OEsquema

Miranda July & Cecil B DeMille

Mas o que que é isso? Isso é a Miranda July aprontando mais uma das suas, dessa vez com a conivência da revista novaiorquina Vice (onde foi publicada a série) e do fotógrafo Roe Ethridge. July, como é bem do seu feitio, sugou figurantes de filmes como Vidas Sem Rumo, Nos Tempos da Brilhantina, Kramer Vs Kramer, O Poderoso Chefão, entre outros, “recortou-os” dos fotogramas e reencenou seu papel em fotos onde ELES são o personagem principal. Não apenas principal, mas ÚNICO.

A minuciosa arqueologia de July e Ethridge é doce e inspiradora, mas também é um golpe baixo e um sintoma muito interessante sobre o espírito do nosso tempo. O golpe baixo vem da escolha de Miranda de filmes que caminham no inteligente limite entre o cult e o mainstream. É uma seleção fina que pende ora para o estilo cinemateca (Vidas sem Rumo), ora para o glorioso Sessão de Gala (Kramer Vs Kramer), mas que têm em comum um apelo visual nostálgico muito forte. Se cozinharmos a fotografia e o figurino desses filmes, sem grandes dificuldades vamos chegar em estéticas bastante utilizadas hoje em revistas como a própria Vice.

Graham, gurizão do blog Future Shipwreck, escreveu com um certo ar compassivo que o trabalho da Miranda July resgata figuras que foram destinadas ao total esquecimento, criadas especificamente pra serem invisíveis. Sem dúvida essa visão tem um apelo poético, especialmente quando ampliamos a questão do figurante pra vida real. Lembro automaticamente de Shady Lane, uma das músicas mais bonitas do Pavement, na qual Stephen Malkmus canta com melancolia: “You’ve been chosen as an extra to a movie adaptation of the sequel to your life” – “Tu foi escolhido como figurante numa adaptação pro cinema da sequência da tua vida”. É o cúmulo da humilhação na era do tudo-é-mídia-todos-estão-na-mídia.

Por outro lado, existe mais de uma via pra se enxergar o trabalho da Miranda July. Uma delas é essa busca intensa por protagonismo. Declarada no bilhete que abre a série no site da Vice, essa forte intenção de não ser simplesmente parte da paisagem é inata da cultura americana e ganhou nos últimos anos um caráter endêmico. Com a quantidade de ferramentas digitais de produção e distribuição de conteúdo, bem como as inúmeras novas formas de comunicação, não faz mais sentido ser um extra ficar lá trás. A internet, especialmente, tem esse caráter de trazer para a frente todos os extras. Todo mundo é figurante e todo mundo é protagonista, depende de quem está no comando do teclado, dependendo do ponto de vista.

Existe uma frase clássica da indústria do cinema a respeito de figurantes. Não tenho bem certeza, acho que é do diretor de épicos religiosos Cecil B. DeMille. Rezalenda que, de megafone na mão, ele gritou certa vez pra uma multidão que se preparava pra encenar uma batalha: “Não sejam figurantes! Sejam uma nação!”

Esse é bem o tipo de chamado bastante sedutor – sessenta anos atrás.

Já hoje, oito em dez palestrantes de publicidade adoram dizer que “Se o Facebook fosse um país, seria maior que o Brasil.” Pois é. Os figurantes já se tornaram uma nação, DeMille e seu megafone não são mais necessários. Os grandes chamados se diluiram. E a questão é o que fazer quando você faz parte de uma superprodução onde você e todos os figurantes em algum nível também são os atores principais.

Tempos interessantes.

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por: Gustavo Mini postado em: Arte tags: , , , , , ,

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