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A Bandeira Laranja

“É preciso ir fundo.”
“Fundo até onde?”
“Se há onde, ainda não é fundo o suficiente.”

João acordou com esse sonho. As costas duras, o pescoço duro, as opções engessadas. Subiu até o terraço e agitou a bandeira. Ele tem uma bandeira. Um enorme estandarte laranja. Sempre que se pega deprimido, não toma comprimidos, não bebe, não reclama, não chora, não fuma maconha. Sobe em cima do prédio e agita uma bandeira laranja. Uma vez quase caiu, estava ventando e chovendo. Se desequilibrou e foi salvo por uns cabos da NET.

Faz treze dias desde o impacto e a cada noite ele acorda com uma conversa entre pessoas conhecidas sem saber se aquilo foi dito ou não. Antes de despertar totalmente, já está no terraço com a bandeira laranja. Esses dias um cara desceu flutuando do norte e ficou observando a cena: João brandindo o mastro pra lá e pra cá, fazendo tremular o enorme pedaço de tecido com o céu escurecido como pano de fundo.

“Por que você faz isso?”
“É meu antidepressivo.”
“Como assim?”
“Se eu acordo mal, venho aqui pra cima bandeirear e melhoro. Consigo dormir.”
“Como assim acorda mal?”
“Acordo mal. Me sentindo vazio, sem respostas.”
“Sem respostas pra quê?”
“Pra qualquer pergunta.
“Não entendo.”
“Você não precisa entender. Você vem voando do norte. Não tem que entender nada.”
“Agora entendi menos ainda.”
“Toma.”

Entregou a bandeira ao ser. E sentou na caixa d’água.

“E agora?”
“Agora balança de um lado pro outro.”

O cara balançou.

“É isso?”
“É.”

Devolveu a bandeira a João, que voltou a bandeirear enquanto o outro observava sentado.

“Interessante.”
“Gostou?”
“É bom.”
“Pois é. É o que funciona pra mim.”
“Você faz por isso?”
“Por isso o quê?”
“Por essa sensação?”
“É.”
“Só isso?”
“Me basta.”
“Não parece.”
“É? Mas me basta.”
“Empresta de novo.”

O homem que veio do céu pegou a bandeira de João, quebrou o mastro no joelho e jogou tudo lá pra baixo.

“Por que você fez isso?”
“É preciso ir fundo.”
“Fundo até onde?”
“Se há onde, ainda não é fundo o suficiente.”
“Me diz: quem é você pra quebrar minha bandeira?”

Mas o cara já tinha alçado vôo, flutuando com calma de volta para o norte.

“Desgraçado!”

***

A Bandeira Laranja saiu na Mais Soma #13. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.

Aliás, a história do João está sendo toda contada na Mais Soma. A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

1 Comentário
por: Gustavo Mini tags: ,

1 Comentário

Pingback por A Saga de João - Epílogo - Conector - OESQUEMA
1 de dezembro de 2009 às 8h46

[...] A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos. A quarta é A Bandeira Laranja. [...]

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