico e cheio de possibilidades.

Nossa tendência é querer logo pavimentar essas desire lines sentimentais pra que elas se tornem calçadas. Algumas realmente talvez precisem. Mas também é preciso ter cuidado e lembrar que é muito, muito saudável manter um imenso gramado e deixá-lo à disposição das pessoas que você mais gosta pra elas de vez em quando poderem fazer o caminho que elas quiserem.

Preciso anotar isso em algum lugar pra não me esquecer.

***

Isso foi minha coluna da Mais Soma #7.

Fotos daqui.

13 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Design tags: , , ,

13 Comentários

Comentário por Daniela
13 de novembro de 2008 às 9h24

atalhos (de todo tipo) faz parte da sobrevivência, não?
adorei!

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Comentário por Habacuque
13 de novembro de 2008 às 11h32

Sensacional. E inspirador.
Acho que vou ler esse texto uma vez por semana, pra começar bem os dias.

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Comentário por João
13 de novembro de 2008 às 11h41

Não sei se já fiz este comentário em outro post sobre o assunto, mas vamos lá. As desires line são uma espécie de contravenção consentida, tipo “não pise na grama”, mas se ja tem a marca alguém fez e não foi punido então posso fazer o mesmo. Ou aquele esquema de já que todos passam por aqui deve ser mais econômico, então eu também tenho que ir.
Todos estes atos coletivos permitem uma grande filosofada, a argumentação sobre o assunto, tanto como a motivação para andar ou não sobre as linhas vai depender do mundo de cada vivente.

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Comentário por Felipe
14 de novembro de 2008 às 0h07

Ha, li essa coluna na +soma e fiquei falando pra todo mundo o que eram desire lines! Muito bom o texto!!!

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Comentário por ariel cardeal
14 de novembro de 2008 às 9h42

muito bom.
:)
eu vo escrever sobre isso na revista que eu participo.
inspirador.

http://www.crumbsmagazine.blogspot.com

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Comentário por Roberta
14 de novembro de 2008 às 13h06

lindo texto. parabéns

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Comentário por Raul Krebs
15 de novembro de 2008 às 7h48

mini, na holanda, se nao me engano, alguns parques e praças sao abertos sem caminhos definidos. eles esperam o povo passar e marcar os caminhos e depois os constroem. uma boa solucão.
abs

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Comentário por RB
18 de novembro de 2008 às 23h22

puta texto! de imantar na geladeira [e reencontrá-lo em algum lugar inesperado da casa]
abrazz
RB

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Comentário por Rafael Brinker
19 de novembro de 2008 às 15h59

Baita texto! Filosofias à parte, nós, publicitários e nossos clientes, não estaríamos enfim entendendo (ou tentando entender) as desire lines que o público vêm desenhando há anos? Em outras palavras, creio que o público finalmente obteve os meios para fazer suas desire lines de uma maneira melhor do que os caminhos convencionais construídos pela publicidade. Penso que esse seria o momento ideal para potencializar esses novos caminhos alternativos e abandonar nossas lógicas e óbvias rotas em favor de algo feito por quem de fato trilha o caminho. Um abraço!

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Comentário por R.R.Dias
7 de fevereiro de 2009 às 23h53

Que legal!
Eu me lembro que em determinada aula da cadeira de paisagismo tínhamos que traçar um caminho do desejo num parque… E me era muito incomodante pensar que estavam nos instruindo para projetar algo que na verdade não é responsabilidade do projeto… Ficava pensando nos planos urbanos que parecem ser feitos para pessoas que não têm vontades próprias, que não têm desejos. Os arquitetos e urbanistas desse mundo têm que saber que o está em jogo é muito maior que as especulações de intelectos particulares.

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Comentário por Laura
15 de setembro de 2009 às 14h22

Tu já não tinha escrito sobre as desire line uma vez no “Conector”?
Lembro que eu tinha adorado o post!

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Comentário por Kareca
28 de março de 2011 às 22h45

Acho que poucas pessoas fazem de coisas cotidianas e corriqueiras poesia, asssim como vc fez este texto que de tão profundo deixa raizes, vim por meio de uma matéria na revista veja, por ai vc vai vendo aonde seu blog tá chegando e foi no sidewalkingsp que saiu na matéria da veja, mais já entrou para os meus favoritos.

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Comentário por Gustavo Mini
30 de março de 2011 às 18h21

Kareca, muito obrigado!

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