3 de setembro de 2010 às 15h27
O Fator Nevermind
“Este paper tem por objetivo fazer um rápido apanhado das descobertas que levaram à construção do Sistema Nevermind de Classificação – SNC. O SNC surgiu da necessidade de abreviar e lubrificar interações sociais relacionadas à cultura pop. Durante muitos e muitos anos, os envolvidos nesse estudo sentiram que perderam um valioso tempo de sua vida com discussões subjetivas a respeito de determinados produtos culturais que não raramente terminavam em frustração alcoolizada e bate boca generalizado.
O desenvolvimento do SNC, baseado na descoberta do Fator Nevermind, foi totalmente inspirado nos antigos cursos por correspondência do Instituto Universal Brasileiro.
Talvez a melhor forma de apresentar o Fator Nevermind e o Sistema de Classificação Nevermind seja a partir de um testemunhal. Em uma de nossas pesquisas de campo, um entrevistado afirmou categoricamente em meio ao grupo de estudos sobre cinema que, “queiram vocês ou não” (SIC), JIM CARREY = JERRY LEWIS. Ora, qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento científico sabe que não existem E.P. (Equivalentes Perfeitos) em cultura pop. Os E.P. são produtos naturais de mentes apaixonadas e/ou embriagadas. Além disso, a afirmação de que JIM CARREY = JERRY LEWIS foi empreendida com a clara intenção de DESQUALIFICAR JIM CARREY. Entretanto, quando é colocado JIM CARREY = JERRY LEWIS, é preciso aceitar a equação inversa, ou seja, que JERRY LEWIS = JIM CARREY, o que acaba desqualificando o elemento JERRY LEWIS e também o que, por si só, é o que o pensamento científico classifica como DÃ, NADAVER. Essa equação, portanto, tem sérios problemas estruturais. O teor de contradição na proposição é gritante.
Por outro lado, a investigação é o cerne do pensamento científico. Logo, em vez de desprezarmos tamanho DÃ, NADAVER, tomamos a equação original de nosso entrevistado e criamos um postulado mais adequado: JIM CARREY = (JERRY LEWS + X), sendo X uma variável pop qualquer. Começamos os experimentos postulando que JIM CARREY = (JERRY LEWIS + JACK NICHOLSON), experimento que naufragou em laboratório e que nos levou a um segundo composto, JIM CARREY = [JERRY LEWIS + (JACK NICHOLSON - DRAMATICIDADE)]. Os resultados utilizando-se esse segundo postulado não são conclusivos ainda, mas estabeleceram as bases para a decodificação do elemento JIM CARREY.
Esse experimento foi conduzido e abandonado antes da VIDA INDIE do elemento JIM CARREY, o que deixou o trabalho claramente incompleto. Mas, na mesma época, nosso laboratório desenvolvia em paralelo um Sistema Abrangente para esse tipo de classificação, cujo objetivo era clarificar conversas de mesa de bar e reduzir o tempo perdido em discussões inúteis, conforme já colocado. Esse segundo projeto teve mais êxito que o primeiro e o batizamos de FATOR NEVERMIND.
O FATOR NEVERMIND foi construído em laboratório a partir de observações clínicas da cultura dos ANOS 90, objeto hoje de largo estudo da Arqueologia. O FATOR NEVERMIND era, na época, facilmente identificável no tecido sócio-cultural pela sobreposição de ondas da mesma qualidade. Todas essas ondas (em inglês, WAVE) traziam duas características genéticas cruciais:
1. FAP – Forte Apelo Popular
É quando o objeto examinado ganha as ruas da forma mais vulgar possível. Fica constatado seu caráter massivo. A manifestação material em que esse elemento aparecia de forma mais assertiva nos anos 90 era a conhecida CAMISETA DE CAMELÔ. Quando um elemento cultural chegava na CAMISETA DE CAMELÔ, ele era considerado dotado de FAP.
2. RCP – Respeito Com a Patota
É quando o objeto examinado é aceito com louvor pelos meios especializados e os chatos do âmbito em que surgiu. Diferente do FAP, o RCP é conquistado em um círculo pequeno de atuação e tem motivos relacionados à história do segmento em que está inserido. Quanto maior for o seu significado para a história do segmento, maior o RCP. Também inclui profundidade de conteúdo.
Quando a curva ascedente do AP cruza a mediana do RCP, temos a posição exata do PONTO NEVERMIND, onde começa a se desdobrar o FATOR NEVERMIND. Dentro do campo de cobertura do FATOR NEVERMIND, o objeto cultural examinado ganha o status de código comum a uma gama enorme de atores sociais. Ainda que a experiência individual seja bastante diferente em cada caso, existe sempre uma percepção comum, cuja obra que dá nome ao fator exemplifica com perfeição.
Em setembro de 1991, foi lançado nos Estados Unidos o álbum NEVERMIND, do conjunto de rock NIRVANA. Por uma convergência de condições que não cabe examinar agora, o álbum foi alçada rapidamente do underground (onde havia adquirido um bom quociente de RCP) ao mainstream (performando bem na curva de AP). Quando essas duas curvas se encontraram, começamos a ver uma série de eventos clássicos do FATOR NEVERMIND, como, por exemplo, office-boys comprando camisetas do Nirvana em camelôs enquanto garotos de classe média alta as importavam de lojas norte-americanas.
Mesmo que o consumo fizesse seu caminho passando por percepções diferentes, a experiência de intensidade e qualidade ao escutar o álbum NEVERMIND era sempre presente. Neste nível, todos tornavam-se iguais, não interessando se na coleção de CDs do proprietário, ao lado do Nirvana houvesse um CD do Pixies ou uma deliciosa coletânea de Pagode, efeito que se reproduzida nas paradas de sucessos das rádios.
O FATOR NEVERMIND APLICADO
Não houve investimentos para compor uma teoria muito extensa pois logo nosso laboratório teve que ser fechado. No entando, chegamos a aplicar o FATOR NEVERMIND a outros produtos culturais para confirmar nossas descobertas. Os mais célebres são:
PULP FICTION – O FATOR NEVERMIND DE QUENTIN TARANTINO
ALTA FIDELIDADE – O FATOR NEVERMIND DE NICK HORNBY
HERE COMES YOUR MAN – O FATOR NEVERMIND DO PIXIES.”
***
Escrevi a versão original desse texto entre 99 e 00, se não me engano. Mexi nele pra publicar aqui. Originalmente, ele deve ter sido compartilhado na Poplist e também foi publicado no “fanzine de luxo” Lo-Fi, editado pelo Augusto Oliviani. Junto com essa ótima edição do Lo-Fi vinha um CD-coletânea com bandas como Elf Power, Lucksmiths, Black Heart Procession e Of Montreal, entre muitos outros. Uma edição histórica, que eu guardo com carinho. Depois falo mais do fanzine.
5 Comentários








Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 

3 de setembro de 2010 às 15h41
Já tá na minha referência bibliográfica pro TCC sobre o Nirvana! Valeu, Mini. :-D
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3 de setembro de 2010 às 15h57
Vou scanear as páginas pra você postar como ela saiu no original, escrita à mão, como se fosse uma prova de faculdade! haha. Ficou demais. Tou planejando uma edição comemorativa pra 2011. (e tira um I do meu sobrenome que tá sobrando =PP)
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3 de setembro de 2010 às 17h08
Porra. Vai tomar no cu. Que texto foda! Masterpiece.
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7 de setembro de 2010 às 13h03
Até hoje o fator nevermind é altamente válido.
Enquanto as coisas são undergrounds são boas, quando fazem algum sucesso são vendidos e não prestam mais.
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11 de setembro de 2010 às 14h37
li e lembrei q tinha isso…tentei achar o zine e nada, mas o cd consegui e to ouvindo agora. foda a coleta.
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