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A Saga de João – Epílogo

João nasceu de uma intenção. Seus pais não chegaram a se conhecer, se amar, se tocar, que dirá fazer sexo. Ainda assim, em 1979 brotou no ar a possibilidade que os dois se cruzassem e dali nasceu João.

Jairo, o pai de João, tocava escaleta na banda do colégio. Mariana, mãe de João, era baliza. Os dois viajariam juntos para um torneio de bandas marciais em Três Cachoeiras, mas
Mariana teve cachumba e ficou em casa, sofrendo muito, lendo um pouco e descobrindo o tarô. Jairo, por sua vez, passou a viagem toda de ônibus desenhando homens com capa e espada ao lado da guria que anos depois seria sua esposa e com quem teria três filhos. Nenhum deles era João.

Mariana não teria filhos. Dedicaria parte de sua vida ao tarô e outra à mãe, doente crônica desde sempre e para sempre. Jairo, mesmo sem conhecer Mariana, vivia irritado com a excessiva dedicação dela à mãe e a certa altura declarou não ter condições de sustentar a relação. Então partiu, deixando Mariana, a mãe e a possibilidade de João nascer em suspenso.

Mariana e Jairo não se conheceram, não se casaram, não trepararam, não se amaram, mas se divorciaram. João, ora, nasceu de uma possibilidade. Apareceu com oito anos de idade, nu, envolto em uma cortina de fumaça no campo do terreno baldio ao lado do colégio e foi adotado por uma freira. É considerado, até hoje, o primero filho dos chamados divórcios quânticos, as rupturas de meras possibilidades amorosas, onda endêmica nos anos 90 e que até hoje persiste sem explicação científica.

Pergunto a João como ele se sente.

“Como qualquer pessoa normal.”

Pergunto de seus planos para a vida.

“Viver e construir meu caminho.”

Peço que seja mais específico.

“Me tornar bom em escaleta e no tarô.”

Comento que eram as habilidades de seus pais quânticos.

“Coincidência.”

João não é amargo. É ingênuo. Peço que toque uma canção na escaleta.

“Neil Young? Ou Roberto Carlos?”

Esse é João. O primeiro filho dos divórcios quânticos da primeira onda. Diga adeus para nossa platéia, João.

“Fuen.”

Tire a escaleta da boca, João. Seus pais não lhe ensinaram bons modos?

***

E assim termina a saga de João, que contei esse ano na MaisSoma.

Epílogo saiu na Mais Soma #14. Tu acha o download da revista inteira em PDF aqui.

A primeira parte da saga dele é Tarô & Escaleta. A segunda é Bloquinhos. A terceira é Cosmos. A quarta é A Bandeira Laranja.

A ilustração (veja grande na revista!) é do Guilherme Dable.

1 Comentário
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Comentário por Diego
3 de dezembro de 2009 às 11h53

Cara, curti muito. Mas o link pra outras partes não tão funcionando.

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