10 de março de 2009 às 17h40
Watchmen, Milk e o ocaso do heroísmo
Como eu já disse aqui, em hipótese alguma me considero uma fonte confiável para falar de Watchmen. Meu envolvimento emocional com a minissérie não chega a derrubar meu senso crítico, mas deixa bastante tonta minha capacidade de abstração ao tentar imaginar como é a experiência de assistir ao filme sendo alguém que não leu umas quatro vezes a série e não é fã do Alan Moore. Então, de qualquer forma, feitas as ressalvas… vamoslá…
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Ah: você pode ler o texto todo mesmo que não tenha visto o filme. Não contém spoilers, nem sobre o final.
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Pois bem.
Watchmen é um filme realmente fantástico em muitos aspectos. Todos eles ligados à noção de heroísmo. Antes de mais nada, é preciso aplaudir o heroísmo do diretor Zac Snyder, que conseguiu colocar quase tudo que importa da densa obra de Alan Moore e Dave Gibbons em um filme de 2h40min. E o que é quase tudo que importa? É o amálgama de referências audiovisuais da cultura americana dos últimos 60 anos (o início do fim do maximalismo?). É também a excelente trama conspiratória que questiona o papel dos super heróis no imaginário popular. Mas, acima de tudo, o que importa e o que vou tratar aqui são os ganchos que Zac Snyder ofereceu para que a audiência possa questionar a própria noção de heroísmo. Isso poderia se perder na adaptação para as telas, mas não. Está tudo lá, bastando prestar atenção.
Watchmen, nesse sentido, vem em boa hora. Como nação, tenho a impressão que os Estados Unidos estão vivendo um momento em que a idéia de heroísmo dá sinais de cansaço. A eleição de Barack Obama, apesar de cercada de ares redentores, marcou o rechaço de uma parte da população americana à cultura do caubói, do herói de guerra, do maverick que vai lá, dá umas porradas e umas canetadas e resolve os seus problemas e os de todo mundo.
O que me leva automaticamente às anotações mentais que fiz de Milk. O filme de Gus Van Sant que deu o Oscar a Sean Penn é um relato intenso e emocionante sobre um herói civil americano, que lutou com tenacidade, bom humor e inteligência política para salvaguardar os direitos dos homossexuais. Harvey Milk, como a maior parte dos heróis civis, foi um homem que utilizou intuitivamente as noções básicas de ativismo para ativar o senso de comunidade de seus pares. Um detalhe, portanto, pode passar despercebido pelos que se apegam à figura do homem entusiasmado e dado a subir em caixotes e discursar com um megafone: os colaboradores de Milk, sua rede de parceiros políticos, amigos e amantes que sustentaram seu caminho e se tornaram tão importantes quanto sua liderança. Milk não seria nada sem sua rede. Sua rede não seria nada sem Milk. Todos estão interligados. Por isso também vem em boa hora a cinebiografia de Milk, pois estamos entrando, como cultura global, em uma era onde a colaboração horizontal e o trabalho de formiguinha vai fazer muito mais diferença do que os atos de grandiosidade e espalhafato.
De volta a Watchmen, tudo começa (cronologicamente, não na trama) com um grupo de pessoas interessadas em complementar o trabalho da justiça e da polícia de forma anônima. O recurso é um velho conhecido nosso no campo da fantasia: um uniforme chamativo, algumas habilidades especiais (humanas ou sobre-humanas) e os criminosos que se cuidem. Quem dera fosse tão fácil resolver os problemas do mundo. Infelizmente, como mostra Watchmen, não podemos solucionar a maior parte dos nossos problemas pessoais ou coletivos como se estivéssemos nos preparando para um baile de carnaval.
Os super heróis de Moore são, como vemos ao longo do filme, seres com incríveis capacidades físicas mas com capacidades psicológicas extremamente limitadas, não muito diferentes de qualquer um de nós. Mesmo Dr. Manhattan, o super-homem capaz de se teletransportar, ver o futuro e manipular a matéria, trava ao tentar resolver as questões mais básicas de relacionamento. Toda sua inteligência e racionalismo só o colocam em uma encrenca atrás da outra, muito embora os mais materialistas possam o cultuar em uma espécie de teísmo bizarro.
As cenas de violência de Watchmen são outro gancho revelador do caráter problemático dos heróis. Propositalmente ou não, Zac Snyder escolheu manter o naturalismo do traço do desenhista Dave Gibbons, ou seja, quando alguém toma uma porrada, vemos muito sangue, fraturas expostas, crânios rachados ao meio. E mais. Vemos os envolvidos, os chamados heróis, sentindo prazer ou alívio com a violência. Não é como em Homem Aranha ou Quarteto Fantástico. São cenas chocantes, extremamente físicas e pesadas, que vão além do que se poderia chamar de justiça ou autodefesa, parecendo servir mais para exorcizar fantasmas particulares. Assim são os heróis de Moore: humanos, sensíveis, confusos, esperançosos. Na maior parte do tempo, eles se comportam como pitboys em um bloco de rua.
A suposta redenção ao final de Watchmen existe, mas é absolutamente questionável uma vez que baseada na clássica lógica americana: um indivíduo se considera apto a executar um plano que envolve milhões de pessoas sem o poder de escolher e joga sobre si a responsabilidade da vida delas como se isso atenuasse o sofrimento pela qual elas passam. Curiosamente, os americanos sempre chamaram isso de “democracia”. É impressionante, mais uma vez, como a história da Alan Moore é atual e profunda. Não trata apenas da psiquê deformada e problemática dos heróis individualmente, mas da psiquê deformada de uma sociedade inteira e suas crenças em uma justiça individualista e arbitrária.
A impressão que dá, no fim das contas, é que todos os heróis precisam de apoio terapêutico especializado e não apenas o psicopata Rorschach. Cada um na tela representa com perfeição um aspecto do mundo atual: Dr Manhattan é o existencialista-materialista-ateu convicto, cujo Deus é a física quântica. Rorschach é o tiozão de churrasco de domingo, que fica violento ao reclamar da degradação do mundo; Daniel é o homem médio resignado diante de sua impotência de lidar com os seus fantasmas e os do mundo, precisando literalmente de fantasias para funcionar; Adrian Veidt é o semi-deus cujo dinheiro e inteligência asseguraram a seu egocentrismo condições para manipular pilares econômicos e militares… e por aí vai. Nenhum deles tem a menor condição de atuar como juiz ou defensor da humanidade. Nenhum deles traz felicidade e harmonia sem um custo enorme e questionável. Eles apenas geram mais dor e sofrimento com sua própria confusão.
Em resumo.
Ao Sr. Snyder, os meus parabéns. E quanto aos super heróis: todo mundo já pra terapia!
3 Comentários







Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

10 de março de 2009 às 20h04
Estou louco para assistir!
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26 de março de 2009 às 16h47
Muito bom seu post. Este filme o Alan Moore podia assinar, pois ficou bem fiel à obra original.
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20 de agosto de 2010 às 17h40
O filme é excelente. Já vi e revi diversas vezes e em cada uma delas noto alguma coisa nova, um detalhe ainda despercebido. Sem falar na trilha sonora ! Realmente é uma obra de arte. Um dos melhores filmes que já assisti. Recomendo.
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