OEsquema

Softer, worser, slower, weaker

Steve Jobs

Tudo bem. Tudo bem que o Brasil está vivendo uma época interessante, que faz convergir estabilidade econômica e transformações culturais. Tudo bem que estava na hora do espírito empreendedor declarado, esse derivado do mundo americano das start-ups, pipocar na mídia e nas conversas de mesa de bar. Tudo bem que faz bem,em certa medida, essa linguagem de metas, profissionalismo e eficiência. Mas eu espero sinceramente que essa onda comece a enfraquecer em 2013.

Não me leve a mal, não é que eu prefira um povo preguiçoso, acomodado e bagunçado. É que eu acho que andam nos aplicando um golpe nos últimos anos com todo esse papo de liderança, empreendedorismo, start-ups e coisas do tipo. A chegada de investimentos e escritórios de centenas de empresas americanas no Brasil nos últimos anos trouxe junto na bagagem, sem autorização da receita federal, a bíblia americana do fazer negócios. Um evangelho recheado de ideias interessantes e bem sucedidas, mas também de uma retórica chatíssima, repetitiva, e de uma mentalidade perigosa para a saúde mental do cidadão.

O expoente desse pensamento tem nome e sobrenome. Steve Jobs foi o gênio criativo dos negócios que fez a ponte entre os dois séculos nos quais viveu e também costurou num só tecido as mais diferentes culturas e estratos sociais no mundo todo. Foi na sua morte que essa segunda face mais pop apareceu. De repente, Jobs não era apenas o mártir de geeks e entrepreneurs mas figurinha de chiclete no bolso de trabalhadores de classes emergentes e sub-celebridades nacionais.

A face da filosofia de trabalho de Jobs mais visível e citada em geral são seu pendor intuitivo para entender os movimentos culturais da tecnologia e sua capacidade de articular diferentes linguagens para fazer acontecer. O que, no léxico mais popular, acaba reduzido a clichês abstratos como “inovação”, “liderança” e “convergência”. Menos comentado e menos conhecido é seu lado nervoso, ditatorial, obcecado, talvez doente. Sua índole “patrola”, que produziu não apenas produtos memoráveis e relevantes mas também talvez uma boa dose de aflição mental em quem trabalhava com ele. E é aí que eu quero chegar.

O lado obcecado, nervoso e intempestivo dos gênios é frequentemente usado por líderes não tão geniais assim para justificar comportamentos inapropriados, exagerados e insalubres. É essa maluquice de compor um ambiente de trabalho no qual pessoas dão o sangue pela empresa, trabalham doze horas por dia, perdem mais quatro em deslocamento, aguentam reuniões tensas, pressões inúteis, processos contraproducentes como se estivessem criando o próximo iPhone.

Mas em 99,9% dos casos elas não estão trabalhando no próximo iPhone, muito embora alguns líderes se transformem em simulacros de Jobs – e muitas vezes citam seus exemplos – pra tentar convencer suas equipes de que as bizarrices pelas quais passam no dia-a-dia valem a pena. E assim, muita gente acaba vivendo em versões reais do absurdo seriado The Office, com Michael Scotts que se acham Steve Jobs. Bom, essa é a essência dos Michael Scotts.

Lembra quando o Daft Punk cantava “Harder, Better, Faster, Stronger”? Pois então. Acho que isso é uma mentalidade do passado. A música foi lançada em 2001, deve ter sido composta no século anterior. Talvez seja hora de apostar em um mantra contrário, mais afinado com as necessidades contemporâneas: softer, worser, slower, weaker. O seu chefe não vai gostar, mas sua família, seus amigos, seu coração e sua sanidade vão.

***

Desenho: meu mesmo.

P.S.: sim, “worser” não existe, é uma forçação.

36 Comentários
por: Gustavo Mini postado em: Destaque, Digital tags: , ,

36 Comentários

Comentário por Claudio Franco
9 de janeiro de 2013 às 11h49

Sensacional. Adoro o empreendedorismo dos teus textos. Lúcidos e verdadeiros. Apesar de estar nessa onda, ainda respeito muito o meu coração. Abraço.

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Comentário por Gustavo Mini
9 de janeiro de 2013 às 16h41

Valeu, Claudio! A ideia não é que o empreendedorismo tenha problemas, mas essa diatorção que se faz dele. Abração!

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Comentário por Ariel Cardeal Malveira
9 de janeiro de 2013 às 12h14

A sua vida, saca?
http://www.oesquema.com.br/trabalhosujo/2007/05/11/a-sua-vida-saca.htm

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Comentário por Gustavo Mini
9 de janeiro de 2013 às 16h41

Pois é….

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Comentário por Thiago
9 de janeiro de 2013 às 13h30

Fala Gustavo, blz?

Cara, gostei do seu ponto de vista como um todo. Realmente, essa estress, esse apego pela inovação, resultado e etc gera uma série de problemas… Mas só discordo que o ponto não é essa bagagem americana que gera isso. É normal utilizarmos essas falácias para exemplificar nosso ponto de vista, mas a questão é que o capitalismo como um todo, o aumento da informação e a grande disputa por um espaço cada vez menor é que gera esses profissionais EXTREMAMENTE CONECTADOS… Acho que atribuir isso a um ‘excesso de empreendedorismo’ é mais maléfico do que benéfico, pois o empreendedorismo é o que move o mundo capitalista que vivemos.

Forte Abraço, cara. :-)

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Comentário por Gustavo Mini
9 de janeiro de 2013 às 16h39

Valeu, Tiago. Não acho também que seja exclusivo dos americanos. Acho que lugares como a China e Cingapura também tem essa mentalidade muito forte. Só acho que os EUA tem isso muito forte na sua cultura, inclusive de forma simbólica.

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Comentário por rock siles barcellos
9 de janeiro de 2013 às 14h00

O problema na real não é excesso de empreendedorismo mas excesso de pressão do governo pra pagar imposto q causa tanto stress e babaquice

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Comentário por Samyra
21 de janeiro de 2013 às 10h54

Não tem muito a ver isso, mas ok.

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Comentário por rock siles barcellos
9 de janeiro de 2013 às 14h05

e em retorno a gente tem um serviço tão porco, além de todos os desvios e corrupção claro. se a gente tivesse a opção de não pagar com certeza estariamos todos bem menos estressados

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Comentário por Moisés Dias Neto
9 de janeiro de 2013 às 14h34

Belo texto. Venho pensando nisso há um bom tempo, Você pôs no papel (na tela, hehe) com mais clareza do que eu tinha almejado. Parabéns.

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Comentário por Gustavo Mini
9 de janeiro de 2013 às 16h40

Valeu, Moisés.

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Comentário por Alessandro
9 de janeiro de 2013 às 14h48

Estava em uma empresa na época do filme O Diabo Veste Prada. Um belo dia, o dono da empresa teve a ideia de passar o filme para toda a equipe. Não conseguiu porque ainda não tinham lançado o DVD. Não entendi a sua motivação. Depois que eu vi o filme, eu compreendi. Compreendi que ele não entendeu o filme. Ou, pelo menos, entendeu segundo a visão dele. Como dono da empresa, para ele, o filme retratava que todo o funcionário deve dar o sangue pela empresa para crescer. Nada mais natural, já que ele era a Miranda. Não conseguiu enxergar que a história era uma reflexão sobre trocar a vida pelo trabalho e se isso realmente valia a pena. Mas, como diz o outro, gente é um bicho estranho que só enxerga o que quer ver.

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Comentário por Gustavo Mini
9 de janeiro de 2013 às 16h40

Nem todo mundo sabe como mobilizar o pessoal… Mas tentam de todas as formas, né…

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Comentário por Francisco
9 de janeiro de 2013 às 15h57

Texto bem articulado para uma ideia simples e corajosa.
O desenho ficou muito bom!

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Comentário por gabebritto
9 de janeiro de 2013 às 18h31

Foda, meu! Muito foda! Excelente!

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Comentário por joao
9 de janeiro de 2013 às 19h46

Este teu texto é fantástico, muito apropriado e me faz lembrar e pensar diversas coisas.
-Vi estes dias uma manchete de uma destas revistas tipo exame ou voce s/a estampando “Eu demito gente desmotivada”, li por alto, mas aquelas argumentações de vestir camiseta, encarar o negócio como seu etc, etc. Mas tudo escrito em um caminho único, sem reciprocidade.
- Isto me lembra também “A espada de Damocles”, aquela historinha de só ver a parte boa da coisa e não ver o lado ruim que vem anexo.
-E por fim, além de termos hoje as religiões personalizadas, onde cada um pega oque bem lhe convém, temos também os gurus e receitas de sucesso personalizadas, leio o resumo do resumo de uma teoria ou idéia e uso onde melhor convém.
Sei que os comentários não estão diretamente relacionados ao texto, mas se encaixam no mesmo público.
E parafraseando o Nicolau, ou não. Os fins nem justificam os meios.

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Comentário por Ariel Cardeal Malveira
10 de janeiro de 2013 às 15h38

Boa João.

E até que ponto produtividade significa trabalhar 14 horas por dia, né?

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Comentário por joao
9 de janeiro de 2013 às 19h52

Leibrei de outra. Falei com um latino, não lembro de onde ou de qual país ele falou, mas a visão que ele passou foi a seguinte.
No “país x da américa latina”, tudo é medido pelo certo ou errado, independente de ser ou não.
Nos EUA tudo é medido pelo ganhador e o perdedor. E no Brasil tudo é estética, não importa o conteúdo.
É.. nós somos o país dos “fazidos”.

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Comentário por Ronaldo Milani
9 de janeiro de 2013 às 20h00

realmente, jobs só é exemplo a ser seguido, na visão dos seguidores do diego mainardi.

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Comentário por Luis Giudice
10 de janeiro de 2013 às 1h38

Simplesmente genial!!!

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Comentário por Bruno
10 de janeiro de 2013 às 11h19

Com todo respeito, discordo.

O Brasil já soft demais, weak demais. Nossa sociedade não tem muita noção do que é planejamento, dedicação, disciplina.

Sou absolutamente a favor dos programas sociais; desde que tenham uma contrapartida. E, como não há, temos uma sociedade mole, mole, que patina para se desenvolver no melhor território do planeta, chamado Brasil.

Não defendo que o brasileiro trabalhe mais. Mas que trabalhe melhor e sem tanta auto piedade.

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Comentário por Gustavo Mini
10 de janeiro de 2013 às 17h19

Bruno, concordo com planejamento e disciplina. Sou virginiano. :-)

Mas acho que estamos importando um linguajar e uma cultura integralmente, sem pesar alguns contras.

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Comentário por Bruno
10 de janeiro de 2013 às 17h40

Quanto ao linguajar, concordo plenamente.

Minto.

Vou estar concordando plenamente. :-)

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Comentário por arlen
11 de janeiro de 2013 às 17h20

Sem falar na questão salário e etc né m? porque tipo, todas as empresas tem esta mentalidade do funcionario trabalhar 14h, nao ganhar hora extra e nao sei mais o que e tipo, nada de salário e os americanos ganham ou ganhavam muito bem.
Mais um texto EXTREMAMENTE EXCELENTE mini, a fude mesmo, como sempre. Grande abraço meu mini Gatsby

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Comentário por Fernando
10 de janeiro de 2013 às 17h36

Mini, pelo pouco que te conheço, sei que você se inspirou em alguém e na tua experiência recente de agência para escrever este post. Digo isso porque também trabalhei por 5 anos com essa pessoa, que aqui no Sul é a síntese de tudo isso que descreves no texto. Tô certo?

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Comentário por Gustavo Mini
19 de janeiro de 2013 às 20h02

Garros, meu texto é mais geral, não é indireta pra ninguém não.

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Comentário por Gustavo Mini
19 de janeiro de 2013 às 20h02

Acho que existe mesmo uma coisa cultural, mais ampla.

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Comentário por Alberro Ourique
10 de janeiro de 2013 às 17h53

Achei impecável o texto, cara. Tomara que seja devidamente compartilhado. Abs

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Comentário por rodrigot
11 de janeiro de 2013 às 12h56

já vivemos o softer, worser, slower, weaker ha mto tempo… talvez vc seja de são paulo e n tenha notado.

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Comentário por Gustavo
11 de janeiro de 2013 às 18h27

Eu não consigo achar esta ponte entre “Steve Jobs” e “Start-ups”. Um dos principais interesses de muitas start-ups é o de trabalhar menos e ganhar mais. Jobs é um exemplo (no sentido literal) de pessoa, assim como tantos outros na história. Agora, entender que Jobs é tido como o líder do movimento “startupiano” por conta de 2 ou 3 perdidos neste meio, que no caso, foi com quem o autor deste post conversou, é um exagero. Trabalhar demais, sempre foi glória de alguns. Trabalhar de menos, sempre foi glória de muitos. Enfim, cada um faz o que gosta…

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Comentário por Gustavo Mini
19 de janeiro de 2013 às 20h03

A ponte vem sendo feita no caldo cultural do mainstream. Tudo acaba misturado.

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Pingback por Uma visão … | my belle
12 de janeiro de 2013 às 16h41

[...] Leiam o texto completo: http://www.oesquema.com.br/conector/2013/01/09/softer-worser-slower-weaker.htm [...]

Comentário por vicente
21 de janeiro de 2013 às 18h26

Nem…

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Comentário por Marx
21 de janeiro de 2013 às 18h50

Concordo contigo, trabalhei com o Garros na mesma agência e na mesma época. Mas como o Gustavo falou, o negócio é mais geral.
Quando eu trabalhava em publicidade, fiquei anos pra tentar uma vaga em outro setor, mas não conseguia, pois tinha que concorrer com a gurizada que estagiava em regime escravo por 200 reais. Um diretor de criação conceituado nesse mercado publicitário gaúcho, disse em um curso da ESPM para um colega meu, que toda essa escravidão “Era o preço do glamour”.

Falta organização da categoria, mas vai falar pra publicitário que ele faz parte de uma categoria, ele vai dar um grito:
- Ui, categoria é coisa de peão, te largay.
Pois é, a galera não se une. É um mercado minúsculo que a galera toda se beija e ninguém se ama.
As assistentes sociais recentemente se uniram e reduziram sua carga horária de 44 horas semanais para 30, sem mudar nada no salário, pois trabalhavam sobre alto estresse. Mas publicitário prefere um rótulo de maluco, e twittar via iphone, tirando onda da própria situação. Publicitário vende ilusão pois na grande maioria, gostam de ilusão. Agora tem cinquenta cursos com nomes super maneiros pra galera se achar um bosta, gastar uma fortuna pra não chegar a lugar nenhum. Mas a galera aguenta tudo isso, o preço do glamour sendo pago com sangue e moral.

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Comentário por Walmor de Paula
21 de janeiro de 2013 às 19h11

Parabéns Gustavo, primeira vez que leio um texto seu e achei fantástico. Muito claro, objetivo e acima de tudo expõe algo que sai do comum. Concordo plenamente com sua opnião, sempre comento com amigos a obstinação das empresas em crescer sempre mais, por que não crescer até o suficiente e ponto. Penso que buscar tanto ser o maior faz com que a empresa se perca ao longo de sua trajetória, faz com que os valores pré-estabelecidos sumam ao longo de suas histórias e, com isso, tudo que fazem acaba perdendo a graça. Esse modelo causou colapso na economia mundial, está na hora de pensar em um sistema que seja sustentável na acepção da palavra, a vida deve ter equilíbrio sempre.

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