2 de março de 2009 às 19h55
Watchquem?
Eu andava evitando escrever sobre o Watchmen por dois motivos. Primeiro porque o Matias vem debulhando o assunto com intensidade no Trabalho Sujo e não é preciso chover no molhado aqui n’Oesquema. Segundo porque, à medida que fui vendo os vídeos que surgiam, percebi que minhas ligações emocionais com Watchmen provavelmente me fariam escrever como um guri de 8 anos de idade (embora, a saber, li pela primeira vez com 15 – sim, eu tenho a primeira edição nacional!).
Masssss… vamoslá…
Pra começar, diferente do Matias eu penso que, em grande parte, Watchmen é Watchmen também por conta de Dave Gibbons. Toda idéia ganha força com um contexto visual adequado à sua proliferação na mente de quem tem contato com ela (e a história inteira da cultura pop está aí para me ajudar a defender essa tese). Gibbons foi o responsável por dois aspectos fundamentais de Watchmen: o primeiro diz respeito a crer que estávamos lendo uma história passada em um “mundo real”. Ele fez isso através do traço realista e elegante, suprimindo onomatopéias e linhas de movimento, pra não falar da incrível coleção de detalhes visuais (fachadas, figurinos, carros, apetrechos domésticos) que colocaram os dois pés da narrativa no chão. O segundo aspecto é o fato dele simplesmente ter saído da frente da história da Alan Moore. Como um bom diretor de cinema cujos cortes e movimentos de câmera são imperceptíveis em detrimento de um bom texto, Gibons usou um grid fixo de quadros por página, dando espaço para que as idéias de Alan Moore fizessem sua evolução na avenida com total desenvoltura sem maximalismo pra atrapalhar.
Quanto a isso, já vimos que não precisamos nos preocupar. O diretor de Watchmen, Zac Snyder, vem deixando bastante claro sua dedicação em reconstruir visualmente o que Gibbons concebeu. Entretanto, o que vai impedir que o filme vire uma mera caricatura da graphic novel não é a fidelidade de Snyder a Gibbons, mas sim a Moore. Fica a pergunta: Snyder vai sair da frente de Moore? O visual incrível que estamos apreciando nos vídeos disponíveis estarão a serviço da boa história? Uma coisa é adaptar 300, espetáculo visual do estético Frank Miller. Outra, bem diferente, é Watchmen, uma tour de force narrativo com ares literários e realistas.
Mas eu sou um homem de boa vontade. Creio que Snyder fez um bom trabalho. Quero que Snyder tenha feito um bom trabalho. O que nos leva, automaticamente, ao problema seguinte: quantos dos frequentadores do shopping terão paciência com um bom trabalho feito de homens mascarados com roupas colantes? Mesmo com uma cultura de magia e ficção científica se espalhando por grupos sociais menos restritos (Lost na Globo, novela de mutantes e Heroes na Record, Harry Potter em tudo quanto é lugar), mesmo com o assunto “super heróis na vida normal” sendo levantado em filmes mais leves (Hancock; Bolt, o Supercão; Minha Super Ex-Namorada) quantos estarão dispostos a assistir homens fantasiados destilando questionamentos morais, existenciais, políticos e sociais? Aqui eu concordo com o Matias: é muito mais fácil ver um cara de cueca por cima da calça dando porrada do que filosofando. Faz mais sentido.
Para fazer com que um projeto que vem atravessando as décadas na indústria cinematográfica aconteça nas bilheterias, a campanha de marketing nos Estados Unidos vem sendo intensa, com um trabalho forte de educação a respeito dos personagens e da trama. No Brasil, por outro lado, Wacthmen vem no embalo normal de estréia blockbuster e sua contextualização vai depender do jornalista aficionado que existe em cada caderno cultural.
Esses recursos garantem, com certeza, um bom fluxo inicial de audiência. A questão passa a ser o que o boca a boca vai dizer a partir daí. A tarefa de Zac Snyder, desse ponto e vista, é conseguir manter o grosso caldo original da trama e, ao mesmo tempo, permitir que o espectador médio consiga definir aos amigos sobre o que é o filme. Ou então ativar uma quantidade considerável de influenciadores apaixonados que vão direcionar todos seus contatos sociais aos cinemas. Sei lá.
Voltando à obra, Watchmen é um trabalho tão interessante e complexo que, mesmo mais de 20 anos depois de seu lançamento, ainda não surgiram paralelos, mesmo num ecossistema tão rico quanto os quadrinhos. Sua intrincada mitologia, na época condensada em um único meio, é perfeita para espalhar-se em uma teia transmedia storytelling com todas as possibilidades de conexão que a cultura digital atual propicia. Já temos promessas de um game com uma narrativa prévia à original e um extra de DVD que explora uma célebre história paralela. O que mais vem por aí?
Mas isso é outro assunto. Se o Alan Moore já tem dores de cabeça com o que vai acontecer com seu trabalho em uma tela, imagina em todas as outras.
3 Comentários






Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

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4 de março de 2009 às 11h27
[...] o Mini falar um pouco dessa vez. « Mas quem…? | » Por Alexandre Matias às 2:03 | [...]
15 de março de 2009 às 10h58
Olá Mini,
Quanto ao Gibbons: ele é parte importante da história, mas só o é porque, ao meu ver, foi “usado” pelo Alan Moore. Para desconstruir super-heróis, Moore precisava de alguém com o estilo mais claramente super-heroístico da época – veja como Gibbons não investe em sombras, o que deixa espaço para as cores básicas dos uniformes aparecerem. O grid de nove quadros também é idéia do Moore, que tem fama de roteiros ditatoriais.
Claro, não digo que Gibbons não é um ótimo desenhista. Ele é perfeito no traço realista, no que se pretende a fazer. Mas Watchmen é pelo menos 80% Moore.
É por isso também que achei BASTIDORES DE WATCHMEN um livro tão fraco. Só contou uma parte mínima dos bastidores.
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16 de março de 2009 às 9h55
O que você diz faz sentido, ainda assim na sua coadjuvância acho o Gibbons importante. E, realmente, eu dei uma olhada no Bastidores e não me emocionou muito…
Abraços!
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