24 de março de 2011 às 11h48
A energia da reclamação digital
Que a internet é uma maravilha pra conectar os seres humanos e democratizar aspectos políticos, econômicos e culturais na sociedade, isso todo mundo já se deu conta. Mas pouca gente fala no quanto a internet também tem potencial pra incrementar o nível de reclamação inútil no mundo.
Reclamar dá muito menos trabalho do que fazer alguma coisa. O reclamismo combina com as ferramentas de disseminação de conteúdo. Basta reclamar e disseminar que parece que você fez alguma coisa. Os processos colaborativos digitais que resultam em ação organizada ainda estão num estágio de amadurecimento. É importante que a gente dê atenção a esse tema e comece pensar nesse conceito do ponto de vista do desperdício energético: talvez estejamos vivendo numa época de muita energia usada pra reclamar e disseminar reclamações e pouca energia aplicada em colaboração consistente que gere ações.
Claro que botar a boca no mundo é importante, traz resultados, joga luz em certas questões. Mas disso também pode-se gerar um hábito distorcido de só botar a BOCA no mundo. E as mãos, onde ficam? Na cintura, tipo chaleirinha, reclamando e batendo o pezinho? Bom, pro meu post também não ficar com cara de mera reclamação, deixo algumas sugestões do que fazer a esse respeito.
Primeiro, acredito que é preciso reconhecer em si se há ou não a tendência de reclamação inútil. Nem todo mundo que reclama na internet está fazendo só isso. Em segundo lugar, ter a consciência de que não dá pra abraçar o mundo e tentar apoiar todas as causas do momento – isso só é possível mesmo nas redes sociais. Em terceiro lugar, saber que existem muitas forma de colaborar e a maior parte delas não dá ibope, likes ou views. A maioria das pessoas que eu conheço que fazem um trabalho interessante em termos sociais não tem muita audiência na internet. Outras tem, mas o foco delas não é necessariamente este.
Em quarto lugar, vale pensar que trabalhar no próprio entorno, tornando relações familiares e profissionais mais saudáveis, por exemplo, já é muitas vezes uma ação de impacto social. Se isso não for possível ou suficiente, engajar-se em uma associação que existe fisicamente também é sempre válido porque nos coloca frente a frente com questões concretas que podem inclusive serem trabalhadas via canais digitais. Em quinto lugar, me vem à mente uma lição que eu aprendi no zen shiatsu. Minha professora costuma dizer que um ponto muscular tenso nem sempre é resolvido com um trabalho específico naquele ponto, mas sim com um trabalho geral no corpo e nos arredores. Com o tempo, aquele nó acaba se desfazendo porque os arredores foram soltos.
Ou seja, onde a gente estiver atuando com o coração, com presença mental, com boas intenções, com certeza estará colaborando para uma reação em cadeia maior e efetiva. Mesmo que isso não gere muitos retwitts.
***
Post inspirado num dos programetes Minimalismo que eu faço pra Oi FM.
Todos os dias às 9h30 e às 13h45 no seu rádio ou na webradio.
Publicado a pedido da ouvinte Mariana Palhares.
Fotos: Julien Vallè
4 Comentários





Editor, redator e (às vezes) desenhista neste blog. Guitarrista e vocalista dos Walverdes. Comentarista de cultura digital no programa Minimalismo (em pausa!). Colunista da revista Mais Soma. Diretor de Estratégia e Inovação na Competence. Entre outras coisas.
gustavomini arroba gmail.com 



28 de março de 2011 às 12h33
Ótimo texto. Vejo muito disso nos comentários de notícias dos jornais online que leio. Todo mundo é especialista, sempre reclama de tudo, mas fazer mesmo são outros quinhentos anos… Realmente é muito mais fácil reclamar do que agir, e nessa época em que todos querem aparecer, ser o mais comentado, “curtido”, fazer algo sem esse reotorno pode ser um bom ensinamento pra desapegar do ego.
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28 de março de 2011 às 12h38
Não vou reclamar… hehe! Achei muuuuito bom!
Às vezes a gente tem que repensar nossas atitudes mesmo e reorientar nossas energias!
Abraço.
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28 de março de 2011 às 15h24
Junior, realmente… espaço de comentário em jornal online é um viveiro de reclamismo…
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8 de dezembro de 2011 às 9h30
POR QUE O PROCON NAO ADOTA
A RECLAMACAO DIGITAL
POR ASSIM O RECLAMANTE
NAO PRECISARIA IR NA
AGENCIA DO PROCON E PERDER
TEMPO EM FILAS.
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