Segunda feira saiu na Zero Hora uma pequena porém bastante simbólica entrevista com o Wander. O motivo era o lançamento do DVD Rodando El Mundo que rolou no opinião, mas a conversa com o Bissigo (como o DVD) acabou funcionando como uma espécie de revisão da carreira solo do nosso bardo punk brega.
O que eu queria sublinhar a respeito da conversa dos dois é o fato da maior parte dela não versar sobre composição, inspiração ou outros falatórios do tipo. O foco da fala do Wander é o seu lado produtor que, segundo ele, é o eixo do trabalho artístico que ele vem botando (literalmente) na estrada há tantos anos.
De certa forma, esse discurso espontâneo vem consolidar algo que o fim dos anos 90 cultivou com discrição e que nos últimos anos vem germinando com força pra, provavelmente, se estabelecer nos anos 10: a cultura do produtor, do cara que bota a mão na massa e faz festivais, casas noturnas, DVDs, sites, projetos culturais, acontecerem de fato. Em em muitos casos com uma senhora sensibilidade artística, mais do que a de alguns supostos artistas.
Algumas vezes, essa figura está dentro de uma banda. Em outras, está dentro de um músico. Mas cada vez mais, me parece, o produtor é um ser completo em si, que não precisa carregar o rótulo de coadjuvante. Se um dia produtor foi o cara que não sabia tocar mas queria estar envolvido na parada toda, isso parece estar ficando pra trás. O que é muito bem vindo pelo mercado e também por pessoas como eu, preguiçosas e inaptas para esse tipo de função.
Longa vida à alma e à atividade do produtor, talvez o eixo do cenário artístico na década vindoura.
Fernando Garros em 20 de janeiro, 2010 às
3:04 pm
Mini, você não acha que o MP3, a internet ( myspace, twitter, etc) de um modo geral vai fazer renascer a volta dos verdadeiros “artistas” na mais ampla tradução da palavra - os pordutores de arte? E que estaremos trazendo de volta os mescenas, ou seja , pessoas que patrocinarão o artista para ele produzir arte? Explico e exemplifico: com o fim da concepção de ” album” , os músicos apelam a gora ou para singles, ou videos, ou sites, -ou seja, ideias. Não faz mais sentido “vender” um álbum, pois tudo pode ser baixado aos poucos, em partes e até de graça. Então, como remunerar o artista? Uma banda chamada Marillion, dos anos 90, há alguns anos pediu para seus fãs patrocinarem o próximo állbum para baratearem os custos de produção. Ou seja, que tivesse interesse que a banda se embrenhasse num novo trabalho, pagaria uma quantia e receberia em troca o ålbum inteiro+ingressos para shows+conteúdo exclusivo+ demais coisas. Resultado: milhares de dolares foram levantados para a banda produzir. E assim foi. Diferentemente do Radiohead, cuja “doação” de dinheiro referia-se apenas à compra do album, essa história provaria que daqui a pouco, uma saída seria os fia-clubes ou um grupo de pessoas interessada na obra do artista pagasse uma mensalidade para o artista produzir. Pode ser o fim das lojas e do comércio de música, mas num mundo colaborativo, seria uma forma de manter o artsita “vivo” e de obter dele um conteúdo exclusivo. O que você acha?
Gustavo Mini em 20 de janeiro, 2010 às
6:17 pm
Eu acho que vão coexistir muitos modelos, entre eles o de artista-produtor. Mas acho, intuitivamente, que o produtor-produtor vai ter um papel cada vez maior, que vai exigir sensibilidade artística. Não seria o artista-produtor, mas o produtor-artista. Montar um festival bacana pode ser uma obra de arte.
Paulo Diógenes em 22 de janeiro, 2010 às
3:10 pm
Acho que, mais do que nunca, temos a possibilidade de vermos estas funções (produtor/artista) confundirem-se e mesclarem-se. O que, de certa forma, não é nada novo, apenas está se intensificando com a popularização e disseminação das ditas “ferramentas tecnológicas e midiáticas” do nosso tempo, que agilizaram todo o processo (produção da obra em si, distribuição, divulgação, rede de contatos, etc). Existem inúmerros casos interessantes de artistas/produtores. Como não pensar no pioneirsmo indie de Ian Mackaye (Fugazi) em fundar a Dischord para viabilizar suas gravações, terminando por transforma-se num bastião do underground americano, lançando inúmeras bandas. Ou o modo como sua banda sempre trabalhou, cuidando de absolutamente tudo: não tinham empresários, não tinham motoristas (o próprio Mackaye se encarregava da função), fechavam os próprios contratos, alugavam diretamente os espaços em que tocariam, matinham uma política de ingressos baixos, shows sem limite de idade, nada de merchandise, etc etc etc. Na verdade, pra mim, toda a cultura do ” do it yourself” oportuniza esta mescla entre as funções de produtor/artista: vá lá, meta a mão na massa. O diferencial é que hoje pode-se fazer isso com muito mais facilidade, agilidade e eficiência. Então, acho que o momento é favorável para que cada vez mais desenvolvam-se artistas-produtores, cada vez mais auto suficientes quanto a capacidade de produzirem e divulgarem suas obras, envolvendo-se mais e mais com as diferentes etapas deste processo.
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