3 de fevereiro de 2009 às 9h43
Curso Rápido para Usar Banheiro
Os banheiros como conhecemos estão por aí já faz algum tempo. Ainda assim, o Starbucks entendeu que é preciso avisar os homens CLARAMENTE como ele funciona em um curso rápido de três estágios. Foi isso que compreendi e que me impeliu a fotografar esse aviso em um de seus banheiros em São Paulo. O teor sucinto do curso, resumido em uma placa, denota a degradação do nossos sistema educacional mas também revela o cotidiano intenso ao qual a maior parte dos homens está submetida – não há tempo a perder, ainda mais na capital paulista.
Mas vamos ao curso. Impossível aprender como usar um banheiro sem as fundações do conhecimento. Começamos, então, com o básico: a diferença entre a privada e o chão, uma vez que muitos provavelmente confundem esses conceitos. O chão é aquilo sobre o qual pisamos, é horizontal e a privada está fixa NELE e não É ele. A confusão entre algo que é e algo que está sobre não é meramente semântica, mas se deve provavelmente ao mau entendimento de matérias sobre física quântica publicadas em revistas como a Superinteressante. Por outro lado, se chão e privada são distantes conceitualmente, o mesmo não se pode dizer de sua característica material. Eles estão dentro do banheiro, logo, pertencem ao mesmo universo e sua utilidade se confunde. O Starbucks deveria ficar feliz por não ser uma casa noturna. De outra forma, teria que esclarecer também a diferença funcional entre a pia e o vaso, mas aí já estamos falando de um curso de mestrado.
Na sequência, o segundo módulo aproveita o gancho (em uma invejável manobra didática) para lembrar que uma cesta de lixo, apesar do Karim Rashid, da Coza e do Phillip Starck, não é uma peça meramente decorativa. Sim, o cesto de lixo onde se lê “lixo” é, de fato, o lugar para colocar o lixo. Aqui, a confusão conceitual é mais intrincada pois o relativismo apresenta uma gama enorme de possibilidades para o depósito do lixo: privada, chão e cesto surgem como a dança do universo, insondáveis em seus propósitos e abertos a todas as possibilidades.
Desconfiando que muitos seriam capazes de absorver as duas primeiras etapas mas que provavelmente estariam cansados demais para apreender a terceira, o curso entra na reta final com um assunto mais ameno, que resgata lembranças da infância. Ainda atual, o aviso de tocar a descarga traz o eco de vozes maternas e oferece um alento àqueles já confusos com tantas regras precisando ser internalizadas. A figura feminina é um ponto de apoio psicológico para o ato que, enfatiza-se, deve ser praticado após o uso da privada, sob o perigo de entrarmos em um loop conceitual do qual poucos sairiam sãos.
Um apêndice do curso traz o aprofundamento ético de suas implicações técnicas. Notável esforço quando vemos as instituições educacionais ensinando única e exclusivamente para o mercado, virando as costas para o aspecto humano que toda atividade traz embutida. O fato de que “outros, depois de você, utilizarão este sanitário” transcende a esfera funcional e questiona os limites entre “eu” e o “outro”, injetando a noção de coletividade e compaixão em um cenário de extremo individualismo.
Resumindo: o Starbucks está de parabéns. Mas esse aviso me fez pensar que alguma coisa deu errada no processo civilizatório.
4 Comentários




Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital no programa Minimalismo (em pausa!). Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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3 de fevereiro de 2009 às 14h02
[...] Na mira: Mini comenta o curso rápido de como utilizar banheiros masculinos, oferecido pela rede [...]
3 de fevereiro de 2009 às 17h10
Talvez o “urine” não seja tão elucidativo. Melhor colocar um asterisco com as traduções mais populares do verbo.
Excelente o texto! Bj. Magali
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6 de fevereiro de 2009 às 14h34
“Depois do Curso Rápido para Usar Banheiro eu me tornei uma nova pessoa. Meus amigos não me chamam mais de Cascão ou porquinho e as brigas com a minha mulher são coisa do passado.”
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9 de fevereiro de 2009 às 8h52
que viagem. obrigado!
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