8 de setembro de 2009 às 16h38
A internet e a lógica do barzinho
Esses dias vi um anúncio na Folha de um portal de internet choramingando a diferença entre o montante da verba publicitária brasileira investida na rede em relação ao crescimento da audiência. Não lembro os números e tou com preguiça de pesquisar, mas era algo assim, tipo, o investimento era metade do que a internet tem de audiência. Em outras palavras, as escolhas de mídias de anunciantes e agências não correspondem ao gosto e escolhas dos mais de 60 mil brasileiros que vem acessando a web com certa frequência.
Mas entonces, se a matemática fecha (e no geral o marketing adora matemática mais do que humanas), por que diabos é que não se coloca MAIS dinheiro na mídia online? Em corredores de agências, esperas de palestras e papos informais em almoços, já ouvi as mais diversas opiniões. A maior parte delas, indignada com a ignorância do alto clero, acusa o alto clero simplesmente DESCONHECER a existência da internet. O que não acho verdade. Em segundo lugar, não menos acompanhado de virulência, vem a tese da idade: as pessoas que tem a chave do cofre, a mão na carteira, o titular do cartão, eles não acessan tanto a internet, por isso não são sensíveis a ela como mídia pra vender. Em terceiro, a boca pequena, corre a científica nota de que “são tudo um bando de imbecil”, argumento que, além de não ser prudente em termos políticos, não passa de mimimi e de fato não serve de base pra se construir soluções adequadas pro problema.
Um dia, entretanto, eu entrei na casa de um conhecido e vi no canto da sala a resposta pra questão da vasta diferença entre os investimentos em mídia online e o consumo de mídia online. Estava lá, ele, tocaidao, pronto pra nos atacar: O BARZINHO.
Lembro que, quando eu era criança, nos loucos anos 70, toda família tinha na sua sala um BARZINHO, com uísque, vermute, campari, vodka, licores diversos, alguma cachaça, além de copos, balde de gelo, aquele pegador em forma de garrinha e, o mais lúdico de tudo, aqueles mexedorezinhos de plástico, a versão brasileira do guarda-chuvinha que eu só via em filmes. Por décadas, o barzinho reinou na sala de estar de uma sociedade que aceitava abertamente formas brandas de alcoolismo. Nas novelas, nos filmes, nos seriados e na vida real, os destilados não eram apenas um elemento de celebração ou um afogador de mágoas, mas também fazia as vezes de cafezinho em reunião, relaxante muscular e acessório de gravata (ao menos na TV, não conheço ninguém que tenha conseguido afrouxar uma gravata sem um copo de uísque na outra mão entre 79 e 87).
Nos anos 90, o BARZINHO caiu em desuso. Talvez seja uma maior consciência da população em geral quanto à problemática onipresença do álcool no dia-a-dia, talvez seja simplesmente o ciclo de vida e morte aplicado a um elemento de decoração, mas o fato é que cada vez vejo menos casais e famílias jovens que detém um BARZINHO em casa. Os que ainda detém não o fazem porque precisam do BARZINHo, porque ele é uma espécie de pivô na vida social ou familiar, mas simplesmente… porque sim. Porque era assim na casa dos seus pais e que assim seja na sua casa, ainda que ninguém mais beba vermute, campari ou afrouxe a gravata quando chega em casa com um copo de uísque na mão (embora a Você S/A tente, os yuppies não venceram).
O BARZINHO não é eterno. Desde 1987 ele vem sofrendo seguidos revezes como elemento de mobiliário doméstico E profissional. É apenas uma questão de tempo para que o barzinho suma completamente do mapa ou ressurja transvestido de modernidade, provavelmente com uma pitada de nostaliga ou forte ironia, aí de forma mais inofensiva e totalmente integrado aos hábitos correntes.
Em suma: com a mídia online é a mesma coisa. O hábito de se investir mais em mídias “não-online” é muitas vezes apenas isso, um hábito. E como todos os hábitos, é difícil de ser mexido. Como o BARZINHO, a dissonância entre o investimento e o consumo de mídia online com o tempo vai simplesmente desaparecer. Gritar e espernear são as formas menos produtivas de se dissolver um hábito, muito embora seja catártico e às vezes divertido. Gente da velha guarda já viu de tudo nessa vida (olha que aconteceu coisa nesse meio publicitários dos últimos 40 anos) e não vai se impressionar com terrorismo de evangelizadores digitais. Então em vez de fazer cara de apavorado, reclamar da suposta ignorância alheia e tentar criar pânico, talvez o melhor seja oferecer calmamente a toda uma geração a oportunidade de sentar e poder afrouxar a gravata usando as duas mãos.
5 Comentários




Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

12 de setembro de 2009 às 15h26
Quando a internet “barzinho” começar a dar dinheiro de verdade, pode apostar que os grandões vão ser os primeiros a afrouxar a gravata e brindar com o copo de uísque mais uma fonte de dinheiro.
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14 de setembro de 2009 às 17h08
Meu barzinho aqui na sala sou eu que tô construindo e recomendo. É ótimo ter um bar para pequenas reuniões com os amigos e tals. Bebo vermouth extra dry direto. De resto, trabalho com marketing online mesmo. :)
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14 de setembro de 2009 às 17h15
Veicular numa pagina da Época custa uns 150 mil reais, a produção é simples e agência ainda abocanha 20%. Uma página na Veja é bem mais caro. Um comercial no Jornal Nacional nem se fala. E há sempre os 20%. Entre produzir para essas midias de massa, caras, mas que rendem um bom BV, e anunciar em um meio que ainda carece de variedade decanais (temos menos de 10 portais grandes no Brasil), e o restante está pulverizado, qual vai ser a escolha dos que controlam o dinheiro dos clientes?
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14 de setembro de 2009 às 18h02
Segundo as revistas de decoração – eu escrevo para uma – o barzinho virou uma inofensiva bandeja com umas duas garrafas e uns copos apoiada em um móvel da sala.
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14 de setembro de 2009 às 18h19
Olhando pelo lado filosófico da coisa existe também o fato da internet ser considerada um grande barzinho mundial. A maioria das coisas são informais e isso pode prejudicar a imagem de algumas marcas se relacionadas. Claro que existem as anunciadores internetescas bem sucedidas, mas, como tu mesmo disse no texto, precisamos de calma, nem todos são tão dinâmicos quanto o Sílvio Santos.
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