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Diferentes iguais

Não sei quanto a vocês, mas de minha parte não adianta: é difícil entender a extensão da encrenca dos outros a menos que eu esteja na mesma situação. Não que me falte capacidade de abstração ou criatividade para imaginar os cenários. Mas é que o poder da experiência direta, sem dúvida, continua sendo o professor mais eficiente.

Escrevo sobre isso porque há algumas semanas estive em Buenos Aires e minha mulher me proporcionou viver um desses momentos em que você, queira ou não, se coloca no lugar do outro. Ganhei de presente uma visita à… exposição? Instalação? Experiência?… enfim, ao Dialogos en La Escuridad, um… passeio? Caminho?… onde você passa pouco mais de sessenta minutos experimentando como é ser cego.

Funciona da seguinte forma: você chega, paga o ingresso, ganha uma bengala e se junta a um pequeno grupo de visitantes. É instruído a deixar mochilas e óculos num armariozinho e entra por um corredor absolutamente – ABSOLUTAMENTE – escuro. Mesmo. Não dá pra enxergar NADA. ZERO. BREU. E assim vai ser pela próxima hora.

Lá dentro, uma voz se identifica como seu guia. É um cego, um especialista em um contexto no qual somos todos, de repente, novatos. Isso já faz parte do aprendizado involuntário: de uma hora pra outra, o grupo passa a DEPENDER de alguém que costuma olhar como portador de uma deficiência em vez de portador de habilidades. Ao londo do trajeto, precisamos intensamente da orientação do nosso guia para nos locomovermos, nos entendermos, nos encontrarmos, darmos alguns passos que sejam. O guia, por outro lado, é justamente isso: um guia. Como ele não pode levar cada um pela mão – embora o faça em situações de maior dificuldade, procura orientar, acalmar e incentivar a exploração dos ambientes usando os sentidos que nos sobram.

São quatro situações pelas quais passamos: um bosque, uma rua movimentada, um barco e um bar. Em todos precisamos nos localizar, nos movimentar e tentar aproveitar. No bosque, o desfrute é mais simples. O som, os cheiros e o entorno é agradável. Somos convidados a cheirar, tocar, ouvir e sentir. Na cidade, o bicho pega com buzinas, carros e o onipresente ruído da construção civil. Nesse momento, todo meu entusiasmo com anos de leitura de Demolidor (o herói cego da Marvel que me fez pensar que eu sabia como fazer isso tudo) foram por água abaixo. A situação é opressora e estressante, mas – outra lição – o grupo se ajuda e também servimos de guia entre nós. No barco, não há grandes dificuldades. E no bar já chegamos um pouco mais “experientes”. Compramos café, água, refrigerante e alfajor com as notas de dois pesos que fomos orientados a trazer. Sentados, a última aula. Trocamos impressões, contamos o que sentimos, ainda sem podermos enxergar uns aos outros.

Lembre-se: mal nos vimos lá fora, não nos conhecemos. No entanto, a intensidade da experiência e o escuro estimulam todos a revelarem não apenas o lado agradável da experiência, mas também a angústia, as dificuldades e o medo de ficar uma hora – apenas uma hora! – desprovidos de informações visuais.

Eu pensei que experimentar um pouco da dificuldade de viver sem enxergar seria o mais tocante, o mais chocante, o mais incrível. Mas o que REALMENTE me impressionou foi ver tão claramente (desculpe o trocadilho barato) as minhas dificuldades e os meus limites no que diz respeito a entender as dificuldades e os limites dos outros, sejam eles cegos ou não.

É muito bonito saber da importância e do valor de colocar-se no lugar do outro. Mas também é muito útil saber o quanto isso é difícil e contraintuitivo.

Ainda nesse departamento.

Esses dias assistimos Yo También, cujo trailer está aqui. É também uma experiência interessante no que diz respeito a entrar um pouco no universo de uma pessoa portadora de deficiência. No caso, a história começa apresentando um rapaz sevillano com síndrome de Down que, aos 34 anos, se forma na universidade e começa a trabalhar.

O que se segue, definitivamente, NÃO é o desenrolar de um dramalhão no estilo “rapaz com dificuldades vence as adversidades, luta contra tudo e contra todos e mostra que quem vai atrás dos seus sonhos pode tudo.” Sim, as questões do preconceito, da inserção social, da família, da sexualidade dos portadores de Down, tudo isso é abordado. Mas se você quer se rasgar com choro fácil, esqueça. Os sentimentos que o filme sucita são bem mais amplos (e às vezes constrangedores) do que a clássica “pena”.

O que torna Yo También especial, na verdade, é justamente a capacidade de encontrar áreas comuns que pessoas portadoras e não portadoras de síndrome de Down compartilham, como amor não correspondido, isolamento e a dificuldade de encontrar o seu lugar no mundo. No fim das contas, quem não porta ou já não portou essas deficiências?

Resumo: o bom de Yo También não é o que nos faz diferentes, mas sim iguais ao protagonista.

3 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Arte tags: , , , ,

3 Comentários

Comentário por Fernanda Obregon
24 de agosto de 2011 às 17h17

Mini,

Que coincidência. Esta semana fiquei observando uma nova aluna da minha academia: ela parece ter a minha idade e é cega. Ela está fazendo musculação com um personal, mas já se orienta em alguns aparelhos e até regula os pesos.

Fiquei pensando em como nos falta conviver com pessoas cujas realidades demandam percepções diferentes. Queria entender como ela percebe e sente as pessoas. Como funciona sua percepção.

Acho que temos muito a trocar com pessoas assim.

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Comentário por Monsores
26 de agosto de 2011 às 10h53

Caramba, Mini… como você é bom de texto.

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Comentário por Gustavo Mini
26 de agosto de 2011 às 11h57

Valeu, Monsores… são seus olhos… :-)

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