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Vuvuzela, a palavra do ano

A Copa mal começou e sua principal estrela já tem nome. E que nome, amigos! A vuvuzela, aquela corneta gigantesca que é parte da mitologia do futebol africano, não só andou gerando grande controvérsia como tem uma das denominações mais deliciosos de se proferir. Falar vuvuzela é quase melhor do que assoprar uma. VU-VU-ZE-LA!!

A fama da vuvuzela, segundo a Wikipedia (tem também em português) data dos campeonatos africanos de futebol nos anos 90 – aliás, barulhento assim só podia ser dos anos 90. Mas as discussões em torno do seu uso esquentaram no ano passado durante a Copa da Confederações, quando a FIFA tentou banir a vuvuzela dos estádios alegando que ela atrapalha a concentração dos jogadores, causa danos nos ouvidos dos torcedores, espalha germes e impede o pessoal de escutar eventuais avisos importantes do sistema de som do estádio (como por exemplo, aquele Fuca verde estacionado em frente à saída das ambulâncias). A tentativa não vingou e o motivo é claro: não há instituição oficial que consiga impedir o uso de nada com esse nome. Uma vuvuzela não respeita convenções.

Eu não tenho nenhuma relação pessoal com a vuvuzela. Nunca cheguei perto de uma. Mas, confesso, me apaixonei pelo seu nome. Entre os significados alegados do termo vuvuzela está a expressão zulu “fazer som de vuvu”, sendo vuvu tanto o ruído que ela produz como uma gíria para “chuveiros” usada na África do Sul. Falar VUVUZELA é empreender uma viagem intercultural em uma só palavra. Com um guia beeeem local.

O mais bacana da palavra vuvuzela são os usos que ela sugere. A primeira vez que eu ouvi alguém falar vuvuzela, pensei que estavam se referindo a algum tipo de apelido carinhoso da Venezuela. Ou, então, contando um problema num carro de colecionador: “Cara, tu não vai acreditar: estragou a vuvuzela do Opalão.” O que seria um grave problema logístico, uma vez que não produzem mais vuvuzelas pra Opalas desde 1984 e o único jeito de arrumar uma é em alguns desmanches suspeitos. Além de correr o risco de ir preso por receptação, você ainda periga sair de lá com um virabrequim recauchutado como se fosse uma vuvuzela. Melhor comprar um Palio.

Mas vuvuzela também se presta para usos mais descontraídos. Não tenho nenhuma dúvida de que é um vocábulo que nasceu pra estar na boca do grande Paulo Silvino. Consigo me imaginar perfeitamente em casa no sábado à noite esperando o Supercine e assistindo a um desfile de mulheres seminuas soltando frases de duplo sentido que serão arrematadas ao final do quadro com o olhar maroto de Silvino e um novo bordão nacional: “AI, MAS QUE VUVUZEEEEEELAAAAAA”.

Daí, a vuvuzela ganharia as ruas, sendo transformada em um substantivo para quando alguém se depara com uma situação fora de controle. “Vamos parar com a vuvuzela aí atrás!!!” diria o professor pra uma turma de alunos enlouquecidos. “O problema da sua empresa é essa vuvuzela toda no horário do expediente” declararia o consultor de gestão. “É proibida a vuvuzela nos camarotes e na pista de dança” poderíamos ler numa placa de determinadas casas noturnas. “Loira, 22 anos, topa tudo, até vuvuzela” veríamos nos anúncios de sexo. A última fronteira seria ultrapassada no uso acadêmico do termo, quando um crítico de arte, analisando o mais recente trabalho do Vik Muniz, declarasse com extremo mau humor: “É muita vuvuzela e pouco conceito.” Os críticos de cinema, por sua vez, conseguiriam finalmente expressar seus mais íntimos sentimentos: “O problema dos filmes do Michael Bay sempre foi esse: eles tentam ser pura dinamite mas acabam sendo pura vuvuzela.”

Vuvuzela, vamos combinar, também soa com um forte ar regionalista. Não me surpreenderia viajar até o nordeste e encontrar no cardápio o famoso “Camarão à Vuvuzela”, que leva todos os ingredientes que estão na cozinha jogados dentro de uma panela com total discplicência e temperados com perdigotos do cozinheiro. O prato sai da cozinha com um séquito de garçons portando as verdadeiras vuvuzelas, que serão tocadas initerruptamente durante toda a refeição no ouvido dos clientes. É assim que se come o Camarão à Vuvuzela tradicionalmente. Não é um prato com muita saída.

A essa altura, já deu pra sacar que vuvuzela não se presta muito para descrever situações mais técnicas. Por exemplo, vuvuzela não cai bem como nome de peça de avião: “Senhores passageiros, estamos aguardando a troca da vuvuzela para decolar.” E pouca gente confiaria num médico que diz: “A cirurgia para retirada da vuvuzela é muito invasiva e tem um pós-operatório complicado. Mas vamos fazer assim mesmo. Fuóóóóóón.” Por outro lado, no mundo das startups de tecnologias, a vuvuzela se daria bem. Em meio a Yahoos, Googles, Gowallas e Bings, poderíamos perfeitamente testemunhar o nascimento de uma nova rede de busca social chamada Voovoozella, criada por geeks africanos e logo comprada pela Microsoft, que mudaria o nome pra Voovooz.

Vuvuzela também seria um bom nome pro filme VOVÓ ZONA em países latinos. Poderia ser o sobrenome do Ministro da Defesa do Paraguai, Alfredo Vuvuzela. Comporia um bom trio de mambo, Paco Marín Y Sus Vuvuzelas. Enfim. Como todo fenômeno de países emergentes, a vuvuzela é contagiante, alegre, onipresente e promissora. É o tipo de coisa que os anglo-saxões não sabem criar e espalhar sem ter uma técnica de marketing bizarra e uma fábrica de chineses mal pagos por trás. É de interesse mundial que a vuvuzela se mantenha assim. A última coisa que o mundo precisa é que o Steve Jobs crie a iVuvuzela, com tela touch e plataforma aberta pros desenvolvedores criarem milhares de aplicativos. A vuvuzela é um instrumento simples com um nome grudento e um efeito avassalador. E deve ser mantida assim sob pena de virar uma chatice cool.

Por último, você notou como a vuvuzela é a mais perfeita metáfora pra geopolítica atual? Um instrumento/hábito criado nos anos 90 na África do Sul, em pleno apartheid, que ganhou o mundo pro povo fazer barulho nas arquibancadas; depois, sofreu uma tentativa de proibição por uma instituição oficial que acabou tendo que engolir a vuvuzela, quer queira ou não.

É a boa e velha ironia da história que se esconde por trás maioria das manias pop que o mundo produz aos cântaros a cada ano.

6 Comentários
por: Gustavo Mini tags: , ,

6 Comentários

Comentário por Martins
14 de junho de 2010 às 16h07

Depois desse texto acabei simpatizando pelas barulhentas vuvuzelas que vuvuzeleiam nosso ouvidos durante todo o tempo das partidas dessa copa.

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Comentário por Fernando Bones
16 de junho de 2010 às 14h22

Parabéns pelo texto, Mini! Um verdadeiro ensaio sobre a vuvuzela! rs…

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Comentário por Rodrigo
16 de junho de 2010 às 19h21

O melhor é o Cid Moreira falando Jabulani:

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Comentário por Caroline Cardozo
18 de junho de 2010 às 18h05

Sensacional! Adorei o “camarão à vuvuzela”. O novo bordão do Zorra Total com o Silvino pai também é maravilhoso. Mas a vuvuzela na boca dos críticos de arte é a melhor. Muito bom!

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Comentário por eugenio
1 de julho de 2010 às 23h58

melhor texto que li este ano.

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Comentário por marcia cardeal
7 de julho de 2010 às 0h00

GE-NI-AL!!!! Ri muito com esse texto!!!!

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