15 de dezembro de 2009 às 9h08
File à Pé – encerramento
A idéia inicial era fazer uma boa pesquisa a respeito do último trabalho do Francis Alÿs que eu ia comentar. Mas mudei de idéia e vou escrever tudo de cabeça mesmo, sem link pra lugar nenhum, baseado no único gancho físico que eu tenho: esse postalzinho aí em cima que peguei no Malba em Buenos Aires há uns 3 anos. Ele, pobrecito, está todo amassado e meio detonado. Já foi o olhar de boas vindas da porta do banheiro do meu ex-apartamento, mas hoje descansa embaixo da minha tela no trabalho pra me lembrar dos espejismos. Você já leu o texto embaixo da foto?
O negócio é o seguinte: você entrava no Malba, descia as escadas e, à direita, lá embaixo, havia um salão com diversas mesas. Sobre elas, umas vinte ou trinta peças entre mapas, esquemas e desenhos. Em uma sala contígua, um filme em loop mostrava uma estrada da Patagônia do ponto de vista do motorista de um carro. Ou um pouco mais à frente, pois o motorista enxergaria o volante e nós, assistindo ao filme, é como se fôssemos uma câmera presa no capô. Então o panorama era esse: uma larga faixa que se afinava até chegar ao horizonte, encontrando o céu, e os dois (a larga faixa e o céu) confundiam-se a partir de uma terceira faixa intermediária de calor, sabe aquela faixa de calor na estrada? Ela mesma, tratando de cozinhar sem cerimônias o arroz e feijão da terra e do céu.
Era um loop. Uma viagem interminável que levava a lugar nenhum.
Os mapas e esquemas, pelo que me recordo, diziam respeito ao planejamento dessa viagem feita pelo Francis Alÿs. O nome do projeto todo: The Story of a Deception / Historia de um Desegaño. Não sei se decepção e desengaño são correspondentes diretos na tradução inglês/espanho. Mas lembre-se que desengano em português é muito usado pra classificar a morte. “Ele foi desenganado pelos médicos.” Cara, de onde saiu essa expressão? Quer dizer que ele estava se enganando? Que os médicos o estavam enganando? Que estamos todos enganados? Smart people…
Eninuêi, apesar do filme em loop indicar claramente uma viagem de carro, o registro no cartão postal (a melhor coisa do projeto todo, a meu ver, o gancho necessário e massa) falava da tribo dos tehuelches, que caçava o ñandú caminhando (você ainda não leu o texto?). Pelo que me lembro, havia também um outro texto em alguma parede da exposição contando que o Francis Alÿs esbarrou nesse hábito dos tehuelches enquanto trabalhava no projeto do filme em loop. Ele não foi atrás dos tehuelches, mas, como muitos artistas, cientistas e buscadores, encontrou o que estava procurando sem ter procurado. Vai ver ele, de carro, perseguindo espejismos, cruzou com um tehuelche perseguindo ñandú. Os dois se olharam e se sentiram em frente a um espelho. O gringo e o índio. O caçador e o artista.
“We, of our time, must chase mirages”.
Sem mais perguntas. A testemunha, agora, é sua.
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Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
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