25 de novembro de 2008 às 8h00
O conto do amor
Em agosto, o psicanalista, psicoterapeuta e ensaísata Contardo Calligaris esteve em Porto Alegre e escrevi um post a respeito de sua abordagem do viés narrativo e criativo das nossas subjetividades. Por trás do tema, uma busca pessoal de Calligaris: a reconstrução narrativa de sua relação com o pai, não inferida por mim, mas abertamente declarada em entrevistas.
Neste fim de semana, terminei de ler “O Conto do Amor“, primeiro romance do italiano radicado no Brasil dedicado a nos contar um pedaço decisivo da vida de Carlo Antonini. Carlo, como Contardo, é psicanalista, italiano, morador de Nova Iorque (Calligaris já o foi) e, no ponto da história em que chegamos, está envolvido com a resolução de enigmas pessoais a respeito de seu pai. O velho, em seus últimos dias de vida, oferece ao filho pistas que clareiam esses enigmas e Antonini não tem dúvida nenhuma: se joga no tabuleiro e mergulha nas narrativas pessoais de seu pai, partindo de seus diários, da sua paixão por arte renascentista e alcançando as áreas sombreadas que os afrescos produziram na vida em família (propositalmente ou não).
O livro é ótimo. Uma investigação psicanalítica (não estritamente, estou usandoa palavra no modo “popular”) com ritmo de thriller. Carlo passa as cerca de 120 páginas voando entre os Estados Unidos, a Itália e a França, trocando emails com uma especialista no pintor Sodoma, redesenhando a imagem do pai da forma como Calligaris acredita que os nós das relações devem ser desfeitos: na ação e não no papo. O Conto do Amor, portanto, é um livro de bastante ação, mesmo que sob a forma de conversa. As palavras do escritor e do protagonista não se resumem a refletir, mas parecem buscar a mobilização.
Como falei no post anterior, uma das coisas bonitas da visão de Contardo Calligaris é a possibilidade de liberdade que ela oferece. Ao longo do romance, noções como “verdade” e “realidade” são constantemente desafiadas. No caminho para montar o quebra-cabeças do passado obscuro do pai, Antonini precisa lidar com quadros escondidos ou roubados durante o facismo, mentiras usadas para proteger familiares de tendências suicidas, cópias de afrescos alterados, uma série de véus que são descortinados sabiamente sem mágoa, mas com a clareza de que cada pessoa não tem “uma” história pessoal, mas muitas. E além de variadas, elas são absolutmente maleáveis. É possível reescrevemos as narrativas das pessoas que amamos ou que nos amaram, porque somos ao mesmo tempo criatura e criador. O papel de criatura é óbvio e, ao tomar as cores de vítima, cômodo. O papel de criador, por sua vez, frequentemente é esquecido, pela carga de responsabilidade que traz junto. Isso é algo bastante pessoal, mas achei o livro inspirador no sentido de dividir essa visão com o leitor. Ela refresca, areja o coração.
Duas últimas anotações.
Uma: em uma entrevista por aí, vi que a idéia original do título é lembrar algo como “o conto do vigário”. Não sei bem se captei a piada ou se viajei demais, mas eu vejo como mais um elemento da reflexão em torno da noção de o que é real e o que não é real – ou se isso interessa.
Duas: em meu post de agosto, lembro dele mais uma vez, levantei as novas possibilidade de criação e recriação narrativa das nossas histórias que ferramentas como o MSN, Orkut e o email nos oferecem. É algo que em algum ponto dos próximos meses vou explorar aqui. Não sei quando e nem como. Mas vou.
Caso você se interesse, sugiro que espere lendo O Conto do Amor.
***
Imagems: Heather Horton do Devian Art.





Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

Pingback por A mente & os protocolos da cultura digital (1) - Conector - OESQUEMA
24 de março de 2009 às 15h43
[...] esse assunto duas vezes. Primeiro num post sobre uma entrevista do Contardo Calligaris e depois escrevendo sobre o livro dele também. Me sinto um poquito em dívida com esse assunto, então vou começar a explorá-lo de leve, mesmo [...]