21 de fevereiro de 2011 às 9h00
A importância do pimpão
Esses tempos, alguém me passou essa apresentação desse cara chamado Scott Prindle. Ela foi apresentada (claro, apresentações são apresentadas) num evento de nome curioso —> Make Digital Works, um encontro de profissionais de publicidade ligados à tecnologia pra conversar sobre os caminhos tortuosos na implantação de cultura digital em agências. Mais curioso que o nome do evento é o nome do cargo que o Scott Prindle propõe e que vem se tornando cada vez mais comum, ainda que nem sempre com esse rótulo. O Creative Technologist é o cara que entende de tecnologia mas que dialoga bem com a linguagem criativa. Minha descrição, em uma frase, é ingênua e simplista, porque no dia-a-dia a coisa é bem mais complexa.
Lidar com essa mudança, já dizia uma moça da Fallon no Proxxima em 2007, não é uma questão de processos e sim uma questão de cultura. E cultura é ar, você não enxerga, você não pega, você não manipula – você respira, inspira, processa e expira, interagindo de forma sutil com ela. É comum buscar a revisão de processos com o objetivo de reciclar a cultura, e é mais comum ainda que isso dê errado. Mexer com cultura é mexer com o indizível e com o invisível. Exige, acima de tudo, uma infinita paciência, artigo raro no mercado e frequentemente substituído por truculência e pelo falso poder dos altos investimentos instantâneos.
É impressionante a imensa disponibilidade de profissionais de todas as áreas pra conversar sobre esse tema. Parece haver, na verdade, uma necessidade generalizada de falar, porque ninguém tem respostas definitivas, todo mundo tem problemas culturais ou estruturais e faltam profissionais qualificados pra fazer trabalhos que já tem demandas bem importantes e significativas. Nos últimos 4 anos, não tenho tido dificuldade de trocar idéia em mesas onde todo mundo rapidamente abre o jogo dos seus dilemas (e engana-se quem pensa que eles residem somente nas agências ditas offline). Diante de cenários conturbados, a conversa continua sendo uma forma poderosa de conexão e quase que de terapia de grupo do mercado.
Por isso, todas as dicas são válidas e bem-vindas. Além da apresentação do Scott Prindle, que botei lá em cima, queria dividir com os leitores interessados no assunto essa outra, abaixo. Fazendo uma pesquisa sobre E-Government há alguns meses, me deparei com uma pequena mina de ouro: todas as apresentações da Gov 2.0 Conference que rolou em novembro passado na Austrália. Entre elas, há esta, bem prática, que traz um esquema simples e que pode ser aplicado na maior parte dos lugares no que diz respeito a introduzir cultura digital em um ambiente analógico.
Eu tenho uma série de idéias a esse respeito e vou escrever ao longo dos próximos meses sobre isso aqui também. Mas como introdução ao tema, eu colocaria na roda a minha primeira regra pra integração de equipes de diferentes backgrounds: CONTRATE UM PIMPÃO.
Se você chama pra sua equipe um cara que é genial do ponto de vista técnico mas que é 1) antipático ou 2) anti-social ou 3) psicopata da competição interna ou 4) desagregador ou 5) alucinado por reconhecimento ou qualquer outra coisa que o isole da massa, é quase certo que 1) os projetos se tornem dolorosos 2) e comecem a ser boicotados e por fim 3) todo o vasto manancial da nova cultura seja prejudicado e atrasado em alguns anos porque todo mundo vai pegar nojo de qualquer coisa ligada àquela figura lamentável. Como diz um psicólogo social que eu conheço, “Todos os grupos cooperam. Uns cooperam para trabalhar e outros cooperam para não trabalhar”. É fácil que, no segundo caso, equipes inteiras se unam em torno de lideranças às avessas que são especialistas em inspirar a união através do boicote e da procrastinação.
Não é?
O PIMPÃO, por outro lado, é… PIMPÃO. Claro que não basta ser PIMPÃO, é preciso entregar. Vamos partir do pressuposto que o PIMPÃO está bem resolvido tecnicamente e aí a disseminação da nova cultura é quase que uma parte natural da personalidade e das atividades diárias dele. O PIMPÃO não dissemina conhecimento, ele transforma toda e qualquer conversa técnica em papo de boteco. Você tá lá, no corredor, falando bobagem e quando viu, aprendeu alguma coisa interessante. E o corredor é um poderoso instrumento de trabalho para o PIMPÃO. Ele passa muito tempo nele, transitando entre diferentes departamentos e fazendo a polinização tão cara à disseminação da nova cultura. O PIMPÃO reconhece barreiras, paredes, cargos, andares e salários. Mas ele não leva isso tão a sério. Só o suficiente pra não ser mandado embora.
O PIMPÃO, claro, nem sempre é uma pessoa. Às vezes é uma equipe. Mas mais do que isso, ele é um conceito, uma forma de fazer as coisas. O PIMPÃO, ou o PIMPÃONISMO, não é uma unanimidade e nem sempre a única resposta pra introdução de novas culturas. Também dá pra fazer com aquele psicopata lá de cima (e como tem agência que usa esse recurso, faz-se fortunas com isso). Mas é como diz uma frase que vi numa matéria da The New Yorker sobre outro assunto: ”Nós passamos uma geração inteira tentando reorganizar as escolas pra tentar fazê-las melhores, mas a verdade é que as pessoas aprendem com pessoas que elas amam.”
Desculpa o fechamento hippie, talvez seja um exagero. Mas acho que deu pra entender qual é o ponto.
***
Imagens: esculturas da Kiki Smith
6 Comentários






Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital na Rádio Oficial de Verão com o programa Minimalismo. Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 



21 de fevereiro de 2011 às 10h39
Tu lembra qm era o Pimpão, neh? :P
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21 de fevereiro de 2011 às 10h41
Mas claaaaro… :-)
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21 de fevereiro de 2011 às 11h06
[...] A importância do pimpão – Conector – OESQUEMA oesquema.com.br/conector/2011/02/21/a-importancia-do-pimpao.htm – view page – cached OESQUEMA: portal dos jornalistas Alexandre Matias (Trabalho Sujo), Arnaldo Branco (Mau Humor), Bruno Natal (URBe) e Gustavo Mini (Conector) Show influential only (2) $(‘#filter-infonly’).change(function() { var el = $(this); var url = document.location.href; var checked = el.attr(‘checked’); if (checked) { document.location.href = url + ((/?/.test(url)) ? ‘&’ : ‘?’) + ‘infonly=1′; } else { document.location.href = url.replace(/[?&]?infonly=1/,”); } }); [...]
21 de fevereiro de 2011 às 11h31
Muito bom Mini!
Eu quero um pimpão do meu lado!
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24 de fevereiro de 2011 às 15h24
Pô, ainda bem que eu li isso antes de mandar fazer os cartões aqui na agência. Será que devo mandar trocar “creative technologist” pra PIMPÃO?
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24 de fevereiro de 2011 às 15h27
[...] A importância do pimpão [ creative technology ] O PIMPÃO não dissemina conhecimento, ele transforma toda e qualquer conversa técnica em papo de boteco. Você tá lá, no corredor, falando bobagem e quando viu, aprendeu alguma coisa interessante. E o corredor é um poderoso instrumento de trabalho para o PIMPÃO. Ele passa muito tempo nele, transitando entre diferentes departamentos e fazendo a polinização tão cara à disseminação da nova cultura. O PIMPÃO reconhece barreiras, paredes, cargos, andares e salários. Mas ele não leva isso tão a sério. Só o suficiente pra não ser mandado embora. via oesquema.com.br [...]