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Sobre os desafios de ser seu próprio editor

A Zero Hora publicou, faz algumas semanas, uma entrevista curta porém bem bacana com o jornalista americano David Carr. A pauta era jornalismo investigativo, mas no meio da história tinha também um comentário interessante sobre o consumo de informação nos dias de hoje. Aí vai:

“Os tablets são nossos amigos, mas a Newscorp criou um jornal apenas para tablet e não deu certo. Parte da questão é que, se você desliga o tablet, não consegue ver o jornal. (Pega o tablet do repórter) Onde ele está? Se foi. Não está ali, parado, sugerindo a você o que ler. Coisas que estão ali, disponíveis, ficam incomodando, até que a gente para e diz “tenho de ler isso”. Um aplicativo puramente para tablet normalmente não se integra bem com o ecossistema de links do Twitter ou do Facebook, mas é um grande equipamento de leitura.

Meu problema com isso é o seguinte: no New York Times, a seção de notícias Internacionais vem primeiro. Então eu a leio. Se estou no iPad, nunca chego nem perto. Porque no jornal há uma hierarquia e, se eu fosse escolher, só escolheria outras coisas, nunca a Internacional. Parece que, nesses casos, as notícias sérias sempre perdem a disputa com outras, mais leves.”

Quando li essa entrevista, na hora me lembrei de algo que queria há horas escrever aqui que é o seguinte: em um contexto no qual nos tornamos nossos próprios editores, quais são nossas qualificações para este papel? Somos competentes o suficiente para isso? Você confia em você mesmo como editor do próprio jornal? E como ficam a sua parcialidade, os seus interesses políticos e econômicos?

 

Claaaaaaro que não acho que sejamos todos incapazes de nos qualificarmos pra essa tarefa, mas justamente este é o ponto: precisamos nos qualificar pra esta tarefa. Curar nossas próprias fontes, construir nosso pequeno império de comunicação, montar nosso buffet de informação não são atividades naturais – pelo menos não eram até bem pouco tempo atrás. Estamos coletivamente aprendendo a fazer isso.

A absorção fragmentada e independente de informação exige maior conhecimento e envolvimento por parte do público. Precisamos nos tornar compradores especializados e saber onde ir para conectar nossas mangueiras. Temos que descobrir quais são os sites confiáveis, os blogs respeitáveis, os tuiteiros mais valiosos. E, por outro lado, as plataformas tendenciosas, as fanpages de propagandismo barato. Mais: precisamos definir qual é nosso parâmetro para decidir tudo isso. O que significa respeitabilidade e confiabilidade? No fim das contas, estamos falando sobre a boa e velha habilidade de navegar criticamente no mundo da mídia.

Essa é uma antiga batalha dos teóricos da comunicação e dos intelectuais em geral mas com a complexidade adicional do universo digital. Além de conhecer os bons destinos de conteúdo, nossa época demanda também que dominemos aplicativos e gadgets de consolidação – rss readers, instapapers e flipboards da vida. O que exige tempo não apenas para encontrar as ferramentas mas também para conhecê-las, testá-las, usá-las durante um tempo, alimentá-las, refinar seu uso e decidir se elas valem a pena ou não. Parece mais fácil comprar o jornal do dia. Ou abrir o portalzão que todo mundo acessa.

Estamos fadados, então, a depender dos grandes gargalos corporativos de informação pra sempre, inclusive na internet? Não, justamente porque grande benefício da cultura digital não é o empoderamento de todos e sim de muitos alguns (como já escrevi no post Nem Todo Mundo é Mídia) – os editores, curadores, selecionadores que forma um corpo plural e alternativo aos gargalos clássicos. O que o cidadão médio (que quiser se alimentar melhor) vai precisar é reaprender a escolher seus gargalos, educar seu paladar e, acima de tudo, a assumir a responsabilidade por suas escolhas.

Um segundo nível de auto-educação se faz necessário pelas peculiaridades tecnológicas: é o drama da primeira página, como bem desenhou Carr. Quando eu compro um (bom) jornal de papel ou uma (boa) revista impressa, estou confiando nas escolhas necessárias a um meio concreto e finito. Posso até pular páginas, mas sou impactado de alguma forma com notícias de um universo que nem sempre é o meu. Se sou ligado em cultura, preciso desmembrar o jornal e passar os olhos por economia antes de chegar no meu destino. Se sou obcecado apenas por notícias de esportes, em algum momento me relaciono com a seção de quadrinhos ou de política. No meio digital é mais fácil burlar isso montando filtros que agradam apenas a meu gosto. Ou, como diz o Eli Pariser, não preciso nem ter muito trabalho já que o Facebook e o Google estão fazendo isso por mim.

A grande questão que fica no ar, então, não é se as grandes redes de comunicação vão ou não “vencer ou serem vencidas” pelo pool de veículos independentes. A grande questão é se nós, individualmente, vamos ser capazes de nos ferramentar para um outro modelo de comunicação que exige de cada um a habilidades de um bom editor – faro para identificar informação qualificada, olhar global para compor cenários completos, capacidade seletiva para deixar coisa de fora e, acima de tudo, uma certa tendência iconoclasta para questionar, confrontar, incomodar e provocar.

No caso, a si mesmo.

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Outro post mais ou menos relacionado ao assunto: Nunca Esqueça da Torneira.

Matéria sobre o Eli Pariser na Época.

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por: Gustavo Mini postado em: Destaque, Digital, Imagem, Mente tags: , , , ,

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