terça-feira, 14 de abril, 2009

Os limites da cultura digital 2

Ele é incrível. Faz de tudo. Atende aos comandos dos nossos dedos. Faz barulhinhos sintetizados quando algo dá certo ou dá errado. Toca música, filminho e mostra foto. Guarda música, filminho e foto. Muita música, muito filminho e muita foto. Ah, o computador.

***

O computador é distração de gente grande. Sim, informa, educa, ajuda a comunicar, a construir e derrubar governos, a terminar monografias e teses, a realizar sonhos e administrar empresas. Mas também distrai. Distrai pra cacete.

Não apenas o computador, mas seu rosto, sua interface com o mundo, as telas. Sacanas. Telas, em geral, são ladras de atenção por excelência. Desde o tempo da TV. Experimente jantar em um restaurante com uma tela por perto. Elas são irresistíveis, com suas imagens coloridas em movimento e seu brilho hipnotizante. O primeiro bem subtraído na presença de uma tela é o ambiente, o segundo patrimônio perdido são as pessoas ao redor, mas o terceiro e talvez mais problemático fator esquecido é nosso próprio corpo. Se na frente da TV o corpo facilmente vira uma geléia, um mero acessório para segurar os olhos e os ouvidos, ao menos ele geralmente se encontra em uma posição de relativo conforto, jogado no sofá ou na cama cercado de almofadas. Mas, em frente à maior parte dos computadores e celulares, o corpo geralmente se torna uma estrutura alheia, corcunda e tensa, fadada a respirar mal e a desenvolver uma série de problemas.

E é aí que entra o post anterior sobre o assunto dos limites da cultura digital: é uma cultura pouco afeita à limites e isso inclui a relação do usuário com o seu corpo. Com o olho grudado na tela, a mente é agitada de tal forma que parece não se cansar. Pulando de site em site, de arquivo em arquivo, em uma sedutora sequência aparentemente eterna de hyperlinks, é possível consumir um pouco de cada coisa sem se aprofundar em nenhuma e dessa forma perder a medida das horas, ficando ligadaço, desrespeitando completamente os avisos do corpo: ombros tensos, dedos doloridos, antebraço ardendo, respiração curta, coluna curvada para a frente. Uma hora, a fome, ou o namorado, ou o despertador, ou o cansaço extremo dão o alarme e você precisa levantar, desgrudar da tela. Mas a mente continua ali ainda por um bom tempo, ligada e amortecida ao mesmo tempo. O corpo, por sua vez, leva junto a postura ruim, o inspirar e expirar combalidos e as dores como suspeitos troféus às vezes exibidos com um questionável orgulho.

A dica para evitar esse problema, que dá origem a muitos outros, é só uma: tomar consciência do corpo. Lembrar que ele existe. Prestar atenção em como ele se acomoda. O corpo é inteligente e cada pessoa sabe de seus limites, basta prestar atenção. Esse é o problema hoje em dia. Prestar atenção.

A respiração é um guia poderoso para a atenção: se ela está curta demais, não está bem. Se está cheia de pausas demais no meio da inspiração e expiração, não está bem também. Um corpo curvado não respira bem. Uma cabeça baixa durante muitas horas faz erguer e tensionar os ombros. Não respirar direito também tensiona os ombros. Ficar horas e horas jogado numa cadeira meio torto com os olhos grudados na tela é um pedido por escrito pra se incomodar mais adiante. Mas ficamos tão dentro da tela que esquecemos completamente do corpo, da respiração, das costas. E só lembramos ao levantar suspirando pesado, soltando ais e uis com surpresa.

Parece papo new age, mas eu acho que é muito mais simples e direto: causa e consequência. Fique assim que você levantará assado. Falar em prestar atenção na respiração parece algo ridículo. Como assim prestar atenção em algo que eu faço automático? Esse é o problema. O automático. Quem faz as coisas no automático é computador. Pessoas fazendo coisas no automático, bem, acredito que para os leitores desse blog não precisamos entrar nos detalhes desta questão. Até porque isso rende outro texto.

Tentando dar um fechamento ao post, então.

1) Sobre valorizar a atenção.

A atenção é um de nossos bens mais preciosos. É o que a indústria da mídia mais preza e o que mais custa caro. A sua atenção por 30 segundos custa uma fortuna na TV e está se valorizando na internet. Faz bem escolher onde aplicar a atenção, não tratá-la como uma balinha de 10 centavos.

2) Telas são ladras de atenção.

Mas o ponto aqui não é que elas roubem atenção somente de outros aspectos do ambiente ou de outras pessoas. Telas roubam nossa atenção de nós mesmos. Mergulhamos nas telas e esquecemos completamente do nosso corpo, por exemplo. Em alguns casos, isso traz prejuízos para o corpo e para a capacidade de prestar atenção.

3) A respiração é um guia confiável

A forma como respiramos reflete nossa posição de corpo e mente. Um corpo agitado respira de forma rápida e inconstante. Uma mente agitada também. O contrário também é verdade: acalmar a respiração influi na batida do corpo e da mente. Mas nem precisamos ir tão longe. Simplesmente prestar a atenção na respiração já muda o quadro em que estamos metidos.

Por hoje é isso. Talvez eu expanda esse post mais adiante. Talvez não. Vamos ver. O que vocês acham?

***

Imagens roubadas do Flickr do Guilherme Dietrich, dica do Fernando Ribeiro.



10 Comentários

bullet Leonardo em 14 de abril, 2009 às 7:52 am

Bom ler sobre isso de manhã cedinho, na maratona de RSS pra ler no Google Reader.
Parabéns pela ótima idéia de escrever sobre estas coisas, tão esquecidas nesse mundinho digital.


bullet Bruno Galera em 14 de abril, 2009 às 10:00 am

Concordo praticamente na íntegra com o post. No entanto, acho que vale lembrar que esse efeito dispersivo pode acontecer com qualquer coisa. Posso ser tragado e dominado por um livro, me deixando transtornado, com má postura e praticando automatismos com meu corpo.

Entendo a preocupação com os meios digitais, mas acho que deve-se cuidar para não demonizá-los frente a outras coisas que podem gerar distração. Geralmente, o problema está sempre nas pessoas, e não o contrário.


bullet Gustavo Mini em 14 de abril, 2009 às 11:42 am

Bruno, concordo com a tua ressalva, tem que cuidar mesmo. Mas escrevo mais pra fazer o equilíbrio, porque embora ache que dá pra virar meio autista exagerando nos livros (tanto lendo quanto acumulando-os), isso não se compara ao poder dos suportes digitais em termos de acúmulo e absorção. Em dois meses a gente acumula uma videoteca e uma discoteca que o vivente não acumularia numa vida se fôssemos considerar o vinil e os livros.

Mas, de novo, realmente não é uma questão de analógico vs digital.


bullet Nicholas Frota em 14 de abril, 2009 às 4:56 pm

right on, respiracao eh o metodo. procura sobre email apnea: uma cientista descobriu que quando lemos email, respiramos ofegantemente, em estado de stress. ela falou que ler emails no celular eh pessimo pq tomamos emails como possiveis ataques, e nos preparamos para isso.


bullet Christian em 14 de abril, 2009 às 6:25 pm

Oi Mini!
muito bom o ‘conector’
aqui é o Chris , do Instiga (falei com vc pelo email para tentar traze-los em breve para campinas)
grande abraço!
muito bom o blog
deixo o clipe do Instiga, nao sei se viu:
http://www.youtube.com/watch?v=b3FcGzmDncQ


bullet Fique por dentro Cultura » Blog Archive » Os limites da cultura digital 2 - Conector - OESQUEMA em 16 de abril, 2009 às 10:45 am

[...] Sujo), Arnaldo Branco (Mau Humor), Bruno Natal (URBe) e Gustavo Mini (Conector) fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]


bullet raul em 21 de abril, 2009 às 10:09 am

grande post.


bullet Descanse…hoje é sábado! - PicturaPixel em 25 de abril, 2009 às 11:43 am

[...] Os limites da cultura digital 2 Ele é incrível. Faz de tudo. Atende aos comandos dos nossos dedos. Faz barulhinhos sintetizados quando algo dá certo ou dá errado. Toca música, filminho e mostra foto. Guarda música, filminho e foto. Muita música, muito filminho e muita foto. Ah, o computador. [...]


bullet duda em 5 de outubro, 2009 às 3:23 pm

Talvez isso te interesse:
http://www.heise.de/tp/r4/artikel/5/5567/1.html

Eu tenho chamado de zapping society

http://www.overmundo.com.br/banco/zapear-velocidade-e-politica

achei muito bom os dois posts , mas o primeiro a meu ver é melhor.


bullet E o corpo nisso tudo? - Conector - OESQUEMA em 30 de abril, 2010 às 11:40 am

[...] ver todos os textos, vá por aqui.) Mas eu já toquei nesse assunto (frequentemente negligenciado) nesse post aqui. « Quer se dar bem em publicidade? Então NÃO tenha idéias. | » Por Gustavo Mini [...]


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