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Filé à pé

Engraçado essas coisas: eu demorei 35 anos pra descobrir que adoro caminhar. E como uma boa parte das coisas que eu gosto na minha vida, eu primeiro recebi isso com um ponta de decepção (“putz, eu gosto de caminhar e não caminho tanto”) pra depois perceber que, ei, de alguma forma, na verdade, eu sempre caminhei bastante, mesmo quando achava que não. O que acontecia é que eu só inventava desculpas pra caminhar e agora que eu descobri isso, não preciso: eu posso simplesmente sair caminhando.

Caminhar também é parte fundamental do meu processo criativo, seja no trabalho, seja pra resolver qualquer outra questão pessoal. E não é que na caminhada eu pense ou raciocine, muito antes pelo contrário. Eu gosto de pensar sentado. Vejo o caminhar como aquela folga dos pensamentos, aquele espaço aberto onde as peças talvez possam se encaixar, caso estejam prontas pra se encaixar. É um espaço criativo no sentido mais passivo. Você abre espaço e deixa que os elementos da sessão anterior de pensamento laborioso façam o que têm que fazer – e se não tiverem que fazer nada, azar o meu.

Descobri que é por isso também que gosto tanto dos trabalhos do Francis Alÿs. Mas o cara, esse artista belga que mora na Cidade do México e de quem já falei aqui, leva a questão da caminhada um pouco além do “simples” processo criativo. Uma boa parte do que ele faz usa o caminhar como linguagem ou como ferramenta. Não é que o Alÿs curta uma caminhadinha. Ele é um caminhante, um botânico da calçadas (essa é do Baudelaire) que flutua entre o envolvimento e o distanciamento com o espaço à sua volta.

Em 2005, eu estava em Barcelona e, depois de caminhar bastante, fui visitar o MACBA numa pilha “o que tiver aí eu vejo”. E o que “tinha lá” era a mostra “A pie desde el estudio”, do sujeito supracitado. A exposição reunia uma série de obras em diferentes suportes todas geradas, segundo as palavras do próprio Alÿs, a partir de “tudo que vi, ouvi, fiz, não fiz, entendi ou não entendi num raio de dez quarteirões a partir do meu atelier no centro histórico da Cidade do México”. Ou seja, pra falar mais tecnicamente, produtos de passeadinhas.

Mas uma passeadinha do Alÿs não é como as minhas passeadinhas. O cara tem a manha, por exemplo, de entrar em uma loja, comprar uma arma e sair caminhando durante doze minutos com um parceiro filmando até que a polícia seja chamada, o aborde e o prenda. Mais do que isso, ele ainda consegue convencer os policiais de que é um… artista e a re-encenar a caminhada COM a participação dos “tiras”. E o que a gente assiste no museuzinho não é o vídeo do primeiro passeio e nem da re-encenação, mas os dois reunidos em uma única projeção, cada um de um lado da tela. Os últimos minutos de “Re-enactement” estão aí em cima.

Coisas de gringo no terceiro mundo. Ou você acha que na Bélgica, terra natal do Alÿs, ele ia conseguir essa mamata? Ou será que assistimos a um típico ato de prevaricação de policiais do hemisfério sul? Ou a um caso isolado de homens da lei fanfarrões sobre o qual estou aplicando meus preconceitos menos sutis? Bom, meu amigo, aí…

(continua)

3 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Arte tags: , , ,

3 Comentários

Comentário por Cris
8 de dezembro de 2009 às 8h47

é. eu tb gosto de caminhar pra organizar as ideias. e tb penso que caminho cada vez menos. e caminho cada vez menos. pelo no sentido de caminhar por caminhar. agora caminho por obrigação de fazer algum exercício. trabalhar longe de casa, tendo que deixar a mulher no trabalho dela no caminho, obriga ao autopasseio diário. por isso quando vou a porto alegre vou de ônibus. os deslocamentos todos caminhado. se for muito longe, um ônibus. táxi só em emergência de desconhecimento do caminho (santo google maps).

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Comentário por Boldrini
23 de dezembro de 2009 às 15h28

Mini, uma vez li uma frase num livretinho e que nunca mais saiu da minha cabeça. E por várias vezes acabei por segui-la: “Se você não tem nada para fazer, faça-o andando”. Abração.

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Comentário por Julio
27 de janeiro de 2010 às 1h52

eu achei 12 minutos um RECORDE em tempo de atuação por parte de uma polícia latino-americana *rs

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