25 de março de 2010 às 13h57
A falta de lugares sagrados
Não sei bem como é em outras cidades. Mas Porto Alegre é uma capital que carece de opções de passeios cobertos que não sejam shopping centers. Essa incrível e brilhante conclusão (uau!) me ocorreu quando eu e a Lucia queríamos dar uma volta numa terça chuvisquenta de carnaval sem necessariamente estar rodeado de vitrines, cartazes do Liquida Porto Alegre e aquele ar encapsulado dos shoppings.
Uma das poucas e boas opções nesse sentido, que salvou nossa tarde de pré-cinzas, é o Museu da Fundação Iberê Camargo. Porque ele não só é coberto como tem um recheio todo especial. Rende uma fenomenal caminhada! Nem todos os museus rendem um passeio desse porte. Alguns são antipáticos. Outros são cansativos. Tem também os quadrados, nos quais você fica caminhando em círculos (paradoxalmente). E a maior parte é fechada demais. Mas o Iberê tem uma conjunção danada de boa, com aquelas rampas, aquele vão central e aquelas janelinhas mortais que dão pro Guaíba. Lá, em vez de você simplesmente se meter num lugar com teto e ar condicionado, você, de fato, passeia. E também faz mais do que isso. Faz uma das coisas mais sagradas que tem pra se fazer: você respira.
Esses tempos, li não sei onde um artigo do Alain de Botton em que ele levantava a idéia dos museus como as catedrais leigas do nosso tempo. No texto, ele não enfatizava o lado de “adoração teísta” que muitas construções religiosas sucitam, mas sim o espaço de reflexão, contemplação e auto-investigação que brota dentro de um lugar desses. O respiro.
Por aí, não é muito difícil fazer a conexão catedrais-museus. A arte contemporânea, todo sabemos, mais do que nunca vem contanto com a participação ativa dos neurônios e/ou do coração do público, o que automaticamente exige momentos de contemplação, o que automaticamente exige espaço físico e mental pra acontecer. Então, quando eu cito o Alain de Botton e seu paralelo com as catedrais enquanto espaço de reflexão, deixo claro: eu quero me fixar mais no “espaço” do que na “reflexão”.
Digamos assim: espaços sagrados são sagrados não porque são sagrados, mas porque são espaços.
O respiro.
O respiro em dois âmbitos. Primeiro, espaços físicos, palpáveis, olháveis. Em segundo lugar, espaços mentais, grandes vazios subjetivos. Nos dois casos, são espaços valiosíssimos no atual mercado imobiliário psicológico porque são escassos. Não sei se você notou, mas nós andamos abarrotados e sem espaço pra nada. Faz parte da cultura urbana contemporânea não ter tempo, não ter espaço na mente, não ter espaço visual liberado nas ruas e nas casas. O medo do vazio talvez seja o grande medo urbano da nossa era, ali ali com o medo da violência.
(Aliás, uma vez um cara que trabalhava com serviço social me explicou por alto a relação entre a falta de espaço em cortiços e a violência sexual incestuosa. Creepy.)
Bom. O pé direito alto das catedrais já foi muito criticado pela intenção de fazer as pessoas se sentirem pequena em relação aos ícones religiosos, mas ele é uma das grandes qualidades das catedrais e de alguns museus. Eles oferecem… espaço. E, assim, nós temos aí um dos fatores que podem fazer de um lugar um catalisador pra noção de sagrado: espaços amplos, onde corpo, mente e coração respirem. É compreensível que muitos artistas iconoclastas critiquem a aura asséptica de muitos museus e queiram combatê-la com saturação do espaço físico, mas eu acho que essa saturação hoje nos serve menos do que a amplidão. Enfim.
O tamanho do lugar, claro, não é o suficiente pra respirarmos. Shopping centers frequentemente são amplos, assim como o são aquelas igrejas evangélicas-McDonalds gigantes que a gente vê por aí, cheias de luzes fluorescentes brancas e com fileiras de cadeiras genéricas. Ou seja, outro aspecto que precisa contribuir para tornar um lugar um catalisador de espaços internos é a atenção e a intenção investida na sua construção. Uma coisa é a igreja McDonalds, que parece ter sido erguida em série, pra resolver um problema prático. Ou um shopping, que nasce, obviamente, como intenções comerciais. Outra bem diferente, que vem a ser o segundo fator, é o local ser criado por arquitetos, engenheiros, operários ou artesãos que imprimem significados mais profundos no seu trabalho, às vezes intelectualmente, às vezes com bom coração ou com uma conexão natural com as outras pessoas.
O terceiro fator pra criação de espaços que criam espaço é o recheio. Curiosamente, esse terceiro fator consegue inclusive se contrapor ao primeiro e fazer de alguns lugares pequenos e escuros (como cavernas de meditadores ou pequenas galerias de arte alternativas) locais amplos. No caso da arte, obras consistentes e visitadas com um mínimo de boa vontade costumam gerar um valioso espaço interno, seja por quebra de percepção, seja por identificação entre obra e público, seja por semear terrenos férteis com dúvidas bacanas, seja por simplesmente ser um momento completamente diferente em um cotidiano concreto, tenso e previsível.
1) Espaços cobertos amplos 2) Intenções mais profundas 3) Recheio significativo.
Porto Alegre, assim como muitas grandes cidades, anda carente de espaços sagrados com esses três elementos. Não precisa ser catedrais ou museus. Mas espaços que ofereçam a possibilidade de caminhar por necessidade aeróbica mental e não corporal. Espaços de reconstrução de significados, mas sem grandes neuras intelectuais ou mesmo religiosas. Espaços com história – seja uma história que existe ou que ainda vamos criar.
Antigamente não falavam que no século 21 moraríamos no espaço? Pois é. A promessa, aqui embaixo, não se cumpriu.
16 Comentários











Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

25 de março de 2010 às 16h44
Grande texto.
Outra coisa que eu curto muito no prédio da Fundação Iberê Camargo é o “enquadramento” maravilhoso que o Siza fez de Porto Alegre.
Cada janelinha daquelas é uma aula de enquadramento.
Abs
Raul.
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25 de março de 2010 às 16h46
Hoje fui ao centro e dei uma passada no MARGS. Adoro ir lá… um dos poucos lugares que são esse respiro na vida cheia de correria. Fiquei ali uns 20, 25 minutos, mas já valeu. Mas o que me chocou mesmo, foi ver uma imensa parte da Livraria do Globo, na Andradas, um lugar que era belíssimo, ter sido transformado em uma loja que vende tênis. Uma tristeza profunda. Porto Alegre está REALMENTE precisando de mais lugares sagrados.
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25 de março de 2010 às 17h59
Para compensar o Big Brother que assisto à noite, te leio durante o dia.
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25 de março de 2010 às 19h29
Grande texto sobre algo que a gente sente, mas dificilmente consegue expressar. Toda a vez que eu vou a um espaço desses eu curto o lugar e não fico filosofando sobre ele,
mas isto será inevitável na próxima vez que eu entrar no Iberê. Obrigado por isso.
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25 de março de 2010 às 21h16
hoje tava escutandos os discos do Walverdes, o disco do mesmo nome é muito bom. Papo nada a ver, mas o disco é legal.
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26 de março de 2010 às 11h36
Oi Mini,
baita texto, muito relevante, perspicaz, sensível.
parabéns!
Ch.
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26 de março de 2010 às 11h38
Oi Mini,
baita texto: muito relevante, perspicaz, sensível.
parabéns!
Ch.
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26 de março de 2010 às 19h38
Belo texto. Concordo. A CCMQ também é legal de passear.
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27 de março de 2010 às 14h20
incrível esse texto! ainda mais pra mim que entrei na arquitetura! me deu várias ideias :)
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27 de março de 2010 às 16h09
Sou paulistano e estive em Poa no final de 2009, não conhecia a cidade e gostei muito. Um dos fatores de ter gostado foi justamente os espaços públicos, os museus, parques, a orla do Guaíba e as pessoas andando por alí no final do domingo; achei legal… mas pelo texto pude notar que, em todas as cidades as queixas são parecidas, talvez como turista a gente fique curtindo uma coisa que para os ‘nativos’ se tornou banal, ou é aquele caso do ‘que engorda o gado é o olho do dono’ ou então, ‘que a grama do vizinho é sempre mais verde’.
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Pingback por A falta de lugares sagrados « Vertigo Law
27 de março de 2010 às 20h08
[...] A falta de lugares sagrados Original Aqui [...]
28 de março de 2010 às 11h04
André, eu estava só levantando uma questão. Porque na verdade eu vejo muito Porto Alegre com olhos de turista apesar de ter nascido e morar aqui. Adoro passear pela cidade e mesmo com os problemas gosto muito de viver aqui.
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Pingback por A falta de lugares sagrados « O Jovem Arquiteto
29 de março de 2010 às 9h45
[...] A falta de lugares sagrados março 29, 2010 tags: porto alegre, texto by alinebueno Grande texto do Mini no blog Conector. [...]
18 de abril de 2010 às 15h41
Um dos melhores textos que li por aí ultimamente.
Esse post é um lugar-psicológico sagrado. :)
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3 de maio de 2010 às 18h43
Lindo o texto. Acredito que os museus assumam mesmo esse papel e que a contemplação também pode ser uma forma de meditacão válida para nos ater a imagens libertadoras da correria e saturação do mundo lá fora.
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Pingback por Cafeteria não é Perfumaria | O Último Baile dos Guermantes
16 de junho de 2010 às 15h20
[...] e inclui; ambos os espaços não tem preços elevados nos cardápios, e estamos assistindo a uma ascensão em massa do povão para a classe média: dar-lhes bons espaços públicos pedestres de con…. Além de que estas cafeterias geram emprego e renda onde nada [...]