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Sobre liberdade & edição

O Tiago Dória recentemente comentou que estamos vivendo na era do desmanche do conteúdo. Adorei essa expressão que resume bem um jeito de viver contemporâneo. É aquela coisa: em vez de ouvir discos inteiros, estamos preferindo músicas individuais que coletamos e selecionamos de acordo com a nossa preferência. Ou então, em vez de ler todo o conteúdo de um só portal de notícias, escolhemos matérias específicas de diferentes fontes de informação na internet.

Isso me lembra um assunto freqüente que vi no “Twitter” há alguns meses: pessoas de mau humor reclamando do mau humor do “Twitter”. As aspas são propositais: não faz sentido reclamar do Twitter, mas talvez sim do “Twitter”. O primeiro, sem aspas, é a ferramenta, algo neutro, cujo usuário decide como vai utilizar. O segundo, com aspas, é o consolidado. Aquela telinha com um conteúdo de pessoas que EU decido seguir (e não o programador da rádio), onde EU sou o editor (e não o diretor de programação do SBT), onde EU fiz a escolha (e não o chefe de redação da Folha). Se o MEU “Twitter”, com o grupo de seguidores que EU montei, está chato ou repetitivo ou insosso ou irrelevante, a responsabilidade é toda minha (e não do editor da Veja). É mais ou menos como brigar com o shuffle do mp3 player por ele estar tocando só música ruim.

A questão toda é que o desmanche do conteúdo coloca nas mãos de nós, ouvintes, leitores, espectadores, a responsabilidade de editar obras artísticas e informações. Todos nós – e não apenas os “formadores de opinião” ou os “curadores” – estamos nos tornando de fato editores e cada vez mais temos duas coisas: primeiro, a liberdade de escolha. E em segundo lugar, a responsabilidade. Porque se nós é que estamos escolhendo e selecionando, também não podemos mais botar a culpa em ninguém da má qualidade do que consumimos em termos de informação e entretenimento.

***

Ilustração roubada do blog do Guy Deslile.

Post inspirado num texto que gravei para o Minimalismo na Oi FM.

12 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Minimalismo tags: , , , , , , ,

12 Comentários

Comentário por Amauri Gonzo
15 de outubro de 2009 às 10h37

Mas outra coisa é que essa edição também significa relações interpessoais. Aposto que muita gente que reclama do mau humor do “Twitter” não deixa de seguir os tais mau-humorados porque são de alguma forma importantes nas relações interpessoais – trabalham juntos, são amigos, parentes, clientes, fornecedores, pessoas com sacos a serem puxados ou até pessoas legais que se transformam em malas no mundo dos 140 caracteres. Como primamos pela informalidade pessoal até nas relações profissionais, é impossível que isso não afete nossa vida social na internet. A pergunta é – essa rede de conexões informais, toda dotada de valores pessoais, que é quase necessária no contexto do usuário brasileiro, melhora ou piora a qualidade da informação recebida?

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Comentário por Andre
15 de outubro de 2009 às 11h14

eu só tenho achado essa “liberdade de escolha” cada vez mais limitada. Uma falsa liberdade, na real.
Sinto como seu fosse livre pra escolher entre uma coisa e a mesma coisa, só que de outra cor. E tudo o que não for esta coisa em suas várias versões é descartável ou até fora de cogitação.

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Comentário por duda
15 de outubro de 2009 às 13h40

Mudança de paradigma:

sec 20 – escassez e dificuldade de acesso a informações
sec 21 – excesso de informação e dificuldade de edição

É claro não sejamos inocentes certas áreas o acesso ainda continua restrito , mas já foi bem pior e essa dificuldade de edição é mais ou menos aquela frase “para quem não sabe qual caminho quer pega um qualquer”

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Comentário por Filipe
15 de outubro de 2009 às 13h47

Os reclamões sempre têm do que reclamar. Mesmo que seja da imagem que veem no espelho. Texto legal, simples, curto e mt bem feito.

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Comentário por eu
18 de outubro de 2009 às 11h00

que clichê. Isso já é dito há anos por inúmeros pesquisadores, conhecidos ou não. Do jeito que vc falou, parece inovação. tsc tsc…

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Comentário por Elianne-Laura Diz
18 de outubro de 2009 às 12h11

Mt bom seu texto. Comentários tb inteligentes.
Preciso pensar mais sobre o Twitter. Tem me incomodado a besteirada do “twitter”, tenho deixado de seguir mtas pessoas que tentam fazer graça c jogo de palavras ou mau humor- ou papos q não me interessam em absoluto-tipo: realbonner e sua gravata.
Outros, mm c intenção de passar mau humor como um traço pessoal, deixam escapar a farsa, e os sigo por enxergar além disto.
Adoro o @bomdiaporque, por ex.
Como sou escritora gostaria de mais conteúdo aqui, mas é uma fantasia minha- sempre acho q podemos melhorar as pessoas- sou psicanalista. Enfim, seguimos nos seguindo.
Vou te seguir, procurar seu @ por aqui.
Abs, Laura
@lauravive

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Pingback por Sobre liberdade & edição » CrisDias weblog
18 de outubro de 2009 às 15h53

[...] Sobre liberdade & edição Isso me lembra um assunto freqüente que vi no “Twitter” há alguns meses: pessoas de mau humor reclamando do mau humor do “Twitter”. As aspas são propositais: não faz sentido reclamar do Twitter, mas talvez sim do “Twitter”. O primeiro, sem aspas, é a ferramenta, algo neutro, cujo usuário decide como vai utilizar. O segundo, com aspas, é o consolidado. Aquela telinha com um conteúdo de pessoas que EU decido seguir (e não o programador da rádio), onde EU sou o editor (e não o diretor de programação do SBT), onde EU fiz a escolha (e não o chefe de redação da Folha). Se o MEU “Twitter”, com o grupo de seguidores que EU montei, está chato ou repetitivo ou insosso ou irrelevante, a responsabilidade é toda minha (e não do editor da Veja). É mais ou menos como brigar com o shuffle do mp3 player por ele estar tocando só música ruim. via oesquema.com.br [...]

Comentário por Arnaldo
19 de outubro de 2009 às 6h55

Por que tantos comentaristas anônimos assinam “eu mesmo”? É pra gente admirar a coragem de dizer as coisas na nossa cara, decerto…

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Comentário por Gustavo Mini
19 de outubro de 2009 às 9h37

Amauri: boas questões. Primeiro, acho que sim, acho que muita gente mantém em sua edição de informação e entretenimento escolhas por questões pessoais. É normal. É como no dia-a-dia. Conheço muita gente (eu incluso) que tem maior boa vontade com conteúdos que não considera tão bom porque é de alguém conhecido. Quantos conhecidos meus não consomem o meu conteúdo só por conta do relacionamento? Acho que faz parte da coisa toda. Me lembro também que muitas cidades tem suas bandas preferidas. Por exemplo: conheço gente que torce o nariz pra Superguidis aqui de Porto Alegre, mas que abraça bandas similares ou piores da sua cidade. E por aí vai. Entende? Não acho que esse tipo de coisa piore o conteúdo. Acho que é preciso cuidado pra não se entrar numa busca fundamentalista por qualidade de conteúdo, como se isso fosse a única coisa importante do mundo. Gente de más intenções com conteúdo ótimo: eu passo.

Andre: esse é exatamente meu ponto! Não é uma falsa liberdade. Você tem liberdade pra furungar mais até achar o diferente. Não é possível que você não encontre.

Elianne: também penso como você. Mantenho nas minhas fontes alguma pessoas cujo conteúdo “externo” não me interessa, mas cuja forma de se relacionar com os assuntos me adiciona algo, me ensina. Temos várias camadas pra nos relacionarmos com conteúdos e pessoas, né.

Arnaldo: sem comentários né… inacreditável…

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Comentário por Manoel Leonam
19 de outubro de 2009 às 14h51

Arnaldo, espero que você não se importe de eu viajar um pouco nesse meu comentário:

A forma como informação é passada hoje, sobretudo na internet (mas, de certa forma já anunciada na TV), é radicalmente oposta a forma tradicional, Isto é, a forma livresca. A informação é sincrônica, muito ligeira e quase sempre parcial e caótica (imagens, links que levam a mais links, comentários sobre o comentário, manipulações sobre manipulações de obras que nunca se chega ao original, e por ai vai). É difícil lidar com isso quando a educação ainda é pautada por formas diacrônicas de transmissão do conhecimento. Eu já ouvi algumas pessoas reclamarem que se perde a profundidade do conteúdo e é uma transmissão superficial de idéias. Por outro lado, a informação hoje tem uma agilidade que nunca teve antes, a profundidade já não mais tão importante — ela ainda tem importância, claro, mas na maioria das vezes o que se busca é apenas o pedaço de informação de utilidade imediata para o que se pretende fazer. O indivíduo pode se apoderar apenas de trechos de informações úteis pra ele, para resolver questões imediatas sem a necessidade de ter que ler todo um compêndio, por exemplo. Essa superficialidade ágil pode ser boa. o problema é quando nesse mar caótico de troca de links, a pessoa se vê perdida sem critérios para reconhecer o que realmente é útil para ela e passa a replicar um monte de informação fragmentada e totalmente irrelevante pra ela mesma e para os outros para quem ela indica, acabando sendo arrastada por uma espécie de redemoinho. Nessa hora sim, é necessário um conhecimento mais profundo sobre algo para ter algum critério para tirar proveito da velocidade rasa.

E esse é o ponto, a dificuldade das pessoas, e acho que ninguém escapa disso, de se escolher e selecionar a informação que consumimos. Principalmente quando fomos educados para contar com uma pré-seleção dos editores, professores, eruditos, apresentadores de tv ou qualquer outra coisa que cumpra essa função. ( e a relação com o tempo está bem diferente, quem tem tempo de ler guerra e paz na urgência do mundo de hoje?). Quando somos responsáveis por selecionar por nós mesmos surge a grande dificuldade. Um exemplo bom desse efeito da web 2.0 é a Wikipédia, a qual iguala de uma maneira estranha (e enganadora) artigos escrito por anônimos a artigos escritos por especialistas de verdade, graças a velocidade com que seu conteúdo é replicado pela rede. Quem é o culpado por uma informação errada nesse cenário? Quem produz o conteúdo ou quem o repassa na velocidade da luz? Quando somos nossos próprios editores é difícil nos isentarmos de culpa sobre a qualidade da informação que consumimos.

Foi mal o tamanho do comentário…

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Comentário por Gustavo Mini
19 de outubro de 2009 às 15h26

É, Leonam, esse é justamente o ponto do Marc Prensky, o cara que cunhou os termos “digital natives” e “digital migrants”. É preciso um novo tipo de processo educativo que ensine também habilidades de edição de conteúdo pra auto-consumo (faz tempo isso, na verdade, né?). É aliar o bom e velho espírito crítico com um olhar distanciado da linguagem contemporânea que permita perceber padrões. E pra isso também é importante aprender a parar e olhar.

Na velocidade, a única saída é aprender a respirar fundo, parar e olhar ao redor. E não vamos botar a culpa nas “novas gerações” por conta da velocidade, uma vez que o acelerador vem sendo pressionado faz algumas décadas já.

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Comentário por flávia d.
23 de outubro de 2009 às 1h06

> Aposto que muita gente que reclama do mau humor do “Twitter” não deixa de seguir os tais > mau-humorados porque são de alguma forma importantes nas relações interpessoais –
> trabalham juntos, são amigos, parentes, clientes, fornecedores, pessoas com sacos a
> serem puxados ou até pessoas legais que se transformam em malas no mundo dos 140
> caracteres.

é por aí… ;~~

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