4 de novembro de 2009 às 10h44
Como desatar nós
Não sei se o nó na garganta tem registro na literatura médica. Mas sei que todo mundo conhece e que ele é assunto em diversas terapias corporais, especialmente aquelas que consideram o corpo como algo além do que um amontoado de células, uma estrutura que também guarda e elabora emoções. Falar sobre a conexão entre elas (as emoções) e o corpo físico não é exatamente minha especialidade. Minha experiência é muito mais empírica, de paciente, do que propriamente a de um estudioso formal. É com esse espírito que toco no assunto nó na garganta x MSN.
Ambos, acredito, são bem conhecidos por você. O nó é aquela sensação de algo entalado na garganta: uma discussão não elaborada, uma raiva mal digerida ou um “sapo engolido” – e coloco aspas aqui porque, ao contrário do que reza a expressão popular, é da natureza dos sapos se agarrar nas paredes da laringe em vez de descer para o estômago.
Existem muitas formas de lidar com o nó na garganta. Vocalizações, exercícios posturais, massagens e visualizações fazem parte do cardápio, mas a maior parte das pessoas gosta mesmo é de falar sobre o assunto que causou o nó na garganta (muitas vezes na companhia de uma cerveja). Mais intenso ainda e talvez mais eficiente (ao menos a curto prazo) é chorar. Falar e chorar não apenas mexe fisicamente com a garganta, mas também libera o peito, provavelmente mexe com todo o corpo. Não sei bem. Mas acho eu que todo mundo (ou quase todo mundo) conhece o alívio de falar ou chorar sobre algo que está trancado.
Acontece que há alguns anos entraram em cena os instant messengers como ICQ, AOL Messenger, o mais popular no Brasil, o MSN. Vamos combinar que o MSN talvez devesse ser estudado por faculdades de psicologia pois está substituindo muitas mesas de bar no quesito local-de-desabafo. Quantas pessoas você não conhece que já teclaram cachoeiras e mais cachoreiras de letras e emoticons na tentativa desesperada de desaguar alguma mágoa?
O MSN é prático para desabafos pois pode ser utilizado a qualquer hora do dia ou da noite, durante o trabalho, enquanto você assiste TV, enquanto come, até mesmo enquanto outra pessoa envolvida no problema está circulando pela casa. O desague pode incluir imagens, links ou músicas que tenham a ver com o assunto. Melhor ainda, tem à disposição uma grande variedade de winks que exprimem sentimentos difíceis de serem colocados em palavras. O MSN oferece anonimato a quem precisa, proteção para que olhos inchados e vermelhos não sejam vistos por mais ninguém, bem como uma lista de “ouvintes” a que você pode recorrer: alguém sempre vai estar disponível pra “ouvir” você e, diante da intimidade instantânea de alguns contatos digitais, nem sempre precisa ser um grande amigo.
(Agora eu vou me dar o direito de pular toda aquele blablablá a respeito das conexões reais e virtuais, sobre quem é amigo de verdade e quem não é, sobre a fraqueza de muitos laços digitais, todos esses clichês do momento. Não vamos pensar dentro desse contexto!)
O ponto é: o MSN é eficiente pra desfazer nó na garganta? Eu acredito que não totalmente. Não há como negar que qualquer contato humano é melhor do que nenhum contato e que um pouco de atenção às vezes basta para detonar um processo de elaboração de um obstáculo. Mas também é preciso dar atenção ao fato de que um longo desabafo pelo MSN geralmente é feito por DEDOS e não usando a garganta. Da mesma forma, o corpo, em frente ao computador, geralmente está tenso ou mal acomodado. Os sentimentos expressos no desabafo pelo MSN percorrem um caminho confuso: rebatem entre o peito e a garganta enquanto os dedos e o cérebro funcionam a todo vapor. Sem um complemento de trabalho físico que ajude a dissolver os nós, uma hora vai dar problema na máquina.
ESSA máquina, não aquela.
O post termina aqui sem terminar. Não é um post-resposta, nem um post-proposta. É um post-pergunta. Juro que não é um post-preguiça, só não quero escrever besteira demais.
Os comentários estão à disposição dos terapeutas e pacientes.
***
Imagens gentilmente roubadas daqui.
10 Comentários






Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

4 de novembro de 2009 às 11h10
de acordo.
eu sinto que, pelo menos os meus desabafos são mais eficazes quando eu converso.
desabafar via msn cansa e pode até trazer tendinite. :/
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4 de novembro de 2009 às 11h13
acho que os fins justificam os meios nesse caso.
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4 de novembro de 2009 às 11h14
Muito bom.. Pra variar, na mosca…NADA substiuti o contato humano, principalmente na hora do aperto.
Abraço.
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4 de novembro de 2009 às 14h28
sim, semana passada LIGUEI para uma amiga, para desabafar, tentar engolir aquele sapo e tal e a mina me responde VAI NO MSN ¬¬
poxa ;~~
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4 de novembro de 2009 às 20h54
quem resolve os problemas não são os outros, mas tu mesmo, munido da percepção do próximo acerca do teu problema.
MÃS
mesmo assim, o téte a téte é insubstituível. Pra nós, os velhos.
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5 de novembro de 2009 às 10h55
Bah gente, eu acho que as vezes o desabafo no MSN é válido. Nooossa, quantas vezes eu tava com baita nó no estômago..sim os meus são no estômago, e consegui aliviar muito, teclando com amigos, conhecidos ou parentes ali conectados. Nada melhor do que um colo, um abraço, um carinho de alguém num momento de tristeza…mas eu considero o MSN uma das praticidades de hoje em dia pra afogar mágoas…..
Enfim…
Acho também que pode haver mais privacidade pra desabafar no msn…no telefone tu tem que se afastar, se não todo mundo vai escutar tua triste história….
Eu sou a favor do msn…. nem sempre, mas é uma opção pra desfazer nós e bolas da garganta e estômago!
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5 de novembro de 2009 às 12h54
Realmente, o MSN não substitui o calor e o contato ao vivo e a cores, em carne e osso. Mas há uma vantagem no instant messenger que é o do processamento da ideia, da reavaliação do conteúdo e da escolha das palavras na hora de desabafar e “ouvir” um desabafo. Me refiro àquele centésimo de segundo que existe entre o clique no send e o não-clique. Quer dizer, ao vivo, depois que algo foi dito, foi dito e pronto. O MSN permite talhar e modelar melhor o quê dizer e, talvez mais relevante ainda, COMO dizer alguma coisa. Quem sabe, é um melhoramento da nossa expressão. Mas muito mais provável é que seja uma defesa contra os nossos sentimentos mais sinceros e profundos… Mandei.
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5 de novembro de 2009 às 18h03
Já faz mais de ano que leio diariamente o Urbe e o Sujo, hoje, sabe-se lá por que, resolvi clicar no Conector. Que boa surpresa!
E os nós na garganta precisam de gente pra desatá-los. O brilho irritante do monitor te dá do máximo aquela corzinha linda de secretária.
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5 de novembro de 2009 às 21h11
Eu dou uns berros no carro quando estou num lugar sem movimento. Aqueles de ficar rouco. O sapo pode não sair, mas vai ficar meio tonto.
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1 de dezembro de 2009 às 16h35
“tentar engolir aquele sapo e tal e a mina me responde VAI NO MSN ¬¬
poxa ;~~”
Que engraçado. Resolvi desabafar com um amigo por msn e ele prontamente perguntou: nossa, quer que eu te ligue? =(
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