quinta-feira, 5 de março, 2009

Os limites da cultura digital

Essa imagem aí de cima é o hexagrama de número 60 do I Ching*. Chama-se Chieh. Limitação. Richard Wilhelm, tradutor e sinólogo alemão do início do século passado, cujo trabalho com o IChing é respeitado e utilizado como referência até hoje, não apenas traduziu mas explorou o conciso significado desse hexagrama em parágrafos como este:

“Possibilidades ilimitadas não são próprias do homem. Caso fossem disponíveis, levariam a vida humana a dissolver-se na indeterminação. Para que o homem se fortaleça, sua vida necessita de limites impostos pelo dever e aceitos voluntariamente. A pesoa humana só adquire relevância enquanto espírito livre quando se impõe limites e determina de forma espontânea o seu dever.

(…)

Limitações são também indispensáveis para a ordenação das circunstâncias do mundo. A natureza tem limites fixos para o verão e o inverno, para o dia e a noite, e são esses limites que dão sentido ao ano.”

Faz parte da natureza humana aprender a lidar com limites. A atual cultura digital, entretanto, está apresentando novos desafios no que diz respeito a estabelecer, burlar e equilibrar a relação com limitações. A cada dia, cerca de meio milhão de pessoas acessam a internet pela primeira vez. A cada minuto 13 horas de vídeo são disponibilizadas no YouTube. A cultura digital é uma locomotiva. Descendo a ladeira. Com um maquinista louco tocando-lhe lenha na fogueira e pedindo a todos que saiam da frente.

Traduzindo a metáfora, quero dizer que está se configurando um cenário no qual em breve muitos (ou todos) terão acesso a uma abundância virtual que não teve, não tem e nunca terá paralelo no meio físico. Muitos de nós, habitantes do planeta Terra, nunca teremos tanto dinheiro, tantos carros, tanta roupa e tantos imóveis quanto uma elite economicamente privilegiada. Mas todos logo poderemos ter, gradativamente, tantos livros, tantos vídeos, tanta música, tantos jornais e tantas revistas quanto quisermos, devido à digitalização da produção, distribuição e consumo da informação. Desse ponto de vista, estamos claramente adentrando no que alguns especialistas (e outros metidos) chamam de era da abundância. Urrú.

Por outro lado, todo sistema com abundância de um elemento leva a escassez de outro. No caso, a abundância de informação leva a escassez de atenção. Temos uma vasta oferta e uma fome interminável, porém uma capacidade cada vez mais limitada de prestar atenção e investir tempo no consumo de todo esse manancial que nos está sendo ofertado. Estamos à frente de um banquete, beliscando rapidamente um pedacinho de tudo que nos põem na frente, maravilhados com a variedade e quantidade de sabores, mas perigando perder lentamente a noção de desfrute.

Até pouco tempo atrás, a palavra consumismo era associada a um comportamento compulsivo de compra. Entretanto, é hora de alargar essa convenção e começar a incluir também o que é absorvido ou adquirido sem pagar nada. Todas as páginas de internet. Seus vídeos. Os arquivos de MP3. As imagens. Quais são as reais diferenças entre um closet abarrotado de vestidos caros que pouco serão usados e HD’s inteiros de seriados, filmes e música que, da mesma forma, precisariam de algumas centenas de anos para serem desfrutados e não apenas consumidos rapidamente?

A tendência de clouding não melhora em nada o prognóstico. Se efetivamente não precisarmos mais guardar nada em nossos HD’s, andaremos por aí como proprietários mentais de uma quantidade absurda de informação. Como crianças mimadas, o mundo será nosso e o acessaremos quando e como quisermos. Isso é excitante ou preocupante? Você já viu no que se transforma uma criança cujos pais dão tudo o que ela quer, na hora em que ela quer e na quantidade que ela quer? Agora imagine sociedades inteiras educando-se assim.

Obviamente o ponto central da questão não é, em hipótese alguma, a digitalização, mas sim os botões que ela aperta em nós. Buscar o ser sem limites foi sempre, desde o início dos tempos, uma ocupação constante tanto em termos físicos como existenciais. Mas uma coisa é buscar o ser sem limites. Outra, bem diferente é o ter sem limites. Embora nos últimos 50 anos de sociedade do consumo, esses verbos tenham se confundido, em nada sua essência foi mudada. Ser e ter são aspectos tão diferentes que nem mesmo uma incrível conexão banda larga de alta velocidade pode, de fato, uni-los.

O caminho mais inteligente não passa, lógico, por interferir ou demonizar a velocidade da evolução digital. O caminho mais inteligente, como sempre, é prestar atenção. Apenas olhar e prestar atenção. Só isso já faz toda a diferença e transforma completamente qualquer experiência.

A atenção, a presença do corpo e da respiração junto à mente (que, vagando indefinidamente não traz satisfação, só mais necessidade), são a peça de resistência contra o novo consumismo que trocou o dinheiro pelo déficit de atenção como pilar central de sua existência.

***

PS: O I Ching não é da Apple e não tem nada a ver com Ipod.



11 Comentários

bullet Alvaro em 5 de março, 2009 às 4:57 pm

O seu post é brilhante, especialmente no que se refere à atenção. Estamos todos distraídos, desatentos, entretidos. O entretenimento se tornou uma indústria vital para o planeta e a cultura que rege nossa sociedade hipócrita.

Sem o futebol, os BBblerghs, as novelas, os seriados, os filmes, os games, a maioria das pessoas simplesmente desabaria emocionalmente, pois a falta de limites que a era digital trouxe, também nos fez esquecer das possibilidades interiores da mente como ente a parte dos suportes digitais e eletrônicos.

Sabemos muito sobre referências. Somos papagaios cibernéticos, repetindo e transmitindo informações sem pensar, através de links e downloads. A atenção virou algo desconfortável para muita gente e a crítica agora é confundida com revolta.

Quantos jornalistas realmente formam opinião capaz de conectar notícias como o fato do Brasil ser capaz de investir para sediar uma copa do mundo e a incapacidade de oferecer moradia, segurança e saúde?

Ninguém quer saber de nada que exija pensar muito, com uma certa razão, pois pouco se pode mudar no mundo normatizado e careta de hoje. Mas se você estiver do lado das pessoas que detém o poder e o dinheiro, não seria exatamente este o seu sonho?

Com bonequinhos The Sims distraídos, vivendo no tabuleiro do Banco Imobiliário, fica bem mais fácil manter o domínio sobre tudo, afinal, uma vez que a pessoa não consegue mais “estar, viver e ser” sem “ter” alguma distração, a última e única revolução possível está cancelada - a revolução interior, e se perderá no vácuo dos gigabytes do tempo a máxima Gandhiana de que para transmutar o exterior, temos que transmutar o interior.

Mais uma vez parabéns pelo artigo!


bullet malinoski em 5 de março, 2009 às 6:06 pm

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.” José Saramago


bullet bauru de jogos em 6 de março, 2009 às 9:30 am

“PS: O I Ching não é da Apple e não tem nada a ver com Ipod.”

hahahahaha! muito bom!

btw, isso me lembra de uma história do Sandman que fala do Imperador Augusto onde o Deus Terminus (o deus dos limites) intercede em favor dele


bullet Cris em 6 de março, 2009 às 10:12 am

ótimo artigo Mini.
Mas com relação ao comentário do Álvaro, vale o que está no post: “O caminho mais inteligente não passa, lógico, por interferir ou demonizar a velocidade da evolução digital.”
Decretar que “a última e única revolução possível está cancelada” é um tanto perigoso. Todas as últimas tentativas de decretar a morte de alguma coisa (a história, o rock, o jornal,…), apenas fizeram com que seus autores mordessem a língua e se transformassem em boas piadas.


bullet Bressane em 7 de março, 2009 às 5:38 pm

Que beleza de artigo. De imantar na geladeira. Ou de ler todo dia antes de abrir o Netvibes. Mas, lembrando da famosa cena do banquete no Sentido da Vida do Monty Phyton, me pergunto: que nome terá o bombonzinho que vai detonar o limite entre o empanturramento e o enjôo?


bullet Bruno Scartozzoni em 8 de março, 2009 às 1:49 pm

Gustavo, texto brilhante, parabéns.

Conforme ia lendo pensava nas centenas de episódios de seriados e milhares de músicas que eu tenho no meu computador. Passarei a vida toda sem prestar a devida atenção em 90% desse material. Quem sabe mais.

Nesse cenário penso que experiência que limitam sua atenção por natureza, como cinema e teatro, ganharão em importância. Pequenos retiros espirituais…


bullet “URBe convidou” - URBe - OESQUEMA em 9 de março, 2009 às 3:06 pm

[...] levantou a bola da “Geração do meio”, o Mini mandou o ótimo “Os limites da cultura digital” e… o Matias sempre tá no assunto, [...]


bullet Eduf em 10 de março, 2009 às 10:11 am

Dizem que há como prestar atenção em muitas coisas ao mesmo tempo. Digo: atenção com qualidade, sem consumismo, shopping center de ideias. Mas para isso é preciso, antes, ter controle da atenção.

Dizem que isso só se consegue por meio de um treinamento muito diligente na concentração. Primeiro o foco, depois a paisagem.

Dizem que depois desenvolvemos a capacidade de ter um completo e genuíno interesse pelas coisas, não apenas a atitude de estocá-las, acumular e guardar para sentir-se “dono” de algo.

Deve ser incrível chegar a esse ponto: abertura completa. Na qual as ideias de limites ou falta de limites perdem o sentido. Sem referências.


bullet Compra e venda de atenção | Magaiver em 10 de março, 2009 às 12:04 pm

[...] Gustavo Mini, no Conector. À medida em que a “web social” e novos serviços continuam a permear tudo o que fazemos on-line, a atenção se torna não-escalável. Muitos se referem a esse dilema como escassês de atenção ou atenção parcial contínua (CPA - continuous partial attention) - como um estado de atenção que está continuamente ficando mais estreito. Isso está afetando como e o que nós consumimos, quando e, mais importante, como reagimos, participamos e compartilhamos. Que alguma coisa está sempre competindo por atenção e severamente nos impulsionando para fazer mais guiados por um sentimento onipresente de medo de estar perdendo algo. [...]


bullet Fique por dentro Cultura » Blog Archive » Os limites da cultura digital - Conector - OESQUEMA em 22 de março, 2009 às 1:01 pm

[...] Sujo), Arnaldo Branco (Mau Humor), Bruno Natal (URBe) e Gustavo Mini (Conector) fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]


bullet Os limites da cultura digital 2 - Conector - OESQUEMA em 14 de abril, 2009 às 5:01 am

[...] é aí que entra o post anterior sobre o assunto dos limites da cultura digital: é uma cultura pouco afeita à limites e isso inclui a relação do usuário com o seu corpo. Com [...]


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