24 de novembro de 2009 às 9h25
Sobre ir fundo em camadas horizontais
David e Maggie Loony se conheceram, namoraram e viveram casados por 40 anos. Ao longo desse tempo, tiveram três filhos, Dennis, Claire e Peter, que foram criados em uma casa de três andares na praia. Agora, beirando os 70 anos, papai e mamãe Loony chamam os filhos de volta à casa para um último aviso: eles estão se separando. Dennis pira, Claire reflete sobre o próprio divórcio e Peter… bem, Peter é o único que não é retratado com uma cabeça humana, mas com a de um sapo. E, não sei se tem a ver com isso, Peter encontra uma oportunidade de respirar.
Umbigo sem Fundo é isso: pura investigação humana usando como ferramentas a dissolução, a manutenção e a construção de laços familiares, usando um arsenal de escolhas narrativas e estéticas que faz o livro não parecer as 720 páginas que tem. Como objeto, Umbigo Sem Fundo é pesado e chato de carregar. Mesmo assim, eu o levei pra ler na praia, porque, como obra, a densidade e o peso do assunto são temperadas com um olhar amplo que empresta leveza e espaço pra que qualquer leitor (mesmo que não seja americano e filho de pais idosos se separando) possa se identificar com algum aspecto do impacto da decisão de David e Maggie. Conscientemente ou não, o que o jovem autor Dash Shaw fez foi transformar os meandros dolorosos da micro-saga dos Loony em um buffet de pequenas questões universais que pode ser acessado – como os bons buffets – por vários lados.
E assim o mundo anda. Página após página, podemos observar o desdobramento do divórcio dos Loony através diversas camadas: temos o discurso, as palavras, o que é dito pelos personagens; temos as onomatopéias, que são tão presentes na história como os ruídos do dia-a-dia são em momentos embaraçosos; temos as escolhas anatômicas dos personagens (Dennis é meio Homer Simpson, Peter é meio Caco dos Muppets); temos as decisões estéticas e técnicas de linguagem de quadrinhos (Shaw usa quase tudo que é possível usar); temos os cenários, os móveis, o céu, a areia, o mar, todos fazendo as vezes de apoio visual para pequenos dramas; e, por fim, temos a casa dos Loony, personagem fundamental na trama por servir de território de busca física e emocional, de Dennis e sua sobrinha Jill.
Pra completar, o traço de Shaw ainda se localiza numa espécie de limbo técnico: parece rascunho, mas é detalhista; é detalhista, mas parece relapso; é relapso, mas bate fundo. Como se isso não bastasse, a edição brasileira (talvez a americana também, não sei) vem impressa (por quê?) em uma cor bege, o que é perfeito para o tom da história já que pouca coisa entre os Loony é, em termos de sentimentos, só preto ou branco.
Bom, a essa altura talvez você já tenha notado… uma família disfuncional, uma casa na praia, um narrador que oferece espaço para a história se desenrolar e gosta de usar cenários e objetos como personagens. Se você juntar A com B, vai perceber que Umbigo sem Fundo se insere em toda uma linhagem americana de autores que trabalham dessa forma. Nos quadrinhos, já falei aqui sobre a recente Fun Home (aqui e aqui), por exemplo. No cinema, não é difícil lembrar de Margot e o Casamento, A Lula e a Baleia, e Tempestade de Gelo, Os Excêntricos Tennenbauns, pra ficar em algo recente (alguém lembra de coisas mais antigas nesse sentido?) Se algum desses títulos calou fundo aí, não pense duas vezes sobre adquirir o pesado tomo de Umbigo sem Fundo. Também é um bom presente de Natal para um amigo ou parente que gosta de boas histórias desenhadas.
Exemplares autografados por Shaw durante a Bienal do Rio.
Uma última nota curiosa: diferente do que esse tipo de graphic novel/filme/romance possa sugerir (e quanta terapia disfarçada de literatura se faz nesse sentido!), Dash Shaw disse em entrevista à New Yorker que o livro não é autobiográfico. A família do autor sempre foi tranquila, seus pais estão juntos até hoje e, segundo ele, tem muito pouco dos Loony. O que talvez explique a poesia de Umbigo Sem Fundo: pra enxergar com tantas nuances certas tragédias, é preciso 1) a capacidade de se distanciar ou 2) estar de fato distante delas.
***
Bom, aqui tem dois links interessantes caso você queira ir um pouco mais adiante. Mas minha sugestão é a seguinte: leia o livro primeiro, depois explore as entrevistas.
Em todo caso, aqui estão elas.
Em inglês, pra New York Magazine: How Dash Shaw Wrote The Graphic Novel of The Year.
Em português, pro Grito.
E também, pra facilitar sua vida, comparação de preços no Buscapé.
Boa leitura.
6 Comentários







Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

24 de novembro de 2009 às 12h36
Belo texto. Espero que tenha gostado da tradução (diz o tradutor).
O original também é impresso em marrom-areia. Quanto aos filmes, não sei bem por quê, fora algumas coincidências de história, UMBIGO me lembra DANS PARIS. Se bem que, na real, DANS PARIS me lembra muita coisa.
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25 de novembro de 2009 às 8h12
Olá, será que você poderia indicar mais livros do mesmo estilo … em ‘quadrinhos’ ?
valeu, abraço !
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25 de novembro de 2009 às 14h12
Érico, nem percebi a tradução. O que é uma boa coisa, né?
Frederico, tem o próprio Fun Home que eu citei no post. Agora me fogem, mas procure por autores como Adrian Tomine, o Epilético do David B., o Persépolis… e como influência disso tudo, Robert Crumb (especialmente as autobiográficas!!!), Will Eisner (saiu um compiladão de história de Nova Iorque bem bacana)… tem o Preto no Branco do Allan Sieber (menos sentimental, mas engraçado) e por aí vai…
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26 de novembro de 2009 às 9h06
Valeu, vou dar uma olhada :-)
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4 de agosto de 2010 às 14h44
metendo o bedelho nos comments alheios…
umbigo sem fundo é lindo mesmo, e não é fácil de ler. falando em graphic novels gênias, tu leu retalhos? li antes de umbigo sem fundo e foi arrasador.
érico, achei curioso o link de dans paris com umbigo sem fundo e olha que adoro o filme. o christophe honoré vive dessas homenagens a nouvelle vague e a cultura pop, realmente é difícil não achar conexões com vários filmes.
eu entrei numa fase que tô muito mais afim de ler bons quadrinhos do que bons romances. não sei se é um pouco de vício snack culture ou se é porque os quadrinhos andam realmente bons, ou os dois.
ah, o bordados, novo da satrapii tá lindo. mas como é mulherzinha não sei se pros guris terá o mesmo impacto :p
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6 de agosto de 2010 às 9h59
Alana, também estou nessa fase. É que tem saído coisas boas mesmo. Já leu os livros do Guy Deslile? Vale a pena. Também gosto muito da Marjane Satrapii.
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