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Não, Harry Potter não vai chutar a sua bunda

(Continuação desse post.)

Harry Potter não vai chutar a sua bunda porque, e isso é uma suposição ainda, ele não tem nada contra você. O problema do Harry Potter, até onde entendi, é com aquele de quem não se diz o nome. Mais curiosamente, Harry Potter não vai chutar a bunda do pai dele ou da sociedade, porque ele não tem grandes problemas com o pai ou com mais ninguém. Talvez os tios, mas ele tira de letra. O problema de convivência com os tios e o primo é facilmente sublimado com pequenas transgressões mágicas, nada de muito pesado. Não é necessário. Harry Potter não vai chutar sua bunda porque não é preciso. A grande questão da série Harry Potter é lutar com os próprios demônios com o suporte da amizade (esse é um dos grandes temas da série, não é mesmo?). De alguma forma que não sei explicar, isso me parece bastante mais leve do que a temporada de Luke Skywalker em Dagobah. Perto de Harry, Luke é muito mais birrento. A geração Harry Potter pode ser mais mal acostumada com certos confortos, mas me parece menos birrenta. Atenção: não estou falando das pessoas ou de casos individuais. Estou falando da cultura pop como um todo. A cultura dos anos 00 é mais blasé, menos birrenta, mais inclusiva. Não é?

***

É incrível que a obra musical que serviu de porta-voz para uma revolução latente no início dos anos 90 se chame Nevermind. Tradução livre: deixa quieto. Deixa pra lá. Dá nada. Entende a ironia? Nevermind não deixou nada quieto. Foi o catalisador de um movimento que vinha se ensaiando durante todos os anos 80, naquele tradicional movimento de contração e expansão da cultura pop, no qual a onda vigente é sempre uma negação radical da anterior. Nevermind! Não dá nada. E deu tudo. A geração chamada de slacker, preguiçosa, sub-empregada apesar de over-educada, sem querer acabou mexendo com tudo. Nunca a preguiça foi tão ativa e presente. Nunca a largação foi tão eloquente. Nem mesmo no punk: ali havia raiva, havia uma energia clara sendo exposta. Com todo aquele papo de grunge, foi a letargia que virou vetor de transformação. Quem diria! Não lembro de alguém ter sublinhado essa ironia tão clara. Eles vieram, disseram Nevermind, mas todo mundo “mind”. E deu no que deu.

Os anos 90 acabaram sendo a última década em que era preciso escolher um lado. As cansativas discussões em listas sobre o mundo “corporativo” e o “mundo indie”. O Cobain aparecendo na capa da Spin com uma camiseta dizendo “Corporative rock magazines suck”. A questão das bandas que assinavam ou não assinavam com majors. Filmes independentes contra filmes de grandes estúdios. Todas as dicotomias, ao longo dos anos 00, se tornaram anacrônicas.

A partir de 2001 tudo ficou mais bagunçado. É um ano emblemático nesse sentido. Obrigado por avisar, Kubrick & Clarke! 2001, afinal, foi o ano em que:

- a Apple lançou o iPod, inaugurando uma era em que as coleções de música abrigavam sem constrangimento Strokes, Ivete Sangalo, Chico Buarque e Rick e Renner lado a lado.
- os Strokes lançaram o EP com Modern Age/Last Nite/Barely Legal, botando os indies pra dançar nas pistas novamente e não apenas se balançar com músicas sem ritmo ou pular ao som de funk metal.
- caiu na roda A Stroke of Genius, o mashup de Christina Aguillera com Strokes do Freelance Hellraiser, fato auto-explicativo
- saiu As Heard on Radio Soulwax, album do 2ManyDjs que regurgitava em um único set 45 músicas de diferentes frentes do pop, dando a cara esquizofrênica das pistas da década que começava.
- Harry Potter e a Pedra Filosofal, o primeiro filme da série, foi lançado nos cinemas (se não me engano desbancando no Brasil um recorde do Rambo III), atingindo um público que os livros não atingiam.
- as Torres Gêmeas e a noção de que os Estados Unidos eram uma ilha no mundo caíram.

(No Brasil, não me lembro bem de cabeça. Mas também foi uma época de queda de barreiras. Acho que foi nessa época que os festivais fora do eixo Rio/SP começaram a se fortalecer. Foi uma época em que viajamos bastante com a banda, vários produtores independentes começaram a trazer bandas menores pro Brasil com shows em cidades inusitadas. Mudhoney no Brasil foi em 2001. Jon Spencer, Luna, Cat Power, Nebula (pra quem abrimos quatro ou cinco shows) também. Os sorocabanos do Wry foram pra Londres em 2001. O Festival Calango, que botou Cuiabá no mapa, começou em 2001. Acho que foi por esse ano que bandas como MQN, Forgotten Boys e Autoramas começaram a ter uma base de fãs mais respeitável. E por aí vai.

Mas a questão aqui é a seguinte. Olhe para os exemplos citados na lista acima. Todos eles têm a marca da inclusão e não da exclusão. O punk, o new wave e o grunge traziam a marca da exclusão. O punk brigava com o “sistema”, a new wave com a simplicidade, o grunge com o sistema de novo. Os anos 2001 não vieram pra brigar com ninguém. Sua arma foi a inclusão. Tá todo mundo no mesmo barco. Strokes com Cristina Aguillera, guitarras com pista de dança, 45 músicas onde Emerson Lake and Palmer convivem com Basement Jaxx, um aparelho que permite carregar toda sua biblioteca musical junta, um filme no qual um garoto com poderes mágicos transita entre o mundo da magia e o mundo dos trouxas, festivais e bandas relevantes em locais tradicionalmente excluídos do circuito cultural brasileiro.

Harry Potter não vai chutar a sua bunda porque uma antiga batalha acabou. O sarcasmo, a combatividade e a desilusão dos anos 90 hoje são mainstream. Não são mais tão relevantes, não fazem mais cosquinha. Depois de dez anos aprendendo a misturar e incluir, vamos cozinhar nos próximos dois anos novos conceitos e novos sabores que vão dar o tom da década vindoura. Eu não sei bem quais são eles, mas sabe o que mais? Deixa quieto…

13 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Música, Uncategorized tags: , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

13 Comentários

Comentário por Martins
4 de junho de 2009 às 10h48

É…
Texto…..
Mais ou menos.
Mas ….
Valeu.

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Comentário por ariel
4 de junho de 2009 às 21h08

tu me deixa retardado.

legal isso.

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Comentário por Raul Krebs
4 de junho de 2009 às 22h01

eu tenho uma teoria bizarra onde a música pop, especialmente o rock, obedece de modo geral a um esquema não imposto (genuino, portanto) de “ondas” intercaladas: som limpo, som sujo, som limpo, som sujo. senão, vejamos… antes dos beatles a música pop era limpinha: grupos de rock como os de buddy holly, genne vincent, elvis e tal. os próprios e fabulosos beatles começaram assim e foram sujando, sujando, sujando… até desembocar em helter skelter, rolling stones, the who e várias bandas da segunda metade dos 60 – e o hard rock dos early 70′s. depois? rock progressivo, tecladeiras, elaboração… limpeza! e assim sucessivamente: punk rock, pistols (sujo), new wave e os oitentismos medonhos (limpo), grunge, musica eletronica (intrometida, relegou o rock quase ao limbo no final dos 90). depois vieram sujando tudo strokes, kings of leon e, agora, essa onda emo, pra limpar de vez os coraçõeszinhos angustiados da nova geração.
mas hoje é tudo mais misturado e indefinivel dentro da minha teoria, claro, que é bizarra e não funciona com reggae, por exemplo. como eu disse no inicio. bizarra teoria. bom nome de disco de rock progressivo ou de bandas com letras cheias de mensagens e verdades.

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Comentário por erica
6 de junho de 2009 às 10h54

fico nos 90. os 00/01 voltamos a falar daqui 20 anos, quando eles voltarem

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Comentário por Cabron
6 de junho de 2009 às 11h16

E os anos 00 estão acabando e não foram nada.

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Comentário por mitsu
8 de junho de 2009 às 10h09

Costumo dizer que se a Lindsay Lohan namora uma mulher e ninguém fala sobre o assunto, é sinal de que o mainstream anda cada vez mais underground.Muito estranho isso.

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Comentário por André
9 de junho de 2009 às 12h27

A discussão sobre a proposta de exclusão dos anos 90 para a inclusão dos exemplos de 2001 é excelente… é uma diferença substancial na luta contra modos de produção ainda hegemônicos advindos da industrialização, mas que estão em derrocada… por isso, acho que a idéia de que “os anos 90 acabaram sendo a última década em que era preciso escolher um lado” é falha, justamente porque agora se luta incluindo, e não destruindo, mas ainda estamos em luta… ou não existem processos e lobbies contra o P2P? ou a mídia tradicional ainda não luta contra a democratização da informação (como o caso das críticas ao blog da Petrobras)?…

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Comentário por Charles Pilger
9 de junho de 2009 às 14h52

“Os anos 90 acabaram sendo a última década em que era preciso escolher um lado.”

Com essa frase Mini acaba de provar que é mais novo que eu e que tem memórias um tanto quanto românticas dos anos 80…

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Comentário por Charles Pilger
9 de junho de 2009 às 15h32

É, de fato estou velho: li “único” no lugar de “último” =P

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Comentário por vinicius bracin
9 de junho de 2009 às 16h03

Só uma correção típica de fã chato: a capa do Cobain com a tal camisa é na Rolling Stone.

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Comentário por Gustavo Mini
9 de junho de 2009 às 17h53

Charles, não entendi teu ponto!

André, não estou falando de luta política, mas de conceitos. A cultura pop dos anos 90 tinha um viés exclusivista, de quem está fora e dentro do clube. A cultura pop dos anos 00 tem um sabor mais inclusivo. Não estou dizendo que viramos todos amigos abraçados, mas que você encontra festas com músicas mais misturadas, músicas mais misturadas, uma moda bem mais misturada. Sim, ainda existem guetos e separações, mas com uma intensidade bem menor e mais “cruzado”: uma pessoa pode frequentar uma turma mais fechada de um segmento mas fazer também parte de outras. Quem trabalha com adolescentes com certeza detectou isso, é impressionante o cruzamento de referências. Hoje é muito comum ver meninas com um visual igual ao do Strokes ouvindo pagode. Olha a roupa dos Jonas Brothers. É a roupa de indies de 5 anos atrás.

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Pingback por Unidades Básicas de Cultura Pop - URBe - OESQUEMA
10 de junho de 2009 às 12h46

[...] Nos últimos dias tem falado do que tem chamado das Unidades Básicas de Cultura Pop, indo de Harry Potter a Trapalhões e Guerra nas Estrelas em milisegundos e fazendo a ponte com a cultura inclusiva produzida de 2001 pra cá: [...]

Comentário por Iago
16 de julho de 2009 às 19h40

As diversidades estão sendo aceitas e isso é bom + tanbém e meio chato na minha opnião gera esse tipo de pensamento .
Não há pelo o que brigar , nem 1 lado pra se escolher .
e eu não tneho nada contra isso

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