4 de agosto de 2009 às 7h00
Walverdes no Música de Trabalho
Essa é nova pra mim: o Daniel Dias botou todo Música de Trabalho pra ver no YouTube em 25 capítulos. O documentário, de 2003, é um ótimo apanhado da cena independente nacional e foi capturado na estrada, com o Daniel entrevistando bandas, produtores e jornalistas nos bastidores de shows individuais e festivais, bem como na casa de algumas figuras emblemáticas – os lugares mais adequados para tratar do assunto. O cara visitou sete cidades e acumulou 25 horas de material. Em 2003 ou 2004, aportou aqui e apresentou o filme no cinema do Gasômetro, não lembro bem se vinculado a algum festival ou não. Mas lembro que gostei e que tinha bastante gente na sala.
Hoje, o interessante é revisitar, através do Música, temas do início da década e perceber como o que está acontecendo realmente vem de sementes plantadas naquela época. Por exemplo, começa a morrer ali a fórmula energia intensa + ingenuidade dos anos 90, o que abre espaço para uma forma de trabalho mais inteligente e menos dependente do mero entusiasmo ou do “merecimento” (essa, uma dinossáurica e lisérgica linha de raciocínio indie que acreditava que “tudo que é bom merece aparecer”, como que por mágica).
Se o cenário indepentente hoje não é perfeitamente estruturado como queiram antigos sonhos dourados, ele com certeza é bem menos ingênuo e mais articulado. Entre 2003 e 2009, apareceu o Myspace, o Orkut, a Abrafin, o Circuito Fora do Eixo e o Cansei de Ser Sexy. O centro-oeste, o norte e o nordeste foram incorporados ao mapa do Brasil. Ser produtor cultural ganhou status igual ou maior do que ser guitar hero. O acesso à banda larga se ampliou, a economia do país se fortaleceu e uma mina de 15 anos sem disco emplacou músicas nos comerciais da Vivo graças ao Rossato que era da Bidê.
As coisas mudaram bastante. E, tirando-se a onda emo, pra melhor.
O resto… o resto, meu filho, é mimimi.
8 Comentários



Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

4 de agosto de 2009 às 11h04
Mini, estou convencido , assistindo a este documentário na integra, de um pensamento que há muito me abate: de que não existe o “ser banda independente” . E sim, o que existe é ” estar independe”. Não é semântica. É a real. TODA banda quer o sucesso comercial sim. TODA band quer fã-clube ou street team. TODA banda quer ser relevante e para ser relevante existe um conteúdo fundamental: atingie um grande número de pessoas. Peguemos um exemplo: quem era The Mars Vota? Uma banda independente. Que ensaiava, que carrega seus amplis, sua bateria, tocava de bar em bar e tal. Você acha que era isso que eles queriam para sempre? É ÓBVIO QUE NÃO. Lá no fundo, sempre esteve o pensamento: queremos estourar. Ou seja, toda banda quer estourar. A diferença é achar o canal certo, na hora certa , no momento certo. Tá, é uma fórmula mágica, sim e por isso, eu não tenho a receita. Mas eu tenho certeza de que a Valverdes, desde sempre quis o reconhecimnento ( vamos chamar assim ao invés de sucesso – que pode estar muito associado somente a dinheiro) e não era o desejo de seus integrantes ficar para sempre no underground. Underground é apenas onde toda a banda está ANTES de ser MAINSTREAM. Simples assim. Acho que esse paop de ” cena indie, cena undergound” é pura retórica, de bandas que usam esse discurso para sustentar os anos e anos que passam tocando de bar em bar, de festival em festival sem ACONTECER para a relevância. Ou por que querem que seja assim, ou porque simlesmente não acontecem – por N fatores. O som pode ser diferente ( aliás tem que ser), a posrura ( entertainment) tem que ser diferente, mas necessariamente, se quer a mesma coisa: acontecer. Voltando ao exemplo do Mars, eles aconteceram, sem mudar o som, sem mudar a postura e sairam do undergorund para o mainstream. Vamos citar no Brasil? Cordel do Fogo Encantando ( teatro + musica). Hohe sã mainstream ( tocam na rádio? talvez não, mas tem um gande contrato, lotam shows em grandes tetros, tem produçnao, ten DVD em megastores e cobram alto cachê). Outro exemplo? Tá bom, Los Hermanos. O som mais nada-a-ver-com-fm que já tocou nas FMs do Brasil. E o que eram? Undergorundééeesimo no Rio de Janeiro. Enfim, the point is: o undeground é apenas um estágio , um degrau da escada e não um estado de ser. Na minha opinião , esta é a realidade que as bandas não querem admitir, mas é o que todas pensam lá no fundo. Basta pensar no porque se começa a quere tocar um instrumento (no rock) desde criança? Porque temos a imgaem icônica do astro de rock na nossa cabeça. E é isso que todos queremos ser.
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4 de agosto de 2009 às 12h16
Valeu pela dica. Adorei assistir Mini!
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4 de agosto de 2009 às 19h32
Fernando, não acho que a coisa seja assim tão simples. As pessoas têm motivações muito diferentes pra montar uma banda ou se meter em qualquer outro projeto artístico. Acho que tu fez uma generalização pra um assunto bem complexo.
Também discordo que o underground seja um degrau para o mainstream. Em países como os Estados Unidos e Inglaterra existe uma longa faixa de possibilidades entre o underground e o mainstream onde bandas, selos e produtores de diferentes calibres fazem seu trabalho sem necessariamente mirar na venda de milhões de discos (que não é o objetivo automático de todo mundo que quer montar banda!). São mercados maduros para determinados produtos pop e o Brasil começa a dar alguns passos na construção dos seus estratos que preenchem esse vasto espaço entre o estrelato e o anonimato.
Tem lá a cena do Tecnobrega no Pará, tem o Midsummer Madness do Rodrigo Lariú completando 20 anos, tem o Wry fazendo turnê por todo o Brasil, o Autoramas tocando em diversos continentes, enfim, uma série de empreendimentos que, se não fazem milhões ou aparecem na novela, são auto-sustentáveis o suficiente pra provar que não é preciso fazer milhões em megashows e licenciamento (porque disco já não dá mais conta) ou aparecer na novela pra manter o seu trabalho.
Não concordo que o Mars Volta, o Cordel do Fogo Encantado e o Los Hermanos sejam mainstream. Eles podem (especialmente o Los Hermanos) terem vivido momentos mainstream mas são realmente três excelentes exemplos de artistas que fazem um trabalho de qualidade e que dialogam com um público bastante específico (o seu) dentro de um modelo de mercado que não é, de forma alguma, o mesmo que as grandes gravadoras utilizavam nos anos 80 e 90.
No fundo, estamos misturando duas coisas diferentes, que são motivações intrínsecas e estrutura de mercado. Motivação, cada um tem a sua. Estrutura de mercado é algo que está mudando lentamente no Brasil e não apenas para os artistas de rock. Já faz tempo que a retórica indie já não faz mais sentido e quase todas as pessoas que eu conheço que trabalham ou tem projetos no meio musical estão com outra cabeça. A conversa mainstream x underground como batalha apaixonada e ideológica, eu acredito, eu espero, foi ou está sendo superada.
Quanto aos Walverdes, não se preocupe. Nós estamos bem.
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5 de agosto de 2009 às 12h01
Mini, não quis parecer ultrapassado e querendo ressucitar o conflito paixão x business. Apenas não concordo que um Mudhoney quisesse (como ideologia) ficar onde está, no underground. Discordo com você quando no tocante aos megashows, etc. O que eu defino como sucesso comercial é 1) o cara poder viver confortavelmente com a grana vinda do seu trabalho autoral como banda 2) ter seu trabalho reconhecido como relevante – ou seja, contribuiu com algo novo , abriu um segmento, enfim, you name it. Isso pra mim é sucesso. E isto é difícil conseguir no Brasil, por vários motivos (culturais, econômicos, étnicos, geográficos e políticos). Nossa visão de sucesso – ou talvez a minha então, pode estar distorcida. Porque relaciono sucesso à relevância. Acho um desperdício uma banda como a sua , Valverdes, ter um público tão restrito e tocar em lugares menores. Não acho justo, porque acredito demais no som de vocês ( possívelmente uma das melhores timbragens de guitarra que eu já vi no Brasil) e vocês mereciam megashows, mega estrutura, sim senhor. Senão fosse assim, porque quando a gente chega nos festivais a gente critica – “Pô, os caras não tinha estrutura, não trabalahrem bem a divulgação..” Por que? Porque a gente, no fundo, mo fundo, quer exatamente isso: a estrutura, a divulgação, a sacada, os line-array, dressroom, soundcheck. Pó, é o minimo. Não me convence que uma banda adora tocar sempre em lugares fuleiros por 25 anos e ache isso o máximo, porque mostra a ” atitude roqueirol”. Não. Acho que não.
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6 de agosto de 2009 às 12h02
Cara, de novo, acho que são questões que tem muitos caminhos, muitas possibilidades…
1) Pro cara viver confortavelmente do seu trabalho autoral, ele precisa se dedicar de forma muito focada para esse objetivo específico e te digo que isso nunca fizemos; e por muitos motivos, alguns bem particulares, que envolvem todas as pessoas que estão ou já estiveram na banda, suas vidas. 2) Acho que nosso trabalho é relevante e é reconhecido por muitas pessoas legais e influentes no meio musical. Claro que eu gostaria de ter um público maior e tudo mais, mas não é esse o ponto. Antes de mais nada eu gosto de tocar porque gosto de tocar. E particularmente sou um cara feliz com o que já fizemos. Acredito, também, que ainda vamos fazer mais algumas coisas legais.
De qualquer forma, fico feliz por tu achar que a gente merecia mais.
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12 de agosto de 2009 às 19h42
Vou ver o lance. Mas aí, sem sequer ler os comments de quem viu/ leu e feedbackou acima, essa superestimação do produtor cultural não é uma verdade absoluta em termos de legitimidade/credibilidade na representatividade deste mesmo cenário… Menos, né? Afinal, vagabundo acaba sendo forçado a ser polivalente e aí muitos empregos de “especialistas vão para a casa da pixota… Como todos já sabem, é uma longa discussão altos massa. abs
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12 de agosto de 2009 às 23h30
testando…
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30 de agosto de 2009 às 11h04
Fala, Mini! Pois é, coloquei como quem não quer nada, já que muita gente perguntava onde assistir. E se há algo que mudou entre 2003 e agora, é vídeo na internet. E lá se vão sete anos desde que entrevistei vocês na calçada em Belo Horizonte…
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