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Conector Entrevista: Andrio do Superguidis

O que seria do Superguidis se não fosse o bom humor? A expressão que dá nome ao primeiro single/videodeyoutube do novo disco do grupo guaibense é, sem dúvida, um dos pilares da sua consistência. Nascida junto com uma leva bacana de bandas do Rio Grande do Sul, como a Publica e a Stratopumas, os Superguidis se destacaram pela opção de atuar em fronteiras lodosas: a flutuação (muito bem executada) entre o som sujo e as melodias pop; e também entre as letras simpáticas, amigáveis e os temas esquisitos, que muitas vezes só eles e alguns parceiros entendem profundamente. Não fosse o bom humor (e um inegável talento para melodias), os Superguidis seriam chatos como tantas outras bandas.

A cidade dos Guidis, Guaíba, oferece uma metáfora poderosa pra singularidade do seu som. Ela fica a 40 minutos de ônibus de Porto Alegre, mas poderia ser muito mais perto caso alguma empresa de transporte fluvial conseguiu vencer o lobby rodoviário e oferecer uma barca que simplesmente atravessasse o Rio Guaíba numa linha reta. Esse distanciamento específico, geografica e socialmente falando, oferece um ângulo de visão da capital ignorado pela maior parte dos portoalegrenses, a menos que eles sejam ricos proprietários de lancha, apaixonados por vela ou pescadores pobres, estratos sociais em que 100% dos indies locais não se encaixam.

Pra completar o lado nonsense da parada toda, até hoje ninguém sabe direito se esse tal de Rio Guaíba é de fato um Rio, um Lago ou um Estuário. Volta e meia especialistas trazem a discussão aos jornais, mas a população já se acostumou com a definição de Rio e no fundo (ou na beira), tanto faz. Afinal, essa esquizofrenia combina perfeitamente com o espírito da região e, em especial, com o jeitão de ser e tocar do Superguidis.

No papo abaixo, que tive por email com o vocalista e guitarrista Andrio, você confere um pouco mais do “pensamento superguidisiano” e dos planos para o terceiro disco, já gravado e em vias de ser lançado.

Conector: Me diz uma coisa, o que é que vocês fazem entre um disco e outro? Vocês tem um esquema tradicional tipo “Ensaios-Composição-GRavação-Lançamento-Turnê”? Ou vão tocando, compondo e gravando tudo ao mesmo tempo?

Andrio: Para esse disco a gente foi ensaiando as canções e gravando demos na garagem do Marco à medida em que elas iam surgindo, testando arranjos e timbres para chegar na hora e não patinar muito. Entre um disco e outro, rola exatamente isso: shows de lançamento, turnezinha e tal. Esse ano queremos inovar, lançando singles periódicos, de repente até em versão física pras rádios. Sabe como é, os caras ainda vivem nessa de ter o CD na mão, não catam coisa nova na internet…

Conector: Em que pé está o disco novo? O que está faltando? Alguma previsão de lançamento?

Andrio: Só falta finalizar a parte gráfica. Tá uma tijolada, o som. O nascimento do filhote tá previsto pra meados de março.

Conector: Onde foram as gravações? Em quantas sessões vocês fizeram?

Andrio: Foi novamente na casa do Philippe Seabra, no Daybreak Studio. O cara deu uma mão na produça também, mais ou menos como foi o segundo. Ficamos lá todo o janeiro de 2009, matamos o disco em poucos dias. O mais demorado se deu por conta de uma troca de válvulas do Mesa Boogie do
Seabra, aí foi engraçado porque passamos a gravar o disco de trás pra frente, adicionando voz valendo e violões, por exemplo. Tive que imaginar a dinâmica das músicas para adicionar punch nos vocais… essas coisas.

(Nota do editor: a maior parte das gravações de vozes acontecem depois que toda a base – guitarras, baixos, baterias, já está gravada)

Conector: Tem alguma coisa nova nesse disco que vocês trouxeram em termos de som?

Andrio: Sim, sessões de cordas (cello, violino) em algumas músicas. Tem coisa com o violão mais na cara, também, ao mesmo tempo que há coisas bem mais pesadas (no nosso parâmetro, obviamente), com muita pressão.

Conector: O som de vocês está indo pra algum lado específico? Ou vocês não tem a menor idéia de onde vai dar?

Andrio: Sei lá, cara… ainda surge aquela vontade de fazer canções sujas com pegadas pop. Mas acho que está se expandindo, agora. Até o áudio de um show inteiro de releituras acústicas vai sair junto com o terceiro disco. Ou seja: galera aqui tá ampliando os horizontes. Talvez daqui uns anos lancemos um disco de polka.

Conector: Qual é a vantagem de ver Porto Alegre do outro lado do rio? Mesmo que alguns de vocês morem aqui, viveram muitos anos em Guaíba, então imagino que vocês tenham uma outra visão da capital, que quem vive aqui não tem. Como isso influencia as músicas?

Andrio: Acho que influencia mais na atitude. A capital hoje está muito careta, conservadora demais. O que rola de mais bacana de shows está nos arredores, na região metropolitana. E disso eu tenho um certo orgulho, dá uma cara meio outsider. O Wander Wildner falou um dia que a parte guaibense da banda é o que a salva, se referindo a essas marras portoalegrenses… hehehe…

Conector: Pois é, eu tenho a clara impressão que o Superguidis mantém há muitos anos um ar forte de gangue, de clube fechado, com piadas e uma linguagem muito própria. Sem dúvida isso contribui pra personalidade e força do som. Vocês tem noção disso? Ou só vendo de fora pra notar?

Andrio: Sim, a gente é um tanto fora da casa. eu percebo que o nível de autismo por aqui é bem elevado, e engraçado que o ápice disso é justamente quando estão os quatro reunidos. Às vezes cansa de tanta maluquice que sai do repertório de baboseiras. Também, nos conhecemos há muito tempo, temos quase a mesma visão de mundo e fazemos questão de rir da nossa própria cara, de não nos levarmos muito a sério.

Conector: Ok, voltando à questões mais práticas: vocês têm uma política econômica pra banda? Tipo, limites mínimos de cachê, de estrutura pra tocar? Ou vocês analisam caso a caso?

Andrio: Analisamos os casos. Um exemplo é uma tour de dez dias no norte que estamos fechando pra abril,
onde é possível que não haja lucro. Mas como a gente ainda não explorou horrores esta região, vale muito a pena só o fato de o cara empatar e não ter prejuízo financeiro. Vai ser divertido: guidis desbravando a floresta amazônica e arredores! Queremos fazer isso nos outros cantos do país… e com disco novo embaixo do braço este ano, vai ser supimpa.

Conector: Quem marca os shows e faz a correria da banda?

Andrio: Agora estamos trampando com um brother de longa data (Ernando Daitx, também guitarrista da ProzaK). Ele que está cuidando de marcar shows desde o ano passado. Ele também viaja junto com a gente e ataca de roadie. A gente procura articular junto com o Fernando Rosa, mas a coisa tende a se espalhar mais esse ano, fechando parcerias com gente de fora do estado para agendar coisas lá pra cima.

Conector: Como funciona a parceria com o Senhor F?

Andrio: A gente é gratíssimo em fazer parte desse cast, que nos trouxe uma grande visibilidade ao longo da metade da década passada para cá. Temos a plena certeza de que estamos no caminho certo, crescendo junto com o selo rumo a algo maior, sem abrir mão da integridade artística rumo a afobações, sabe? não queremos essa coisa de hype, de fenômeno descartável e sem consistência, sem conteúdo, e sim consolidar uma carreira construída em cima de três discos (até agora). Para o alto e avante, sem atropelos.

***

Não deixe de conferir as outras entrevistas que fiz com gente bacana como Jonathan Harris (do We Feel Fine), a artista americana Joana Sohn, o pessoal da finada Mono (hoje Sound and Vision e Needles and Pins), o André Takeda e o Léo Lage.

2 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Música, Uncategorized tags: , , , ,

2 Comentários

Comentário por george
25 de fevereiro de 2010 às 21h38

muito boa a entrevista! Viva os Guidis e parabéns ao pessoal do site!!!

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Comentário por Filipe
26 de fevereiro de 2010 às 18h24

Talvez daqui uns anos lancemos um disco de polka.

OBA!!!

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