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Os limites da mobilização digital

“No fim dos anos 90, quando a internet surgiu no nosso cotidiano, ela era vista por muitos pensadores como um ambiente livre, com uma circulação de informação que iria naturalmente libertar o mundo de uma série de amarras sociais. Quinze anos depois, a força da internet é inegável, mas as preocupações em torno dela mudaram um pouco.

Hoje também é preciso sustentar a ideologia libertária da internet no plano teórico mas, junto com isso, também temos que buscar formas práticas de acesso universal, como computadores, cabos, satélites, linguagens e preços que promovam a inclusão de grandes fatias da população mundial na rede para garantir que ela cumpra sua profecia democrática.”

Escrevi esse texto em janeiro e ele foi ao ar essa semana no Minimalismo da Oi. De lá pra cá, esbarrei em dois textos bastante interessantes que tangenciam o mesmo assunto: as limitações da mobilização no ambiente online. Esse é um tópico perigoso porque se presta rapidamente a ser transformado em uma cantilena baixa do estilo “vida digital vs vida real” – como se hoje as atividades em dispositivos e mídias digitais já não fossem parte do que costumamos chamar de “vida real”.

Mas eu parto do pressuposto que eu e você vamos conseguir evitar cair em visões extremadas, tanto para um lado quanto para o outro. Também acredito que já exista uma base sólida o suficiente pra começarmos a questionar a validade das mobilizações sociais e culturais na internet como se fossem um fim e não um meio. Não precisamos demonizar a internet ou os computadores para admitir, sem medo de ser feliz, de que muitas vezes é mais fácil interagir com uma interface digital do que botar a mão na massa quando se trata de resolver certas questões cabeludas, seja em nossas relações pessoais ou coletivas.

Na Época da semana passada, o Evgeny Morozov (pesquisador, editor da Foreign Policies e do blog Net Effect) questionou fortemente o ativismo online, admitindo que o uso da internet “reduziu muito os custos de publicação e tornou mais fácil encontrar apoio” mas também perguntando “quem garante que esses apoiadores serão realmente úteis ou estarão dispostos a ir às ruas?” Classificando grande parte das ações sociais na internet como “slacktivism” (ativismo preguiçoso), Morozov não negou o uso da web, mas trouxe à tona a necessidade dos ativistas de conhecer melhor estratégias tradicionais.

Com um discurso mais informal, a Renata Lemos também levantou uma bola parecida no seu blog com um post que traz um título mais alarmista. Em “Alô, os bandidos estão lá fora!”, ela cita Umair Haque e Derrick Jansen pra dar basicamente o mesmo recado do Morozov: é preciso mais do que indiginação digital pra resolver questões econômicas, climáticas e sociais.

Concordo totalmente com o Morozov e com a Renata, mas aproveito pra levantar mais uma sobrancelha e tentar indicar uma distorção na mensagem deles que pode vir a surgir.

Grande parte do que conhecemos como ativismo social hoje tem a ver com ações de grande impacto na mídia. É um subterfúgio criado por grupos como o Greenpeace. Quer queiram ou não, podemos considerar esses grupos avôs do hoje tão comentado marketing de guerrilha, que nasceu da necessidade de dar o máximo de exposição a causas que tinham pouca verba para compra de espaço formal em veículos de massa. Já vi chamarem isso de “media hijacking”, sequestro de mídia.

O problema é achar que todo e qualquer ato que traga mudança social precise ter cara de espetáculo. Invadir as ruas (ou a rede) com slogans inteligentes, imagens bem sacadas e ações inusitadas que gerem factóides dissemináveis não pode ser confundido com a essência da mobilização social. Afinal, quantas pessoas não estão por aí, sem nenhuma conexão com mídia, fazendo trabalhos incríveis enquanto metidas em verdadeiras reentrâncias sociais? Será que todas elas precisam mesmo de uma grande exposição pra fazer o seu trabalho? Acho que não. A necessidade de exposição exacerbada é uma invenção da nossa era e não precisa ser seguida cegamente.

Tenho conhecido, nos últimos anos, incríveis pensadores e articuladores sociais fazendo uma grande diferença, utilizando as ferramentas que tiverem à mão pra trabalhar (inclusive a internet) e gerando pequenos pontos de distensão no tecido social sem precisarem serem conhecidos, sem precisar de muito espaço na mídia, sem precisar de números fabulosos (seja em dinheiro, audiência de TV, views ou membros de comunidade). São terapeutas, assistentes sociais, praticantes espirituais, empresários, médicos, educadores, publicitários, contadores, jornalistas, programadores, gente “comum”, sem um grande número de followers mas que, com seu trabalho bem feito no dia-a-dia (e até tentando resolver suas questões pessoais) me dão uma visão bastante diferente do que pode significar mobilização e mudança social.

Não tenho muita certeza sobre o futuro. Mas já faz alguns anos que acredito que o trabalho de formiguinha (e não as ações espetaculares) é que vai sustentar a possibilidade de uma convivência melhor nesse planeta em todos os âmbitos. Na verdade, a vontade individual de gerar mudanças grandiosas, pode acabar se revelando, em vez de um sentimento altruísta, uma neurose, um complexo de grandiosidade que nem sempre traz frutos genuínos e duradouros.

Nesse sentido, mais do que nunca, menos pode ser bem mais.

5 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Uncategorized

5 Comentários

Comentário por Israel Scussel Degásperi
22 de fevereiro de 2010 às 18h08

Gostei do post e da sua ideia. Acrescento dizendo que, sou a favor de começar por vc a mudança que vc deseja para onde vc vive.

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Comentário por André P.
22 de fevereiro de 2010 às 19h14

Bom texto. Cumpre o papel esse mesmo blog; não sei quanto de visitas recebe, mas eu estou sempre por aqui, por achar que tenham boas idéias e assuntos reflexivos.

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Comentário por Gustavo Gitti
24 de fevereiro de 2010 às 1h56

EXCELENTE texto, Mini.

Concordo com sua conclusão e tenho uma experiência bem parecida.

Já divulguei no Twitter.

Teu blog é uma beleza, cara.

Quando quiser publicar uma reflexão dessas no PapodeHomem, espaço aberto pra ti. É só falar.

Abraço!

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Comentário por joao
24 de fevereiro de 2010 às 8h22

A partir do texto vejo dois caminhos e os dois levam ao lado negro e predominante do ser humano.
O primeiro é a preguiça, fazer algo de efetivo exige mais do que mandar e-mail, colocar uma camisa ou decalque no carro que polui, comprar sacola ecológica bonitinha e da moda e gerar lixo desnecessariamente.
Outro lado é só fazemos coisas “boas” quando temos platéia, muito antes do senhor dos anéis, Sócrates já citava uma frase antiga, (naquela época), “o que você faria se tivesse um anel que te deixasse invisível?”.
Quando falo de platéia, também falo da platéia interna, algo como nosso superego, medos e tudo mais.

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Comentário por Cris
25 de fevereiro de 2010 às 9h35

Mini, tb acho que pequenos movimentos são mais efetivos que mega ações. E em geral tb maximizam o uso dos recursos. Mega ações geralmente trazem consigo desperdício de recursos com “desnecessidades” (logística, divulgação, e sei lá mais o que).
E joão, apenas dois caminhos é uam visão um tanto qto cartesiana, não acha?

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