OEsquema

A mente & os protocolos da cultura digital (2)

Se o ser humano se reprograma por repetição e contexto, o acesso diário (repetição) no Twitter ou no Facebook (contexto) sem dúvida deixa marcas na mente. Não vou nem entrar no assunto do cérebro, a neuroplastia e muito menos criar exóticos sub-factóides dizendo que quem acessa o Twitter todos os dias só vai saber se expressar em até 140 caracteres, mas com certeza estamos vivenciando algum tipo de troca entre nossa mente e as interfaces que utilizamos de forma mais intensa.

A construção da identidade do indivíduo pré era digital não se limitava, obviamente, a suas atividades psicológicas e sempre incluiu relação com objetos e aparelhos. Mas quando um número considerável de horas da nossa semana é passada preenchendo pequenos formulários ou tentando condensar nossos dramas e comédias em mensagens rápidas entremeadas de gifs animados dentro de caixinhas flutuantes e piscantes, precisamos admitir que estamos transformando nossas narrativas internas em experiências vivas de transmedia storytelling.

Isso implica na lenta construção de um novo alfabeto psicológico, mais complexo, espalhado, fragmentado e, acima de tudo, ligado a interfaces que nos levam a narrar nossos pensamentos e sentimentos de uma forma ainda não experimentada na história humana. Não é raro, por exemplo, uma discussão entre casal ou uma conversa entre amigos começar ao vivo, continuar por email, atravessar uma tarde no msn (entrecortada por uma série de outras atividades) e se desenvolver em frases cifradas de Fotolog ou mensagens de SMS.

Para fazer o eixo narrativo desse papo ter sentido (se é que algum dia ele fez ou vai fazer), é preciso preciso saber comunicar o que você está sentindo ou pensando em meia dúzia diferente de linguagens (o que acaba configurando uma única linguagem fragmentada e fluída). Nesse contexto, um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos – com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas. Aquele smile estava sorrindo com alegria genuína ou com o mais puro sarcasmo? Quem decide?

Não tenho dúvida que a maior parte das pessoas está desenvolvendo um novo talento (o MIT chama de New Media Literacies) ao disparar em um único dia uma dúzia de mensagens de SMS para pessoas diferentes com diferentes conteúdos, tons e significados, todos dentro de um frame muito rigoroso formado por um número limitado de caracteres e uma interface gráfica ainda bastante rudimentar. No fundo, estamos aprendendo a tirar leite de pedra e não é pra menos que tanto rolo aconteça devido a mal entendidos em scraps e comments por aí na vida.

Tá, mas e daí? Não sei. Continuo no próximo post.

6 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Uncategorized tags: , , , , , , ,

6 Comentários

Comentário por Raul Mourão
25 de março de 2009 às 19h26

Olá Gustavo,
Excelente seu texto! Penso que estamos diante do nascimento de uma nova sensibilidade humana. A parada é complexa e estou começando a pesquisar o assunto. Vc sintetiza bem as ideias e registra bem a cena. A imagem é essa. O mapa/desenho é confuso e ninguem sabe onde vai dar essa estradar. Recomenda outros textos?
1 abraco e parabens pelo blog

Responder

Comentário por Raul Krebs
25 de março de 2009 às 20h47

Pincei essa frase: “um mísero gif animado condensado em alguns pixels pode comunicar uma montanha de sentimentos complexos – com maior ou menos sucesso, dependendo da conexão entre as duas pessoas”.
Gostei que ainda dependa de um sentimento úncio que um tem sobre o outro (e as conexões e ligações que cada um faz, óbvio).
Mas… até quando? As vezes acho que isso diminui a cada dia – a interpretação do outro através de pequenos detalhes. O que antes era um piscar de olhos diferente pode ser um gif de significado particular, mesmo que universal.
Ah, sei lá… continua aí, Mini.

Responder

Pingback por Stop making sense
26 de março de 2009 às 9h32

[...] Gustavo Mini   [...]

Comentário por Jairo
26 de março de 2009 às 10h44

hUAHUAHUAHAU

Parece o FHC falando.

zzzzzzzzzz

Responder

Comentário por Gustavo Mini
26 de março de 2009 às 10h50

Raul Mourão: recomendo que você dê uma olhada no blog do Eduf: http://colunistas.ig.com.br/magaiver/

Raul Krebs: não entendi, mas deve ser isso aí que tu falou!

Responder

Comentário por Raul Mourão
27 de março de 2009 às 16h04

valeu Gustavo!
Coloquei um post agora no meu blog sobre o livro Ramos do filosofo Michel Serres. Vc conhece?
Começa assim..

O mundo grita de dor porque entra em trabalho de parto. Mesmo sob sérios riscos, devemos inventar novas relações entre os homens e a totalidade do que condiciona a vida: planeta inerte, clima, espécies vivas, visíveis e invisíveis, ciências e técnicas, comunidade global, moral e política, educação e saúde… Trocamos nosso mundo por outros mundos possíveis, e deveremos abandonar inumeráveis paixões, idéias, hábitos e normas que inspiraram nossa breve duração histórica. Penetramos num ramo evolutivo.

Em eras precedentes, nenhum saber teve necessidade de conceber nem conduzir projetos tão vitais: reinventar a universalidade do indivíduo, reconfigurar seu habitat e tecer novas relações. Por ter de repensar tudo, a filosofia modifica seu alcance explicativo e assiste ao crescimento de sua responsabilidade. Ou aparecerá um novo homem, um cidadão do mundo, ou a humanidade estará ameaçada. Devemos estabelecer a paz entre nós para salvaguardar o mundo e a paz com o mundo para nos salvar.

Responder

Deixe um comentário