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Philip Roth: O Animal Agonizante

Faz três semanas que eu li o Animal Agonizante em duas sentadas (metade num hotel, outra metade num vôo RJ-Poa) e até hoje tive uma série de pudores para escrever qualquer coisa sobre o livro. Muitos pensamentos me ocorreram,  mas nenhum faz jus porque O Animal Agonizante oferece um panorama tão claro e feroz (já acusado de misoginia) do desejo masculino que quase deveria estar nas prateleiras de auto-ajuda junto daqueles livros tipo “Homens são de Marte, Mulheres São de Vênus.”

Logo que terminei a leitura, a única coisa que tive condições foi rabiscar esse gráfico aí de cima, que vale tanto para o Animal Agonizante quanto para outros livros de Roth: o cruzamento da potência masculina (não apenas sexual, mas social também) com a passagem do tempo. O rabisco marrom, no caso, é de David Kepesh, professor sessentão de crítica literária, um solteirão sensualista e fundamentalista (com páginas e páginas de proselitismo hardcore). O rabisco rosa é de Consuela Castillo, uma de suas alunas seduzidas, porém a primeira que abala uma série de fortificações emocionais e físicas de Kepesh.

No gráfico acontece mais ou menos o que acontece no livro: por duas vezes em suas vidas as necessidades e desejos do professor e da aluna se encontram e se tocam. Por duas vezes são produzidos efeitos devastadores. O ponto um é o encontro clássico entre o homem “experiente” e a mulher “sendo iniciada”. As aspas são cortesia das sutilezas desses conceitos nada concretos, desnundados por Roth ao soterrar qualquer romantismo em relação à toda carga de ansiedade que essa intersecção traz consigo. O ponto dois é a pá de cal nesse romantismo: ambos os protagonistas enfrentam junto a perda de suas potências (sexuais e sociais), muito embora em idades e por motivos diferentes. Dentre tantas generosas bordoadas distribuídas pelo autor, uma é taxativa: a incompetência do desejo em produzir satisfação.

Bom, não vou contar mais pra não estragar a bela experiência que é ler o livro. Mas, mais uma vez, o que Roth faz é cruzar questões humanas milenares e universais (sexo, morte, tempo, vida) dentro de âmbitos específicos (o surgimento da contracultura nos EUA, a vida em um meio cultural restrito). A colisão de temas amplos com contextos delimitados não produz apenas uma boa narrativa,  mas oferece faíscas poderosas e uma franqueza comovente e necessária. Não é que muita gente por aí não tenha experiência de vida e não tenha condições de dar “a real”. Mas é que poucos o fazem com tanto talento pra escrita.

Boas obras são assim: parecem escape, mas na verdade te colocam cara a cara com o que precisa ser dito e repetido um milhão de vezes até que um dia entre nessa cabecinha dura.

9 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Arte tags: , , ,

9 Comentários

Comentário por Bruno Galera
6 de maio de 2009 às 12h46

Grande livro.

Na mesma corrente, recomendo muito o “Everyman” (Homem Comum) e o fantástico “Exit Ghost” (Fantasma Sai de Cena). Roth tá lançando dois, três livros por ano, e incrivelmente ele não consegue parar de acertar.

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Comentário por Gustavo Mini
6 de maio de 2009 às 14h04

Já li o Homem Comum, muito massa também. Mesma linha “devastação”. Quero agora ler os outros dois com a história do David Kepesh, O Professor do Desejo e o outro q não lembro o nome agora…

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Comentário por Bruno Galera
6 de maio de 2009 às 14h15

O outro do Kepesh é o “The Breast”. Não sei se foi traduzido aqui, acabei não lendo. Mas o “Professor do Desejo” realmente vale muito investir.

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7 de maio de 2009 às 7h53

[...] Sujo), Arnaldo Branco (Mau Humor), Bruno Natal (URBe) e Gustavo Mini (Conector) fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

Comentário por Cris
7 de maio de 2009 às 9h39

passou pra lista. Já andava com vontade de ler alguma coisa do Philip Roth. Agora já tenho uma indicação pra começar.

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Comentário por Gustavo Mini
7 de maio de 2009 às 9h43

Depois pega o Pastoral Americana. Pra mim é o “Nevermind” do Philip Roth.

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Comentário por ricardo romanoff
7 de maio de 2009 às 12h38

A Marca Humana também é ótimo e pelo visto tem algo a ver com O Animal Agonizante, que eu ainda não li. Outro que vale a pena é o Adeus, Columbus, primeiro livro do Roth, uma série de contos publicada no final dos anos 50. A Cia das Letras lançou o livro em versão pocket não faz muito tempo. Parece que, na época, o Roth, que é judeu, foi acusado de anti-semitismo, porque os personagens judeus das histórias vivem situações por vezes ridículas. Enfim, ele não se preocupou em criar ‘imagens edificantes’, fez personagens ordinários. É bem divertido.

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Comentário por Heitor Humberto
8 de maio de 2009 às 10h18

O filme baseado no livro é uma boa adaptação. Boas atuações.

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26 de maio de 2009 às 7h05

[...] livros de Roth: o cruzamento da potência masculina (não apenas sexual, … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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