sexta-feira, 12 de junho, 2009

Bloquinhos

Lucas achou uma cimitarra entre os presentes de casamento. Veio sem cartão, então nem ele nem a Carla sabiam a origem.

“Deve ter sido um dos seus amigos da TI.”
“Pode ser. É cool.”

Um amigo programador do Lucas era fã de Prince of Pérsia.

“Quem disse que cimitarra é cool? Eu acho brega.”
“Sei lá. Foi só um comentário.”

Nisso, tocou a campainha. João apareceu na porta.

“Sim?”
“Estou procurando uma cimitarra.”
“…”
“Vocês têm uma cimitarra pra dar?”
“Desculpe?”
“Uma cimitarra… uma daquelas espadas assim e assim.” disse João desenhando no ar o tal formato.

“Só um pouquinho.”

Lucas fechou a porta e voltou pra sala.

“Carlinha, tem um cara querendo uma cimitarra aí fora.”
“Ótimo. Vende pra ele a nossa. Eu não quero isso aqui. Daqui a pouco a gente vai ter filho, não quero saber de arma em casa.”
“Nem pra decoração?”
“Você não vai pendurar essa citarra na parede, Lucas?”
“É cimitarra. Seu pai, não vai querer?”
“Lucas, se livra desse negócio. A gente nem sabe quem deu. Deve até dar azar.”
“E se for de um de nossos chefes?”
“Azar, Lucas. Você vai ter medo do seu chefe o resto da vida?”
“Tá bom. Mas o cara aí não tem dinheiro.”
“Então dá pra ele, faz um leasing, qualquer coisa, só se livra disso.”

Lucas pegou a cimitarra e foi até a porta. Abriu e mostrou a peça para a visita.

“Ah.. é perfeita” disse João examinando o fio.
“Pode ficar para você.”
“Obrigado. Muito obrigado.”
“De nada.”

Lucas fechou a porta e João desceu pela escada, com a cimitarra embaixo do braço, embalada em papel de presente amassado. Pegou o ônibus circular e parou em uma papelaria da zona norte.

“Quanto custam os bloquinhos?”
“50 centavos cada.”
“Posso pagar com uma cimitarra?”
“Uma o quê?”
“Isso.”

João desembrulhou a cimitarra no balcão.

“Ai Jesus!”
“Chama o gerente…”
“É assalto?”
“Não. Quero propor uma troca.”
“Ai, eu sabia, é assalto.”
“Não é… chama o gerente…”
“Ai Jesus…”

A vendedora saiu rezando e voltou com o gerente.

“É um assalto?”
“Não, quero propor uma troca.”
“Manda.”
“Essa cimitarra por 600 bloquinhos.”
“Hmmm…”

O gerente calculou mentalmente, coçando o cabelo com gel. Pegou a cimitarra, examinou o fio.

“Certo. Eu fico com ela e pago pelos bloquinhos. Marta, pega 600 bloquinhos no estoque.”
“600? Ai Jesus…”
“Vai, Marta!”

João saiu com os 600 bloquinhos em duas sacolas. Pegou o ônibus de novo e abriu o primeiro pacote de bloquinhos quando lembrou que não tinha caneta. O sol riu da ironia enquanto se punha atrás dos transformadores da empresa pública de energia elétrica. Assunto clássico para ao menos um bloquinho.

***

Essa história saiu na Mais Soma #11. Download da revista inteira em PDF clicando com o botão direito aqui.

Leia a primeira história da caminhada de João aqui.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.


Por Gustavo Mini às 10:15 | | Permalink
Categorias: Ficção
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3 Comentários

bullet Cris em 12 de junho, 2009 às 4:46 pm

vai ver não pagaram a hospedagem. O link não funciona. A revista não tá mais no ar. Que raios aconteceu com a Mais Soma???


bullet Cosmos - Conector - OESQUEMA em 1 de agosto, 2009 às 8:06 am

[...] Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. [...]


bullet A Saga de João - Epílogo - Conector - OESQUEMA em 3 de dezembro, 2009 às 1:16 pm

[...] primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos. A quarta é A Bandeira [...]


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