16 de janeiro de 2009 às 9h00
A verdade sobre a vida de verdade
O disco novo do Frank Jorge? Ótimo, mas nada como ver o cara ao vivo. Quinta passada, dia 8, estive na primeira “fila” da platéia que lotou o Ocidente pra ver o passo adiante no ciclo iniciado com Carteira Nacional de Apaixonado (2000), reafirmado em Vida de Verdade (2003) e agora de certa forma desafiado em Volume 3 (2008).
Por “desafiado”, entenda-se a troca da ironia por uma certa resignação, ora sarcástica, ora lúdica, mas sempre inteligente, em relação aos inevitáveis fatos da vida: amor, desilusão, entusiasmo, Império dos Sentidos e demissão. É a melhor expressão da habilidade de um artista que absorveu algumas porradas da tal vida de verdade e as transformou em um repertório consistente e divertido, chorando as mágoas existenciais do vivente comum sem nem ao menos chegar milhas e milhas perto de algo remotamente parecido com… “emo”.
Pra traduzir a frase enorme e complicada aí de cima, vamos a um exercício mais fácil. Compare os versos “Não passo de um amador, em busca da vida perfeita/ Pelo menos estou tão distante da truculência executiva de um yuppie”, oriundos do primeiro disco, com a seguinte letra do álbum novo: “Eu demiti um amigo/ oh meu deus por que isso aconteceu comigo / eu era um subordinado cumprindo ordens de um desmiolado (…) / Eu demiti um amigo / já perdi a noção do que é certo ou errado/ espero um dia então/ de sua voz possa ouvir o perdão.”
A ironia do primeiro caso brilha ao se misturar, no set list ao vivo, com o tom confessional do segundo caso, ainda mais quando este se apresenta embalado em um bolerão reginaldorossiano. É o jeito Frank Jorge de dar a real. Quem mais faz isso com uma sensibilidade tão peculiar?
Se no disco Frank tocou grande parte do instrumental, ao vivo ele junta velhos parceiros como Alexandre Birck (também batera da Graforréia) e Regis Sam (baixista de uma dúzia de formações gaudérias) com Bruno Alcalde (que já tocou com o DeFalla e o Marcelo Birck) e o tecladista Paulo Bergman. O quarteto de acompanhamento, devidamente uniformizado de camisas brancas com as iniciais FJ no peito, tocou justinho, junto com Frank, imprimindo pressão a um som calcado, claro, em jovem guarda, Beatles, Beach Boys mas também lembrando a urgência de outro Frank, o Black.
Passagem de som do show.Mesmo com tudo isso, logo nos primeiros segundos de Volume 3 (e do show), Jorge se desculpa como bom virginiano cantando: “Sim, você esperava muito muito muito muito mais de mim / O que eu posso lhe dizer? Eu sou assim / não tenho culpa”. Recado de outro virginao convicto: não se preocupe, Frank. Você entrega pra nós muito muito muito muito mais do que pensa.
2 Comentários





Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital no programa Minimalismo (em pausa!). Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 



16 de janeiro de 2009 às 15h27
tô louco pra escutar esse disco. O primeiro eu tenho e é bom pra cacete.
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16 de janeiro de 2009 às 18h37
[...] Frank Jorge está com disco novo na praça e, mesmo tendo sido lançado no finzinho de 2008, entra na minha contagem como sendo de 2009 (mal aê, Frank, a lista já tá fechada :P). Volume 3 segue a saga inaugurada no histórico Carteira Nacional de Apaixonado, com suas letras confessionais e cançonetas pop para serem cantadas por qualquer um. Às primeiras audições, o principal diferencial que notei é a ênfase maior no aspecto latino do álbum, que já dava um molho nas faixas do disco anterior, Vida de Verdade (”Não Pense Agora” me lembra “Quizás, Quizás, Quizás”). Mas Volume 3 é só mais um veículo para o aguçado senso pop do velho Frank, que, além de um precioso tino para a canção, ainda consegue soltar pérolas de sabedoria como “Elvis mesmo decadente é bem melhor que muita gente”, “tudo o que eu queria era entender porque as bandas dos anos 80 estão sempre em nova turnê”, “Tiradentes foi dentista” ou “veja bem rapaz você nunca deve duvidar de uma garota quando quer amar” no meio de suas letras. O Mini acompanhou tanto o processo de maturação quanto o lançamento do disco e fala um pouco mais s…. [...]