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Um outro mundo é impossível

Na corrida, colo aqui algumas anotações que fiz ontem durante o primeiro dia do Fórum Social Temático e do Conexões Globais em Porto Alegre. São notas esparsas tecladas no celular durante o debate de abertura do Conexões (com o Gilberto Gil, o Antônio Martins, o Vinícius Wu e a Olga Rodriguez) e o papo na Pós-TV (com o Sérgio Amadeu, Cláudio Prado e a Ivana Bentes). Considerem esses parágrafos uma saladinha de fruta do que vi e ouvi lá, misturado com alguma coisa que eu mesmo pensei.

1. A mudança vem aos poucos. Não se pode trocar um sistema estabelecido por outro, isso não acontece. O que se faz é ir mexendo em áreas do sistema, irrigando com novas idéias, novos conceitos, novos pensamento, substituindo as peças. Por isso, a mobilização nunca pára, a mobilização é permanente.

2. Da mesma forma, por isso a política não pode ser algo que se faz de 2 em 2 anos com um voto numa urna eletrônica. Política é a ação do dia-a-dia, escolhas e caminhos que se faz, em casa, no trabalho, na rua, na rede.

3. Depois de grandes mobilizações populares, como o Occupy, é preciso ter mecanismos de “governança pós-revolta”. Porque é muito comum, na hora de resolver a crise, voltar às estruturas políticas formais tradicionais.

4. A troca assimétrica é um novo parâmetro. A troca simétrica é a lógica do mercado: você me diz que esse produto vale 5 patacas, eu lhe dou 5 patacas. Mas num mundo conectado em rede, as trocas começam a se tornar mais assimétricas e mais dependentes dos afetos: eu gosto desse conteúdo, então eu pago mais. Eu não gosto desse, então não pago, baixo de graça. Os laços de amizade e os laços familiares são exemplos de trocas assimétricas: você não consegue botar as relações na ponta do lápis, as contas raramente fecham. Esse tipo de conceito está migrando para o mercado e para as estruturas formais políticas e econômicas. As contas não vão mais fechar do jeito clássico.

Uma digressão: o mundo corporativo é falsamente baseado em trocas simétricas. Politicagem, maracutaia e joguetes emocionais são um belo exemplo de como nem sempre 5 reais vale 5 reais. Existem outros jogos envolvidos.

5. Não é apenas a ação que tem poder. O discurso também tem poder. A mobilização mundial em torno da questão SOPA/PIPA não envolveu tanta gente indo pra rua. Foi uma mobilização de discurso, de expor para o mundo as entranhas do projeto e suas consequências. Como todas as pessoas são hoje retransmissoras de mídia, seu discurso pode ganhar status de ação quando coordenado com o espírito do tempo.

6. Um outro mundo é impossível. Temos que dar um jeito nesse mesmo.

2 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Destaque, Texto tags: , ,

2 Comentários

Comentário por Patricia Vieira
26 de janeiro de 2012 às 17h59

Estou com saudades disso. Obrigada!

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Comentário por Gustavo Nering
1 de fevereiro de 2012 às 17h53

Nada mais cristão que seu sexto ponto.

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