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Pensando ConCulture#9

Toss up – John Winslow

Pra quem chegou hoje aqui, estou lendo Convergence Culture, do americano Henry Jenkins e fazendo um post a cada capítulo reunindo algumas reflexões/anotações/palpites (você pode resgatar os outros posts clicando aqui).

O livro é uma referência importante pra quem se interessa com os movimentos atuais quando falamos em entrelaçamento de mídias. E, o mais importante: Convergence Culture não é focado nos veículos/ferramentas de mídia, mas enfatiza o conjunto de comportamentos que brota ao redor deles. Logo na introdução, Jenkins definiu o conceito de convergência como sendo o que fazemos dentro da mente e não o que acontece fora, nas diversas mídias em que os conteúdos hoje se desenrolam. Pois o capítulo 3, Searching For the Origami Unicorn, leva essa premissa às últimas consequências ao estudar um dos cases mais interessantes e intensos de transmedia storytelling: The Matrix.

My Little Dead Dick

Pra muitos, a trilogia não passou de uma sequência de 3 blockbusters cujos criadores deveriam ser presos por formação de quadrilha ao construir uma mitologia pilhando tantas referências da cultura pop, da filosia e da religião como quem vai ao supermercado (sem dinheiro e sem cartão de crédito). Entretanto, ao olhar atento e investigativo de Jenkins (e eu concordo), a questão é muito mais rica. The Matrix é uma das mais bem sucedidas tentativas de transmedia storytelling em escala global e industrial, um esforço que misturou motivações comerciais com a paixão nerd pela construção de universos desenhados especialmente para a submersão recreativa e/ou escapista.

E aqui vai a minha primeira anotação à Bic no canto de página no livro: por estarmos ainda dando os primeiros passos nesse novo tipo de narrativa, ainda cabe aos apaixonados fazer os primeiros movimentos. O processo de dissecação que Jenkins faz do universo Matrix deixa bastante claro que, apesar de haver dinheiro grosso envolvido, é o gosto pela coisa (e não pelo dinheiro que a coisa gera) que fez os Irmãos Wachowaski fazer o que fizeram do jeito que fizeram. Em outras palavras: consultor não recomenda esse tipo de encrenca antes dela estar completamente assegurada de sua eficiência.

Por outro lado, devido à sua proximidade com os recônditos da cultura pop, os produtores de Matrix sabiam o que fazer e basearam a extensão do seu trabalho em um time de produção quadrinistas, desenvolvedores de games, animadores, coreógrafos de luta  e outros profissionais que tinham em alta conta como fãs e não como produtores. Nomes como Geof Darrow, Yoshiaki Kawajiri e Woo-ping Yuen podem não dizer nada à maior parte de nós. Mas são artistas com uma carreira consistente em suas áreas e, inclusive, uma base de audiência prontinha. Os Irmãos Wachowski faziam parte dela.

Segundo ponto: isso é bem diferente do sistema tradicional, no qual você simplesmente repete o logotipo da franquia em um sem número de apetrechos e bonecos dispostos em prateleiras de grandes magazines, adicionando praticamente zero informação nova ao universo original e desprezando nichos. Segue Jenkins dizendo que “Matrix é entretenimento para a era da convergência de mídias, integrando múltiplos textos para criar uma narrativa tão grande que não cabe em um só meio.”

Ou seja, não se trata de reproduzir logotipos ou personagens ad infinitum em todo o material que for possível vender, mas espalhar verdadeiramente pedaços da história ao longo de uma cadeia complexa capaz de atingir múltiplos níveis de engajamento. O nerdus maximus fica feliz e o tiozinho que caiu na sessão de cinema do multiplex por acaso também.

Ron Mueck

Quarto ponto: isso afeta a própria visão de licenciamento comercial, porque exige mais das partes envolvidas. É preciso uma colaboração maior, envolvimento dos licensiadores em processos de co-criaçao nos quais eles compreendam o universo e colaborem para sua expansão e não para sua redundância. Geralmente, produtos de franquia seguem uma lógica comercial, mas cada vez mais é necessária a adição de uma visão artística.

Quinto ponto: botar esse esquema pra funcionar em um produto de nicho, que busca se conectar a uma audiência bastante específica, não deve ser tão difícil. Mas arquitetar isso em escala global, atendendo aos desejos de uma Warner Brothers, são outros quinhentos. Os Irmãos Wachowski souberam brincar com os milhões que colocaram nas suas mãos, oferecendo material suficiente para uma diversidade de platéia como nunca se viu antes na história da cultura pop. Se você quisesse, podia simplesmente assistir aos filmes. Mas caso fisgasse a isca e resolvesse se engajar mais, descobriria um buraco quase sem fim com material de mineração distribuído em uma série de animação, games, graphic novels e por aí vai.

Experências de universos transmedia dessa forma não são totalmente novas. Jenkins cita o exemplo da vastidão de possibilidades que o universo Pokemón apresenta há anos. Mas Matrix transcendeu a audiência interessada em desenhos animados ou mangás, chegando no nível “Temperatura Máxima” de cultura popular. Não é pra qualquer um.

Apesar disso, Jenkins sublinha: “Relativamente poucas franquias, se é que alguma conseguiu, atingiu o completo potencial do transmedia storytelling. Os produtores de conteúdo ainda estão encontrando o seu caminho nesse sentido.”

Sexto ponto: assim como co-emerge uma nova audiência, essas mudanças também vão provocar o co-surgimento de uma nova crítica. Que sentido faz uma experiência de transmedia como The Matrix ou Heroes ser analisada ou criticada separadamente por críticos de cinema, quadrinhos, games e desenho animado? Os dois últimos segmentos de Matrix foram detonados por críticos de cinema (a meu ver, com razão). Mas talvez não o fossem por “críticos transmedia”, uma vez que a maior parte dos furos de narrativa dos filmes estavam contemplados nas outras mídias, em especial nos games. (Não posso deixar de lembrar a experiência fantástica que foi a revista Play, uma junção visionária e ainda inédita em mídia impressa de cobertura de música, games, cinema, literatura e tudo mais.)

***

Pra fechar, mais citação direta do Jenkins: “Existe um ponto além do qual as franquias não podem ser extendidas, subtramas não podem ser adicionadas, personagens secudários não podem ser identificados e referências não podem ser percebidas. Nós só ainda não sabemos qual é esse ponto.”

Aí está o cerne da questão em termos de cultura de convergência e transmedia storytelling: nessa longa fase de transição que estamos vivendo, qualquer tentativa de estabelecer um modelo é precipitada. Nesse momento de experimentação, qualquer um que diga que tem absoluta certeza de qualquer coisa ou é ingênuo ou é picareta.

Mas não tenho muito bem certeza disso.

9 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Arte, TV, Uncategorized tags: , , , , , , , , , ,

9 Comentários

Comentário por Fernando
14 de novembro de 2008 às 13h44

Concordo e me impressiono com muita coisa que você diz , Mini. Mas me pergunto: será que todo esse universo de cross languages a que estamos vendo não está restrito a um universo muito pequeno de usuários, principalmente no Brasil? E que estas discussões ainda não provocam reais mudanças de comportamento e hábitos no dia a dia de Dona Maria?

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Comentário por Gustavo Mini
17 de novembro de 2008 às 9h31

Fernando, acho que não. Se você pegar a popularidade de coisas como o Pokemòn, que é bastante popular, você vai ver pessoas consumindo conteúdo transmedia (desenho animado, revista em quadrinhos, jogos, etc). Também acho que as novelas tangenciam o conceito de transmedia, porque a trama delas se mistura de certa forma com a vida das celebridades na vida real – um desdobramento que acontece em revistas de fofoca e programas como Video Show. E as mihares de pessoas que acompanham o Big Brother na TV aberta, tv fechada, site, revistas, sms, etc? Sei que estou forçando a barra um pouco, mas é pra gente também extender nosso conceito de transmedia e convergência. Não podemos, acredito, poluir nossos olhos tentando simplesmente buscar exemplos similares aos anglo-saxônicos, mas ser mais investigativo no que pode estar acontecendo debaixo do nosso nariz.

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Comentário por Fernando
18 de novembro de 2008 às 18h01

well said. talvez seja apenas uma coisa de semântica mesmo. mas sustento ainda que a maioria dos fenômenos de cross media não tem relevância para a maioria da população brasileira, como tem para uma minoria consumidora de Nike Move, Nokia Trends, Skol Beats, etc. Por isso, acho que no Brasil, onde como diz o Faustão ” nem portão de garagem funciona”, ainda vai levar um tempo para esses aclamados fenômenos new-beats provocarem ou serem relevantes mudanças de comportamento. But, uma coisa me intriga e pode me contradizer: como o Brasil é o maior usuárui do Orkut?

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Comentário por Gustavo Mini
19 de novembro de 2008 às 9h09

Sim, com certeza o Brasil não é os Estados Unidos ou a Coréia (onde a banda larga tem uma penetração absurda perto dos 100%). Mas acho que a gente não pode ficar em cima dessa verdade pronta do Faustão… cara, olha a pentetração do celular no país. Olha a popularidade do SMS. O SMS não é tão popular nos Estados Unidos. Por quê? Até algum tempo atrás (não sei como é hoje), era muito comum as mensagens se perderem ENTRE as operadoras, pela quantidade de operadoras que tem. Isso não acontece no Brasil e o SMS é muito usado. Eu não tenho agora à mão muitos argumentos, mas tenho uma tremenda sensação de que temos que nos cuidar pra não cairmos pra nenhum dos dois lados: achar que todo mundo está hiperconectado ou achar que somos um país em que ninguém está conectado.

É uma posição em cima do muro, mas em cima do muro é mais fácil enxergar o todo.

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Comentário por Fernando
19 de novembro de 2008 às 13h37

é, talvez sim. bom, de qualquer maneira , ando muito incomodado com este assunto, principalmente depois de devorar pela segunda vez o Disruption, do Jean-Marie Dru (pra mim é O LIVRO ) sobre propaganda que funciona de verdade hoje. Já leste?

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Comentário por Gustavo Mini
21 de novembro de 2008 às 14h49

Não li ainda! Mas vi uma palestra dele em Cannes!

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Comentário por Fernando
21 de novembro de 2008 às 17h02

Se quiser, te empresto. Vale um ticket no próximo Valverdes Experience?
Forte abraço e parabéns mais uma vez pelo expecional blog, que virou referencia pra mim, diária.

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Comentário por Bruno Scartozzoni
24 de novembro de 2008 às 18h21

Fernando e Gustavo, vou entrar nessa discussão sem ser convidado.

Na minha opinião a população ter mais ou menos acesso à banda larga, mais ou menos acesso à celular ou mais ou menos acesso à quaisquer outros meios conta sim para o quanto uma plataforma transmídia pode pegar. Mas isso não é tudo.

Alguém aí em cima citou as novelas. Novela é uma coisa que tem uma penetração altíssima na vida dos brasileiros, sobretudo aqueles que não têm banda larga e não se interessam por Matrix. Novela contém bases de universos ficcionais que poderiam ser expandidos, e aposto que haveria público pra isso.

Vamos pensar em um exemplo que não exija bits e bytes? A Globo faz uma novela e lança livretos em bancas de jornal com spin offs da história principal. Não existe, mas poderia.

O meu ponto é que toda essa discussão ainda está muito baseada nas mídias, mas o que realmente importa são as histórias. Matrix não foi o sucesso que foi se a história fosse ruim. O mesmo para Pokémon. E, nesse sentido, o que o Gustavo escreveu, sobre hoje esse processo ainda estar nas mãos de gente apaixonada pelo que faz, acho que é um processo irreversível.

Cada vez mais os responsáveis por histórias transmídia, seja Hollywood ou agências de propaganda (eu acho que essas coisas vão se misturar mais pra frente), vão precisar desse lado mais autoral / artístico / literário.

Espero ter contribuído…

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Comentário por Patrícia
17 de abril de 2010 às 9h05

Parabéns Gustavo, muito bom o seu blog

Ainda não li o livro, mas sei que fala sobre a música e o seu papel neste processo.
Você pode falar um pouco sobre isso?
Grata

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