16 de agosto de 2010 às 17h25
Festejos Locais do Creators Project
E sábado rolou na Galeria Baró em SP o braço brasileiro do Creators Project. A iniciativa presencial da parceria Intel-Vice refletiu bem a cara do projeto na internet: uma execução simples (na base das paredes brancas, cerveja e alguns drinks) que privilegiava o conteúdo, bem curado e pronto pra seqüestrar a atenção de interessados em tecnologia, design, música, moda e arte.
O lineup não era extenso, mas foi bem pensado. Não peguei o set de aquecimento do Funhell, mas cheguei bem no final de uma sessão de uma hora para “criadores do Creators” produzirem um som juntos ao vivo. No caso, era o Emicida e o Kamau que rimavam de improviso em cima de uma produção do Zegon e do Ganjaman. A faixa foi mixada ali na hora e colocada à disposição online (não achei ainda o link,mas enfim…). Bacana de conceito, meio confuso pra um evento, mas tá valendo. Bola pra frente.
Depois de resolvida a questão da gravação, o Emicida e o Kamau emendaram um set com o Zegon, onde o único defeito foi a pouca duração. É a segunda vez que vejo o Emicida ao vivo e não vou fazer pouco caso: eu fico maravilhado com o jeito como ele consegue manter uma comunicação com o público sem necessariamente ficar usando os clichês do gênero o tempo todo, sem ficar pedindo mão pra lá, mão pra cá, grito de guerra ou o insistente pedido de fazer barulho. A fluidez do Emicida transcende as rimas e parece ditar a performance, discreta sem deixar de ser comunicativa e eficiente, sempre em cima de alguma batida que parece existir somente na cabeça do MC paulista. Não sei se o cara é sempre assim, mas nos dois shows que eu vi ele se portou dessa forma e conseguiu até vender CD no meio do show sem parecer um troço apelativo e absurdo. E quando eu digo vender, digo vender MESMO, pegar dinheiro, entregar CD e tudo mais. Figuraça.
Na sequência, fomos todos atropelados pelo Gang Gang Dance. A acústica da Baró não colaborou muito pro som cheio de camadas e segundas intenções dos caras, mas dependendo de onde você estivesse, não tinha galho e dava pra apreciar na boa o desprendimento da banda e a alegria quase infantil da vocalista Liz Bougatsos. Pudera: se eu fosse um gringo ligado em psicodelia e batidas eletro-tribais vindo tocar no Brasil pela primeira vez, se eu tivesse um monte de tambores pra ficar batendo o show inteiro, na cola de um baterista bem exato, se meus colegas de banda ficassem viajando com camadas de feedback e efeitos digitais, se no meio de tudo isso um baixista segurasse a onda com uns grooves lesados, eu provavelmente também estaria todo viajandão, distribuindo sorrisos e olhinhos fechados.
É engraçado, porque o Gang Gang Dance parecia vir pra colaborar com a imagem de hype brooklyniano do evento, mas acabou mesmo é levando o pessoal pro terreno conceitual das raves do final dos anos 80. Não que eu tenha vivido isso, mas eu lia muita Bizz né. Enfim, o show foi bacana e me lembrou coisas como as linhas de guitarras psicodélicas do Stone Roses e os sons mais balançados do The Orb.
E o Mark Ronson? Era o grande nome da noite, mas teve pouco tempo pra mostrar sua porção DJ, que é como ele montou as bases do seu nome, antes de ser “o cara que produziu aquele disco da Amy Winehouse”. Depois de tocar-lhe uma água oxigenada nos cabelos e mandar um corte anos 90, Ronson subiu no palco sem a menor cerimônia (aliás, da mesma forma que circulava pelo salão) e começou a enfileirar sua já declarada mistura de hip hop, electro, algum synthpop, uns breaks aqui, uma Amy Winehouse acolá… como disse o Rraurl, talvez pelo pouco tempo, ele tenha escolhido se dividir entre hits e dar algum espaço pra sua nova protegida, Amanda Warner, que também fez bonito mas foi prejudicada pelo som meio embolado de suas bases.
***
Bom, hoje o tempo tá curto, mas ainda essa semana falo mais disso por aqui, focando mais a mostra que rolou à tarde. Talvez eu misture com o que eu vi no Emoções Artificiais no Itaú Cultural, não sei bem ainda.
***
Ah, pra fechar, um último recado.
A Intel já nos deu a atual arquitetura de multiprocessadores e a entrada USB (entre outras “coisas”). Se continuar nessa batida e levar adiante esse projeto meeeesmo, daqui uns anos vai poder se gabar de ter gerado alguns filhotes culturais interessantes. Embora algums problemas estruturais tenham que ser contornados, sou totalmente favorável a eventos assim, foco no conteúdo, nos artistas e sem grandes excessos de produção. Melhor deixar a verba pra contratar um bom curador e uns artistas bacanas.
E se o objetivo é sair do círculo de publicações e falação do povo de TI, o Financeiro da Intel pode assinar os cheques com um sorriso no rosto: provavelmente a marca nunca tinha sido tão citada (ou apenas citada) em blogs de música, design, moda e arte. Esse lance aí funciona, viu?
***
Fotos: eu mesmo, com a câmera PALHA do MotoQ11.
2 Comentários







Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

17 de agosto de 2010 às 13h43
“Ora, o ambiente tecnocultural emergente suscita o desenvolvimento de novas espécies de arte, ignorando a separação entre emissão e recepção, composição e interpretação. Trata-se apenas de um possível aberto pela mutação em andamento, possível que poderia muito bem não se realizar jamais, ou só parcialmente. Visamos, antes de mais nada, impedir que ele se feche demasiado cedo, sem ter desenvolvido a variedade de suas riquezas. Essa nova forma de arte faz experimentar o que justamente não é mais um público de outras modalidades de comunicação e criação.”
LÉVY, Pierre. A inteligência coletiva, São Paulo, Edições Loyola,1999
Responder
17 de agosto de 2010 às 21h46
Em Inteligência Coletiva o Lévy fala da “obra” não mais com assinatura, e em constante construção.
Acho que é mais ou menos isso aí que vemos em relação às “obras” coletivas, dos artistas.
Estaremos chegando próximos ao tempo em que todo mundo montará as obras, que serão intermináveis?
Responder