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Cachalote – Rafael Coutinho e Daniel Galera

Queiramos ou não, a distância é uma questão recorrente no mundo contemporâneo. Começou com aquele papo de globalização nos anos 90, com as distâncias comerciais e culturais erodindo devido à queda de algumas barreiras econômicas. Nos anos 00, a digitalização dos meios de comunicação elevaram o clichê da “redução de distâncias” a um novo patamar e entramos os anos 10 com uma cultura consolidada de crítica sistemática ao tal “distanciamento entre as pessoas” causado pelo ambiente urbano conturbado e pelos meios digitais. Conversa vai, conversa vem, a distância acabou tornou-se praticamente uma criminosa no nosso léxico. Ela, que no passado já foi motivação para explorações e aventuras, que já foi estopim de grandes movimentos humanos, que é a base química da palavra mais brasileira do mundo – saudade – agora é persona non grata nos círculos intelectuais.

Eis que surge Cachalote, obra gráfico-literária que, de forma enviesada, contrasta totalmente com o pânico da distância que tomou conta da nossa sociedade. Querendo ou não, Rafael Coutinho e Daniel Galera escreveram uma ode à distância e nos proporcionaram um saudável contrapeso à pichação impensada e automática que rola por aí. Nesse sentido, Cachalote talvez tenha vindo para consolidar uma contratendência, uma reação natural ao hipermedo da distância que está em vias de se tornar uma endemia.

O trabalho de Galera e Coutinho, na verdade, resgata uma equação esquecida, a da distância como fator de intimidade. É dessa forma que os personagens e seus dramas nos são apresentados: o escultor que mantém uma devota companheira a uma distância em busca de integridade artística; um ator asiático cumprindo obrigações promocionais no Brasil, distante milhares de quilômetros de casa, distanciando-se também da sua lucidez; um mauricinho que é obrigado a se distanciar do seu tio que o sustentava, refugiando-se na Europa com um “amigo” de tempos distantes; um funcionário de uma loja de ferragens cuja proximidade com uma nova namorada apenas deixa mais aguda a óbvia distância entre os dois; um casal separado cuja distância conjugal serve de ponte para uma relação mais estreita do que a anterior.

Enfim, distância, distância, distância, mas sempre como elo de ligação, como elemento de perspectiva e não propriamente de abandono ou de desconhecimento. Em Cachalote, as pessoas se afastam umas das outras, mesmo inconscientemente, mas ganham perspectiva, como o pintor que de vez em quando dá um passo atrás para olhar o que está fazendo com uma visão mais ampla. Não sem dor, não sem perdas, mas levando de brinde uma visão mais ampla.

Em Cachalote, os espaços entre as pessoas, entre os cenários, entre os quadrinhos e entre os focos de ação narrativa são imensos. Sabiamente, Coutinho e Galera escolheram manter esses espaços abertos. Todos os personagens vivenciam esses espaços em vez de preenchê-los, um toque sutil que faz toda a diferença. O fato dos autores declararem em entrevistas que as histórias não são conectadas – também diferenciando-se de uma tradição recente da literatura e do cinema – só embasa essa idéia. As histórias, na verdade, são sim conectadas. Mas por espaços e distâncias e não por nexos ou qualquer outro tipo de preenchimento. Em resumo, os personagens de Cachalote tem muito em comum e sua história é a mesma. Uma história de distâncias vividas em plenitude, não por opção espiritual ou estética, mas por ser a única possibilidade do momento.

Ao leitor é relegado o mesmo destino. Somos mantidos a uma certa distância do universo dos personagens, a ponto de nos ser negado conhecer o rosto de uma das figuras mais enigmáticas do livro. Mas, em vez de nos afastar, esse recurso nos torna íntimo do núcleo central de Cachalote. Ao sermos afastados, somos paradoxal e incontestavelmente colocados dentro da história. Mais uma vez, a equação se confirma e abre a porta para uma leitura otimista e humanista de um livro que pode, ao primeiro olhar, parecer pessimista e misógino.

Ou seja, não é que Cachalote tenha sido escrito como uma campanha de apologia da distância. Mas, a meu ver, ele não está longe de servir como um forte libelo pela sua descriminalização.

5 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Arte tags: , , , , , ,

5 Comentários

Comentário por Daniel Galera
18 de novembro de 2010 às 0h40

Foda, Mini. Nunca pensei nas histórias pelo prisma da distância, mas pra mim faz todo o sentido. Obrigado.

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Comentário por André
18 de novembro de 2010 às 17h38

Ainda não li Cachalote, mas tem outra graphic novel que li recentemente que, acho, é muito sobre distância: 3 Story: The Secret History of the Giant Man.
A distância é tratada de forma diferente pelo que vi co Cachalote, mas ela ainda está lá, o tempo todo.

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Comentário por Pedro Daltro
23 de novembro de 2010 às 9h50

post foda, e ficou ainda melhor com o comentário de um dos autores.

abs

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