OEsquema

Filé à pé 2

Eu não sei bem qual é a reputação do Francis Alÿs no mundo das artes – e minha pesquisa no Google não foi muito longe. Mas no meu mundo o trabalho do Alÿs se equilibra realmente no limiar entre a reflexão consistente e o mero factóide, a mera construção de uma imagem ou uma história pra gerar bochicho. Uns poucos centímetros mais pro lado e o cara já passaria por uma coisa assim meio pra gerar excitação em vez de gerar significado.

Felizmente, tenho a impressão de que seu trampo tem um pouco dos dois: quase sempre ele gera imagens icônicas, bacanas, atraentes, que servem de gancho para um mergulho mais profundo. Por exemplo, esse adorável cãozinho de material magnetizado que ele puxou atrás de si, como quem passeia com um cachorro de verdade, pelas ruas da cidade do México.

Como era de se esperar, o cão de metal atraiu uma série de detritos metálicos, gerando uma espécie de carapaça. Assim, sem mais nem menos, “The Collector” é uma metáfora tão simples da interação das pessoas com o espaço urbano que chega a ser comovente: todo mundo que caminha por uma cidade leva consigo resquícios da caminhada, seja um pouco da poluição sonora, visual ou atmosférica; sons, cheiros, imagens que preenchem o espaço físico e mental do sujeito, criando também uma espécie de carapaça cuja presença fica bem clara quando ela some depois de um puta ducha no fim do dia – você sabe do que eu estou falando, não?

Bem, o fato é que na tal exposição do Macba que eu vi, o cãozinho de metal recoberto de trecos estava lá, exposto, junto com mapas detonados e marcados com os trajetos de Alÿs na construção da sua “obra”. Se como idéia e como processo o “The Collector” (não vamos esquecer que uma das primeiras atividades do ser humano para sua sobrevivência foi justamente a coleta) é interessantinho, com a presença daquele objeto meio “cão do robocop de terceiro mundo” dava um outro colorido à obra. Ele era mais do que o objeto central da ação, mas, ali no museu, se transformava num gancho muito mais simpático do que os mapas ou qualquer outro material de apoio pro espectador se apoiar em busca de entender o que havia acontecido.

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Nenhum artista deveria negar uma muletinha que seja ao público. Não precisa ser grande, pode ser uma muletinha do tamanho de um palito de dentes. Já ajuda.

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O caso de Paradox of Praxis é covardia. Nele, o Francis Alÿs empurrou uma barra de gelo pela cidade até ela se derreter completamente. Mais uma vez, embora a ação em si seja poderosa, o que conta, o que pega o espectador pelo cangote é a imagem gerada. Uma coisa é você ler ou alguém lhe contar sobre um artista empurrando uma barra de gelo das 9h15min às 18h47min. Outra bem diferente é ver a foto acima.

Esse é bem o tipo de obra que despera desconfiança em muita gente quanto ao objetivo da arte contemporânea. É muito fácil fazer piada com The Paradox of Praxis (veja o vídeo aqui), mas eu acredito que seja mais difícil de rir quando se percebe que ela espelha grande parte das ações humanas face a conceitos como morte e impermanência. Tipo… HOHEUAHAOPEUAHEEHEOEUAHEUAHEUHOUHA…. HAHAOPEUEHASUHAHOPUIEHAH…. HAUEHOHAUA… HAHAHA… HA… HA HA….. HA…. ahn…. bem…

Quem aqui, de certa forma, não está empurrando uma barra de gelo?

(continua)

4 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Uncategorized tags:

4 Comentários

Comentário por Fernando
9 de dezembro de 2009 às 20h29

Primeiro preciso dizer que tenho acompanhado o blog há muito tempo e preferia só guardar os posts interessantes dentro do meu google reader, mas quando você começou essa série falando do Alÿs, deu vontade de comentar.

A questão da arte contemporanea, especialmente o que se chama de arte conceitual é que, ao mesmo tempo que é absurdamente hermética e facilmente vista como picaretagem. Mas por outro lado quanto mais você mergulha nesse universo, mais dificil é você ter a mesma ingenuidade ao observar a vida, esse pessoal injetou uma dose pesada de intenções, conceitos e camadas de discussões por trás de ações banais como riscar uma série de linhas em uma parade seguindo uma sentença clara de instruções, ou mesmo se jogar de telhados como o Bas Jan Ader. Aliás, tá ligado que o cara sumiu do mapa quando cruzava o ocenano num barquinho, outro projeto que pelo jeito acabou sem uma conclusão?

Falando em caminhada, lembro do Richard Long e suas paisagens captadas em longas caminhadas. Aqui no Rio tem o Cadu codificando paisagens por meio de sistemas que lembram o Sol LeWitt…

é isso aí, continua a série que tá sensacional,

grande abraço!

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Comentário por Gustavo Mini
10 de dezembro de 2009 às 9h32

Aí, Fernando, obrigado.

A questão da perda da ingenuidade é interessante e mexe comigo também. No zen budismo, tem um ditado que diz mais ou menos assim: “Quando você começa a meditar, as montanhas são montanhas e os rios são os rios. Depois de um tempo, as montanhas não são mais montanhas e os rios não são mais os rios. Mais adiante, as montanhas voltam a ser montanhas e os rios voltam a ser os rios.” Esse texto é encontrado de muitas formas, mas basicamente é isso.

Então, o que eu quero dizer citando ele é que, sim, essas obras jogam camadas de complexidades em cima de assuntos simples (e isso fica claro no trabalho do Francis Alÿs, pois eles podem gerar uma super intelectualização) mas isso também pode servir como um gancho poderoso pra abrir outros olhares sobre a realidade.

E diante de uma certa diversidade radical de olhares, é possível (com boa vontade) descobrir a essência que está por trás de todos eles, o que eles têm em comum, qual seria a base da realidade, do que estamos tomando por realidade.

E aí, nesse ponto, é possível que as intelectualizaões caiam por terra e enxerguemos apenas um homem empurrando uma barra de gelo e ponto final. Aquela conversa, às vezes um charuto é só um charuto. Mas se você faz o trajeto saindo de onde as montanhas são apenas montanhas, passa pelo ponto no qual as montanhas deixam de ser montanhas e chega no ponto no qual as montanhas voltam a ser montanhas, certamente essa caminhada produziu um alargamento do olhar que não precisa de intelectualizações pra se sustentar.

Um amigo meu cita bastante o Sol LeWitt, mas acho que não conheço nada dele, bem como do Richard Long. Vou atrás.

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Comentário por Paulo Diógenes
10 de dezembro de 2009 às 19h33

Bom, tem muita coisa que cheira a mera picaretagem mesmo. Acho até que vou fazer uma exposição com meus tênis velhos com o título “trajetórias e deformações”. O que acharam??? Não é super cool e art pra caramba. huahuahuauua. Sinto muito, mas certas coisas são pura embromação

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Comentário por Gustavo Mini
11 de dezembro de 2009 às 8h53

Beleza, Paulo, boa sorte na sua empreitada no mundo das artes!

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