28 de julho de 2009 às 8h00
Conector em Gotham parte 11: não gaste, meu filho
A senhora Zhao Xiangyuan nasceu em 1938, algum tempo antes da revolução de Mao. Ela tinha 11 anos quando o caldo entornou, o que a colocou automaticamente dentro de uma geração marcada pra sempre pelas dificuldades de uma guerra civil, de medidas econômicas duras e de uma intensa revolução cultural. Não bastasse essa bagunça, o pai da senhora Xiangyuan ainda foi acusado de ser um espião anti-comunista e perdeu todo seu patrimônio. Mais tarde, já casada, a senhora Xiangyuan teve seu marido também acusado de atividades contra-revolucionárias, sendo obrigado a cumprir sete anos de trabalhos forçados.
E eu acho que tenho problemas.
Um dos legados mais fortes desse período, que a senhora Xiangyaun levou para toda sua vida, foi a filosofia do “Wu jin qi young”, traduzido pro inglês como “waste not” ou, em português razoável, “não gaste”. Diante da escassez de bens e recursos, o hábito de guardar embalagens e objetos velhos na garagem para um possível uso posterior se entranhou nela (e em seus amiguinhos) de tal forma que, mesmo quando em melhores condições, o hábito de juntar tralha permaneceu na cultura depois do período de dureza.
(Quem leu Maus do Art Spiegelman? O mesmo acontece com o pai do autor depois de passar por Aschwitz e acho que todo mundo tem em seus pais algo assim em menor escala.)
Em 2002, a senhora Xiangyaun estava lá, ainda juntando suas valiosas quinquilharias de forma agora extravagante e desnecessária diante de certas melhorias econômicas quando o senhor Xiangyaun… morreu. Seguiram-se, então, três anos de depressão e desespero, até que seu filho resolveu propôr uma forma interessante de trabalhar o luto. O filho da senhora Xiangyaun não é psicólgoco, mas um respeitado artista conceitual chinês. O nome dele é Sang Dong.
Bom nome. Sonoro.
Desistindo de convencer a senhora Xiangyaun a se mudar e se livrar do lixo seco, Sang Dong pediu à mãe que trabalhasse com ele em um novo projeto: expôr tudo aquilo que ela acumulou em décadas de “Wu jin qi young” ou “waste not”. Dessa forma, argumentou, ela conseguiria ir em frente e abrir mão do peso daqueles pertences acumulados mas dando um significado e um uso para tudo aquilo que, por tanto tempo, estava esperando… um uso.
Vai dizer: o cara é bom hein?
Waste not é uma das instalações mais lindas e emocionantes que eu já vi. É uma piada pronta em termos de arte contemporânea, porque basicamente é composta de lixo seco. Coisas que, pelo senso comum, deveriam ir pra reciclagem. Surpresa: elas foram pra reciclagem.
Como disse uma vez o Jorge Furtado, lixo é só uma coisa fora do lugar. Me desculpe se eu explico demais e tiro a poesia da situação, mas o que era inútil na casa da senhora Xiangyaun se tornou útil em uma série de âmbitos: ao se tranformar em obra de arte (embora muita gente não coloque isso na categoria de utilidade), ao ocupar espaço em um museu, ao servir de plataforma pra reflexões do público.
Quer mais ironia? Toma-lhe: a China é hoje, provavelmente, o maior produtor de quinquilharias da história da humanidade. Mais uma? Esse lixo todo deve ter viajado em containers e depositado sem dó nem piedade no meio do MoMA (o nosso lixo de container não é tão sofisticados conceitualmente). Outra? Os objetos estão todos dispostos de forma organizada, classificados e agrupados de acordo com suas antigas utilidades. Raramente os sentimentos dentro de nós têm esse privilégio. Raramente podemos olhar para nossa quinquilharia interna disposta de maneira tão clara e objetiva.
Ok, menos. A útima então.
Depois de esvaziar a garagem, a senhora Xiangyaun concordou finalmente em deixar sua velha casa e se mudar para um apartamento mais aprazível em Pequim, próximo a um parque. Lá ela morreu em janeiro último ao cair de uma escada depois de tentar salvar um passarinho.
***
Aos links.
Roubei essas boas fotos da instalação desse blog. As minhas não tavam lá essas coisas.
E tem um texto interessante, de onde tirei mais dados da história, aqui.








Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

28 de julho de 2009 às 16h52
oi gustavo.. queria o seu email pra te mandar algumas sugestoes de arte…
espero q vc retorne o email… eheheh bjokas
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29 de julho de 2009 às 13h59
Não tem Feed aqui não?
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29 de julho de 2009 às 14h20
muito bacana, mini!
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1 de agosto de 2009 às 2h58
“não desperdice” encaixa melhor.
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Pingback por Conector em Gotham parte 12: jesus é véio - Conector - OESQUEMA
7 de agosto de 2009 às 11h55
[...] já a Liu Chuang, diferente do Sang Dong (sonoro esse início de post, não?) escolheu uma abordagem diferente pra questionar noções de [...]
22 de agosto de 2009 às 12h35
show essa instalação, deu saudade de ny. a exposição ‘musica pra ver’ (ou algo assim) q tb tá nesse museu é ótima.
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